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    <title>Em Discurso Direto II</title>
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      <![CDATA[Épocas e Autores da Literatura Portuguesa em áudio.
Fernando Pessoa e o Modernismo - Episódio 1 a...
Cesário Verde
Antero de Quental
Felizmente Há Luar
]]>
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    <language>pt-pt</language>
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    <pubDate>Sun, 12 Apr 2026 23:47:47 +0000</pubDate>
    <itunes:keywords>literatura, ,portuguesa, ,adelina, ,moura, ,aprendizagem, ,m&#243;vel, </itunes:keywords>
    <copyright>Copyright 2026 adelina moura</copyright>
    <itunes:subtitle>A Literatura Portuguesa em &#225;udio: Modernismo (Fernando Pessoa)</itunes:subtitle>
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Fernando Pessoa e o Modernismo - Epis&#243;dio 1 a...
Ces&#225;rio Verde
Antero de Quental
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    <item>
      <title>Episode 70: Epis&#243;dio 70 - An&#225;lise do poema &quot;voltas a mote &quot;, Vasco Gra&#231;a Moura</title>
      <itunes:title>Epis&#243;dio 70 - An&#225;lise do poema &quot;voltas a mote &quot;, Vasco Gra&#231;a Moura</itunes:title>
      <itunes:episode>70</itunes:episode>
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      <description>
        <![CDATA[voltas a mote

A poesia a quem recorre:
 Ao verso que a mantem viva
 Ou ao poeta que nela morre?

                            Ivan Junqueira
 
 há hoje razões de sobra
 pra que a razão se desforre
 nas respostas que desdobra
 nestas questões de mão de obra:
 a poesia a quem recorre?
 
 se os sentimentos desata
 ou prende a dor que se esquiva
 e a frouxa oficina a mata,
 o próprio excesso a arrebata
 no verso que a mantém viva.
 
 e assim lançada no voo,
 desde que as regras não borre,
 algumas vezes passou ou à vida escrita, ou ao poeta que nela morre.                                                     Vasco Graça Moura]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 09 Mar 2020 11:39:43 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2020-03-09</dcterms:created>
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      <itunes:summary>voltas a moteA poesia a quem recorre:&amp;nbsp;Ao verso que a mantem viva&amp;nbsp;Ou ao poeta que nela morre?&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Ivan Junqueira  h&#225; hoje raz&#245;es de sobra pra que a raz&#227;o se desforre nas respostas que desdobra nestas quest&#245;es de m&#227;o de obra: a poesia a quem recorre?  se os sentimentos desata ou prende a dor que se esquiva e a frouxa oficina a mata, o pr&#243;prio excesso a arrebata no verso que a mant&#233;m viva.&amp;nbsp; e assim lan&#231;ada no voo, desde que as regras n&#227;o borre, algumas vezes passou&amp;nbsp;ou &#224; vida escrita, ou&amp;nbsp;ao poeta que nela morre.&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Vasco Gra&#231;a Moura</itunes:summary>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 69 - An&#225;lise do poema &quot;Visita&#231;&#245;es - ou poema que se diz manso&quot;, de Ana Lu&#237;sa Amaral</title>
      <description>
        <![CDATA[De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.]]>
      </description>
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      <pubDate>Thu, 07 Nov 2019 12:38:35 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas n&#227;o
t&#227;o de mansinho. Os p&#233;s descal&#231;os,
de ru&#237;do menor que o do meu l&#225;pis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas n&#227;o
t&#227;o mansamente, n&#227;o com esta exig&#234;ncia
t&#227;o mansinha. Como um ladr&#227;o furtivo,
a minha filha roubou-me inspira&#231;&#227;o,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas n&#227;o
t&#227;o de mansinho....</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 68 - An&#225;lise do poema &quot;T&#233;cnica vs Artesanato&quot;, de Ana Lu&#237;sa Amaral</title>
      <description>
        <![CDATA[Vou falar de uma coisa:
comprei computador, aparelho
de larga inteligência e letra certa.
Fascinaram-me os bips,
a linguagem decifrada e tensa, as letras
(ou quase todas) a caberem.
Pensei: que bom será sem precisar de folha,
os meus poemas na fase inicial
pelo écran.

E comecei na escrita: um toque leve,
em intermédio bips, e a palavra
fugindo desabrida.
Perseverei (que os tempos urgem
e a poesia já não doce folha de linhas,
já não tempo parado,
antes segura e galopante técnica).

Mas faltava-me o risco,
os meus traços por cima das palavras,
a minha mão precária a entender refúgios,
os dedos viciados pelo lápis.
Faltava a minha raiva pela folha,
o meu carinho às vezes, embarcações macias
e barulho de remos.

Vou falar de uma coisa:
bips só no trabalho, o écran certo
e que viva o papiro, o pergaminho,
as pregas pelo tempo, a raiva toda aos riscos
e a poesia conquistada
a vício.

Ana Luísa Amaral]]>
      </description>
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      <itunes:summary>Vou falar de uma coisa:
comprei computador, aparelho
de larga intelig&#234;ncia e letra certa.
Fascinaram-me os bips,
a linguagem decifrada e tensa, as letras
(ou quase todas) a caberem.
Pensei: que bom ser&#225; sem precisar de folha,
os meus poemas na fase inicial
pelo &#233;cran.

E comecei na escrita: um toque leve,
em interm&#233;dio bips, e a palavra
fugindo desabrida.
Perseverei (que os tempos urgem
e a poesia j&#225; n&#227;o doce folha de linhas,
j&#225; n&#227;o tempo parado,
antes segura e galopante t&#233;cnica).

Mas faltava-me o risco,
os meus tra&#231;os por cima das palavras,
a minha m&#227;o prec&#225;ria a entender ref&#250;gios,
os dedos viciados pelo l&#225;pis.
Faltava a minha raiva pela folha,
o meu carinho &#224;s vezes, embarca&#231;&#245;es macias
e barulho de remos.

Vou falar de uma coisa:
bips s&#243; no trabalho, o &#233;cran certo
e que viva o papiro, o pergaminho,
as pregas pelo tempo, a raiva toda aos riscos
e a poesia conquistada
a v&#237;cio.

Ana Lu&#237;sa Amaral</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Vou falar de uma coisa:
comprei computador, aparelho
de larga intelig&#234;ncia e letra certa.
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 67 - An&#225;lise do poema &quot;C&#226;mara escura&quot;, de Ana Lu&#237;a Amaral</title>
      <description>
        <![CDATA[São assim as memórias:
coisas cheirando a sol,
outras a morte,
algumas a pequenos sons metálicos
que convém afiar

Em tom de contrabaixo
um rouco saxofone
devagar,
no tempo

Persistem-se nos cheiros,
como nuvens,
contas em trança de pequeno terço:
a terra ou o assado, o leite ou o suor da maior agonia
Cofre guardado muito mais que em cor,
velocidade em teor
do universo,
de precisão tão mais
que a fotografia


Ana Luísa Amaral
in "Às vezes, o Paraíso", 1998]]>
      </description>
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outras a morte,
algumas a pequenos sons met&#225;licos
que conv&#233;m afiar

Em tom de contrabaixo
um rouco saxofone
devagar,
no tempo

Persistem-se nos cheiros,
como nuvens,
contas em tran&#231;a de pequeno ter&#231;o:
a terra ou o assado, o leite ou o suor da maior agonia
Cofre guardado muito mais que em cor,
velocidade em teor
do universo,
de precis&#227;o t&#227;o mais
que a fotografia


Ana Lu&#237;sa Amaral
in &quot;&#192;s vezes, o Para&#237;so&quot;, 1998</itunes:summary>
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coisas cheirando a sol,
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 66 - An&#225;lise do poema &quot;Soneto do Soneto&quot;, Vasco Gra&#231;a Moura</title>
      <description>
        <![CDATA[catorze versos tem este soneto
de dez sílabas cada, na contagem
métrica portuguesa; de passagem,
o esquema abba dá esqueleto

aos versos do começo: a engrenagem
podia ser abab, mas meto
aqui baab: destarte, preto
no branco, instabilizo a sua imagem.

teria, isabelino, uma terceira
quadra, cddc e ee final,
em vez de dois tercetos com quilate

sempre de ouro no fim, de tal maneira
porém o engendrei continental
que em duplo cde tem seu remate.
]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 03 Nov 2019 21:53:21 +0000</pubDate>
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de dez s&#237;labas cada, na contagem
m&#233;trica portuguesa; de passagem,
o esquema abba d&#225; esqueleto

aos versos do come&#231;o: a engrenagem
podia ser abab, mas meto
aqui baab: destarte, preto
no branco, instabilizo a sua imagem.

teria, isabelino, uma terceira
quadra, cddc e ee final,
em vez de dois tercetos com quilate

sempre de ouro no fim, de tal maneira
por&#233;m o engendrei continental
que em duplo cde tem seu remate.
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de dez s&#237;labas cada, na contagem
m&#233;trica portuguesa; de passagem...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 65 - An&#225;lise do poema Vou por ruas / vou por pra&#231;as</title>
      <description>
        <![CDATA[Vou por ruas, vou por praças
por onde à noite derivo
arcadas, paredes baças
luzes trémulas, escassas
e silêncios de que vivo [bis]

rente ao baixo casario
vou por húmidas vielas
chega-me o cheiro do rio
e confio e desconfio
a desoras, sem cautelas [bis]

e por isso em cada muro
cada porta e cada esquina
te procuro e me procuro
por teu corpo me aventuro
e o teu rosto me ilumina [bis]

ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina

sigo pois no labirinto
de Lisboa a horas tardas
vou perdido mas pressinto
ou sei mesmo por instinto
que nalgum lugar me aguardas [bis]

e por isso em cada muro
cada porta e cada esquina
te procuro e me procuro
por teu corpo me aventuro
e o teu rosto me ilumina [bis]

ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina
ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina

sigo pois no labirinto 
de lisboa a horas tardas 
vou perdido mas pressinto 
ou sei mesmo por instinto 
que nalgum lugar me aguardas 

e enquanto vou não domino 
nem ciúme nem paixão
 é assim que me defino 
só por sentir o destino 
a morder-me o coração ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 03 Nov 2019 21:50:33 +0000</pubDate>
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luzes tr&#233;mulas, escassas
e sil&#234;ncios de que vivo [bis]

rente ao baixo casario
vou por h&#250;midas vielas
chega-me o cheiro do rio
e confio e desconfio
a desoras, sem cautelas [bis]

e por isso em cada muro
cada porta e cada esquina
te procuro e me procuro
por teu corpo me aventuro
e o teu rosto me ilumina [bis]

ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina

sigo pois no labirinto
de Lisboa a horas tardas
vou perdido mas pressinto
ou sei mesmo por instinto
que nalgum lugar me aguardas [bis]

e por isso em cada muro
cada porta e cada esquina
te procuro e me procuro
por teu corpo me aventuro
e o teu rosto me ilumina [bis]

ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina
ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina

sigo pois no labirinto 
de lisboa a horas tardas 
vou perdido mas pressinto 
ou sei mesmo por instinto 
que nalgum lugar me aguardas 

e enquanto vou n&#227;o domino 
nem ci&#250;me nem paix&#227;o
 &#233; assim que me defino 
s&#243; por sentir o destino 
a morder-me o cora&#231;&#227;o </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Vou por ruas, vou por pra&#231;as
por onde &#224; noite derivo
arcadas, paredes ba&#231;as
luzes tr&#233;mulas, es...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 64 - An&#225;lise do poema &quot;Soneto pardacento&quot;, Vasco Gra&#231;a Moura</title>
      <description>
        <![CDATA[Soneto pardacento

estou em bruxelas de segunda a quinta:
há livrarias. não se come mal.
dos aviões, talvez eu me ressinta:
voos por ano faço cento e tal.

na europeia babel, rios de tinta
correm em cada língua oficial.
um dia, quando os quinze forem trinta,
deixa de haver europa ocidental.

das vénus que delvaux pintou, nenhuma
entre os espelhos e a melancolia
das gares e das luas, quando a cinza

do dia a dia as almas desarruma
em flamenga e francófona rezinza.
burguês. à chuva. adeus. sem maresia.

(Vasco Graça Moura) ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 03 Nov 2019 21:36:56 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2019-11-03</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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estou em bruxelas de segunda a quinta:
h&#225; livrarias. n&#227;o se come mal.
dos avi&#245;es, talvez eu me ressinta:
voos por ano fa&#231;o cento e tal.

na europeia babel, rios de tinta
correm em cada l&#237;ngua oficial.
um dia, quando os quinze forem trinta,
deixa de haver europa ocidental.

das v&#233;nus que delvaux pintou, nenhuma
entre os espelhos e a melancolia
das gares e das luas, quando a cinza

do dia a dia as almas desarruma
em flamenga e franc&#243;fona rezinza.
burgu&#234;s. &#224; chuva. adeus. sem maresia.

(Vasco Gra&#231;a Moura) </itunes:summary>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 63 - An&#225;lise do poema &quot;Padr&#227;o&quot; inserido na 2&#170; Parte da Mensagem de Fernando Pessoa</title>
      <description>
        <![CDATA[PADRÃO

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

13-9-1918
Mensagem. Fernando Pessoa. ]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 22 Oct 2019 20:41:34 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2019-10-22</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>PADR&#195;O

O esfor&#231;o &#233; grande e o homem &#233; pequeno.
Eu, Diogo C&#227;o, navegador, deixei
Este padr&#227;o ao p&#233; do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma &#233; divina e a obra &#233; imperfeita.
Este padr&#227;o sinala ao vento e aos c&#233;us
Que, da obra ousada, &#233; minha a parte feita
O por-fazer &#233; s&#243; com Deus.

E ao imenso e poss&#237;vel oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui v&#234;s,
Que o mar com fim ser&#225; grego ou romano:
O mar sem fim &#233; portugu&#234;s.

E a Cruz ao alto diz que o que me h&#225; na alma
E faz a febre em mim de navegar
S&#243; encontrar&#225; de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

13-9-1918
Mensagem. Fernando Pessoa. </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>PADR&#195;O

O esfor&#231;o &#233; grande e o homem &#233; pequeno.
Eu, Diogo C&#227;o, navegador, deixei
Este padr&#227;o ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title> Epis&#243;dio 18 - An&#225;lise do poema Horizonte - Mensagem</title>
      <description>
        <![CDATA[Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mysterio,
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio
'Splendia sobre as naus da iniciação.


Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se approxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da Verdade.]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 22 Oct 2019 20:36:09 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>&#211; mar anterior a n&#243;s, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerra&#231;&#227;o,
As tormentas passadas e o mysterio,
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio
'Splendia sobre as naus da inicia&#231;&#227;o.


Linha severa da long&#237;nqua costa -
Quando a nau se approxima ergue-se a encosta
Em &#225;rvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, h&#225; aves, flores,
Onde era s&#243;, de longe a abstracta linha.

O sonho &#233; ver as formas invis&#237;veis
Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
Movimentos da esp'ran&#231;a e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A &#225;rvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da Verdade.</itunes:summary>
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Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cer...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 107 - An&#225;lise do poema Dies Irae</title>
      <description>
        <![CDATA[Dies Irae
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem']]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 19 Oct 2019 18:34:48 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Dies Irae
Apetece cantar, mas ningu&#233;m canta.
Apetece chorar, mas ningu&#233;m chora.
Um fantasma levanta
A m&#227;o do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ningu&#233;m grita.
Apetece fugir, mas ningu&#233;m foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ningu&#233;m morre.
Apetece matar, mas ningu&#233;m mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldi&#231;&#227;o do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que n&#227;o temos
E as ang&#250;stias paradas!

Miguel Torga, in 'C&#226;ntico do Homem'</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Dies Irae
Apetece cantar, mas ningu&#233;m canta.
Apetece chorar, mas ningu&#233;m chora.
Um fantasma le...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 106 - An&#225;lise do poema Cantiga de Maldizer</title>
      <description>
        <![CDATA[Esta menina que eu sei
É como a rosa dos ventos:
Ora grita aqui-del-Rei,
Se alguém a vem namorar,
Ora maldiz os conventos
Onde o pai a quer guardar.

É um riso agradecido
E um pranto de se acabar.

Parece um fruto maduro,
Do outro lado do muro,
Com medo de ser comido
E medo de ali ficar.

MIGUEL TORGA
(12-9-1946)]]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 19 Oct 2019 18:32:08 +0000</pubDate>
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Ora grita aqui-del-Rei,
Se algu&#233;m a vem namorar,
Ora maldiz os conventos
Onde o pai a quer guardar.

&#201; um riso agradecido
E um pranto de se acabar.

Parece um fruto maduro,
Do outro lado do muro,
Com medo de ser comido
E medo de ali ficar.

MIGUEL TORGA
(12-9-1946)</itunes:summary>
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&#201; como a rosa dos ventos:
Ora grita aqui-del-Rei,
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 105 - An&#225;lise do poema Orpheu Rebelde</title>
      <description>
        <![CDATA[Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

                        Miguel Torga]]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 19 Oct 2019 18:28:36 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a f&#250;ria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxin&#243;is...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o c&#233;u e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que h&#225; gritos como h&#225; nortadas,
Viol&#234;ncias famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em leg&#237;tima defesa.
Canto, sem perguntar &#224; Musa
Se o canto &#233; de terror ou de beleza.

                        Miguel Torga</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 104 - An&#225;lise do poema Majestade</title>
      <description>
        <![CDATA[Passa um rei — é o Poeta.
Não pela força de mandar,
Mas pela graça mágica e secreta
De imaginar.
O ceptro, a pena — a lançadeira cega
Do seu tear de versos.
O manto, a pele — arminho onde se pega
A lama dos caminhos mais diversos.

Um grande soberano
No seu triste destino
De ser um monstro humano
Por direito divino.

Autor: Miguel Torga (1907-1995)]]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 19 Oct 2019 18:26:14 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>Passa um rei &#8212; &#233; o Poeta.
N&#227;o pela for&#231;a de mandar,
Mas pela gra&#231;a m&#225;gica e secreta
De imaginar.
O ceptro, a pena &#8212; a lan&#231;adeira cega
Do seu tear de versos.
O manto, a pele &#8212; arminho onde se pega
A lama dos caminhos mais diversos.

Um grande soberano
No seu triste destino
De ser um monstro humano
Por direito divino.

Autor: Miguel Torga (1907-1995)</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Passa um rei &#8212; &#233; o Poeta.
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 103 - An&#225;lise do poema O Infante</title>
      <description>
        <![CDATA[Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma

E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente
Surgiu redonda do azul profundo

Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor, falta cumprir-se Portugal
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      <pubDate>Sat, 14 Sep 2019 19:23:27 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, j&#225; n&#227;o separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma

E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo at&#233; ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente
Surgiu redonda do azul profundo

Quem te sagrou, criou-te portugu&#234;s
Do mar e n&#243;s em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o imp&#233;rio se desfez
Senhor, falta cumprir-se Portugal
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      <itunes:subtitle>Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, j...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 102 - An&#225;lise do poema &quot;De tarde&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[DE TARDE

Naquele pic-nic de burguesas, 
Houve uma coisa simplesmente bela, 
E que, sem ter história nem grandezas, 
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico, 
Foste colher, sem imposturas tolas, 
A um granzoal azul de grão-de-bico 
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos, 
Nós acampámos, inda o Sol se via; 
E houve talhadas de melão, damascos, 
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda 
Dos teus dois seios como duas rolas, 
Era o supremo encanto da merenda 
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Cesário Verde, Lisboa, 1887]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 17:04:52 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>DE TARDE

Naquele pic-nic de burguesas, 
Houve uma coisa simplesmente bela, 
E que, sem ter hist&#243;ria nem grandezas, 
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico, 
Foste colher, sem imposturas tolas, 
A um granzoal azul de gr&#227;o-de-bico 
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos, 
N&#243;s acamp&#225;mos, inda o Sol se via; 
E houve talhadas de mel&#227;o, damascos, 
E p&#227;o-de-l&#243; molhado em malvasia.

Mas, todo p&#250;rpuro a sair da renda 
Dos teus dois seios como duas rolas, 
Era o supremo encanto da merenda 
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Ces&#225;rio Verde, Lisboa, 1887</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>DE TARDE

Naquele pic-nic de burguesas, 
Houve uma coisa simplesmente bela, 
E que, sem ter h...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 101 - An&#225;lise do poema &quot;Num Bairro Moderno&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Num Bairro Moderno
Dez horas da manhã; os transparentes 
Matizam uma casa apalaçada; 
Pelos jardins estancam-se as nascentes, 
E fere a vista, com brancuras quentes, 
A larga rua macadamizada. 

Rez-de-chaussée repousam sossegados, 
Abriram-se, nalguns, as persianas, 
E dum ou doutro, em quartos estucados, 
Ou entre a rama do papéis pintados, 
Reluzem, num almoço, as porcelanas. 

Como é saudável ter o seu conchego, 
E a sua vida fácil! Eu descia, 
Sem muita pressa, para o meu emprego, 
Aonde agora quase sempre chego 
Com as tonturas duma apoplexia. 

E rota, pequenina, azafamada, 
Notei de costas uma rapariga, 
Que no xadrez marmóreo duma escada, 
Como um retalho da horta aglomerada 
Pousara, ajoelhando, a sua giga. 

E eu, apesar do sol, examinei-a. 
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos; 
E abre-se-lhe o algodão azul da meia, 
Se ela se curva, esguelhada, feia, 
E pendurando os seus bracinhos brancos. 

Do patamar responde-lhe um criado: 
"Se te convém, despacha; não converses. 
Eu não dou mais." È muito descansado, 
Atira um cobre lívido, oxidado, 
Que vem bater nas faces duns alperces. 

Subitamente - que visão de artista! - 
Se eu transformasse os simples vegetais, 
À luz do Sol, o intenso colorista, 
Num ser humano que se mova e exista 
Cheio de belas proporções carnais?! 

Bóiam aromas, fumos de cozinha; 
Com o cabaz às costas, e vergando, 
Sobem padeiros, claros de farinha; 
E às portas, uma ou outra campainha 
Toca, frenética, de vez em quando. 

E eu recompunha, por anatomia, 
Um novo corpo orgânico, ao bocados. 
Achava os tons e as formas. Descobria 
Uma cabeça numa melancia, 
E nuns repolhos seios injetados. 

As azeitonas, que nos dão o azeite, 
Negras e unidas, entre verdes folhos, 
São tranças dum cabelo que se ajeite; 
E os nabos - ossos nus, da cor do leite, 
E os cachos de uvas - os rosários de olhos. 

Há colos, ombros, bocas, um semblante 
Nas posições de certos frutos. E entre 
As hortaliças, túmido, fragrante, 
Como alguém que tudo aquilo jante, 
Surge um melão, que lembrou um ventre. 

E, como um feto, enfim, que se dilate, 
Vi nos legumes carnes tentadoras, 
Sangue na ginja vívida, escarlate, 
Bons corações pulsando no tomate 
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. 

O Sol dourava o céu. E a regateira, 
Como vendera a sua fresca alface 
E dera o ramo de hortelã que cheira, 
Voltando-se, gritou-me, prazenteira: 
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!..." 

Eu acerquei-me dela, sem desprezo; 
E, pelas duas asas a quebrar, 
Nós levantamos todo aquele peso 
Que ao chão de pedra resistia preso, 
Com um enorme esforço muscular. 

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!" 
E recebi, naquela despedida, 
As forças, a alegria, a plenitude, 
Que brotam dum excesso de virtude 
Ou duma digestão desconhecida. 

E enquanto sigo para o lado oposto, 
E ao longe rodam umas carruagens, 
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto, 
Descolorida nas maçãs do rosto, 
E sem quadris na saia de ramagens. 

Um pequerrucho rega a trepadeira 
Duma janela azul; e, com o ralo 
Do regador, parece que joeira 
Ou que borrifa estrelas; e a poeira 
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo. 

Chegam do gigo emanações sadias, 
Ouço um canário - que infantil chilrada! 
Lidam ménages entre as gelosias, 
E o sol estende, pelas frontarias, 
Seus raios de laranja destilada. 

E pitoresca e audaz, na sua chita, 
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, 
Duma desgraça alegre que me incita, 
Ela apregoa, magra, enfezadita, 
As suas couves repolhudas, largas. 

E, como as grossas pernas dum gigante, 
Sem tronco, mas atléticas, inteiras, 
Carregam sobre a pobre caminhante, 
Sobre a verdura rústica, abundante, 
Duas frugais abóboras carneiras. 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde' ]]>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 17:03:32 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Num Bairro Moderno
Dez horas da manh&#227;; os transparentes 
Matizam uma casa apala&#231;ada; 
Pelos jardins estancam-se as nascentes, 
E fere a vista, com brancuras quentes, 
A larga rua macadamizada. 

Rez-de-chauss&#233;e repousam sossegados, 
Abriram-se, nalguns, as persianas, 
E dum ou doutro, em quartos estucados, 
Ou entre a rama do pap&#233;is pintados, 
Reluzem, num almo&#231;o, as porcelanas. 

Como &#233; saud&#225;vel ter o seu conchego, 
E a sua vida f&#225;cil! Eu descia, 
Sem muita pressa, para o meu emprego, 
Aonde agora quase sempre chego 
Com as tonturas duma apoplexia. 

E rota, pequenina, azafamada, 
Notei de costas uma rapariga, 
Que no xadrez marm&#243;reo duma escada, 
Como um retalho da horta aglomerada 
Pousara, ajoelhando, a sua giga. 

E eu, apesar do sol, examinei-a. 
P&#244;s-se de p&#233;, ressoam-lhe os tamancos; 
E abre-se-lhe o algod&#227;o azul da meia, 
Se ela se curva, esguelhada, feia, 
E pendurando os seus bracinhos brancos. 

Do patamar responde-lhe um criado: 
&quot;Se te conv&#233;m, despacha; n&#227;o converses. 
Eu n&#227;o dou mais.&quot; &#200; muito descansado, 
Atira um cobre l&#237;vido, oxidado, 
Que vem bater nas faces duns alperces. 

Subitamente - que vis&#227;o de artista! - 
Se eu transformasse os simples vegetais, 
&#192; luz do Sol, o intenso colorista, 
Num ser humano que se mova e exista 
Cheio de belas propor&#231;&#245;es carnais?! 

B&#243;iam aromas, fumos de cozinha; 
Com o cabaz &#224;s costas, e vergando, 
Sobem padeiros, claros de farinha; 
E &#224;s portas, uma ou outra campainha 
Toca, fren&#233;tica, de vez em quando. 

E eu recompunha, por anatomia, 
Um novo corpo org&#226;nico, ao bocados. 
Achava os tons e as formas. Descobria 
Uma cabe&#231;a numa melancia, 
E nuns repolhos seios injetados. 

As azeitonas, que nos d&#227;o o azeite, 
Negras e unidas, entre verdes folhos, 
S&#227;o tran&#231;as dum cabelo que se ajeite; 
E os nabos - ossos nus, da cor do leite, 
E os cachos de uvas - os ros&#225;rios de olhos. 

H&#225; colos, ombros, bocas, um semblante 
Nas posi&#231;&#245;es de certos frutos. E entre 
As hortali&#231;as, t&#250;mido, fragrante, 
Como algu&#233;m que tudo aquilo jante, 
Surge um mel&#227;o, que lembrou um ventre. 

E, como um feto, enfim, que se dilate, 
Vi nos legumes carnes tentadoras, 
Sangue na ginja v&#237;vida, escarlate, 
Bons cora&#231;&#245;es pulsando no tomate 
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. 

O Sol dourava o c&#233;u. E a regateira, 
Como vendera a sua fresca alface 
E dera o ramo de hortel&#227; que cheira, 
Voltando-se, gritou-me, prazenteira: 
&quot;N&#227;o passa mais ningu&#233;m!... Se me ajudasse?!...&quot; 

Eu acerquei-me dela, sem desprezo; 
E, pelas duas asas a quebrar, 
N&#243;s levantamos todo aquele peso 
Que ao ch&#227;o de pedra resistia preso, 
Com um enorme esfor&#231;o muscular. 

&quot;Muito obrigada! Deus lhe d&#234; sa&#250;de!&quot; 
E recebi, naquela despedida, 
As for&#231;as, a alegria, a plenitude, 
Que brotam dum excesso de virtude 
Ou duma digest&#227;o desconhecida. 

E enquanto sigo para o lado oposto, 
E ao longe rodam umas carruagens, 
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto, 
Descolorida nas ma&#231;&#227;s do rosto, 
E sem quadris na saia de ramagens. 

Um pequerrucho rega a trepadeira 
Duma janela azul; e, com o ralo 
Do regador, parece que joeira 
Ou que borrifa estrelas; e a poeira 
Que eleva nuvens alvas a incens&#225;-lo. 

Chegam do gigo emana&#231;&#245;es sadias, 
Ou&#231;o um can&#225;rio - que infantil chilrada! 
Lidam m&#233;nages entre as gelosias, 
E o sol estende, pelas frontarias, 
Seus raios de laranja destilada. 

E pitoresca e audaz, na sua chita, 
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, 
Duma desgra&#231;a alegre que me incita, 
Ela apregoa, magra, enfezadita, 
As suas couves repolhudas, largas. 

E, como as grossas pernas dum gigante, 
Sem tronco, mas atl&#233;ticas, inteiras, 
Carregam sobre a pobre caminhante, 
Sobre a verdura r&#250;stica, abundante, 
Duas frugais ab&#243;boras carneiras. 

Ces&#225;rio Verde, in 'O Livro de Ces&#225;rio Verde' </itunes:summary>
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      <title>Epis&#243;dio 100 - An&#225;lise do poema &quot;A D&#233;bil&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[A Débil
Eu, que sou feio, sólido, leal, 
A ti, que és bela, frágil, assustada, 
Quero estimar-te sempre, recatada 
Numa existência honesta, de cristal. 

Sentado à mesa dum café devasso, 
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura, 
Nesta Babel tão velha e corruptora, 
Tive tenções de oferecer-te o braço. 

E, quando socorreste um miserável, 
Eu, que bebia cálices de absinto, 
Mandei ir a garrafa, porque sinto 
Que me tornas prestante, bom, saudável. 

"Ela aí vem!" disse eu para os demais; 
E pus-me a olhar, vexado e suspirando, 
O teu corpo que pulsa, alegre e brando, 
Na frescura dos linhos matinais. 

Via-te pela porta envidraçada; 
E invejava, — talvez que não o suspeites! - 
Esse vestido simples, sem enfeites, 
Nessa cintura tenra, imaculada. 

Ia passando, a quatro, o patriarca. 
Triste eu saí. Doía-me a cabeça. 
Uma turba ruidosa, negra, espessa, 
Voltava das exéquias dum monarca. 

Adorável! Tu, muito natural, 
Seguias a pensar no teu bordado; 
Avultava, num largo arborizado, 
Uma estátua de rei num pedestal. 

Sorriam, nos seus trens, os titulares; 
E ao claro sol, guardava-te, no entanto, 
A tua boa mãe, que te ama tanto, 
Que não te morrerá sem te casares! 

Soberbo dia! Impunha-me respeito 
A limpidez do teu semblante grego; 
E uma família, um ninho de sossego, 
Desejava beijar sobre o teu peito. 

Com elegância e sem ostentação, 
Atravessavas branca, esbelta e fina, 
Uma chusma de padres de batina, 
E de altos funcionários da nação. 

"Mas se a atropela o povo turbulento! 
Se fosse, por acaso, ali pisada!" 
De repente, paraste embaraçada 
Ao pé dum numeroso ajuntamento. 

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos, 
Julguei ver, com a vista de poeta, 
Uma pombinha tímida e quieta 
Num bando ameaçador de corvos pretos. 

E foi, então, que eu, homem varonil, 
Quis dedicar-te a minha pobre vida, 
A ti, que és tênue, dócil, recolhida, 
Eu, que sou hábil, prático, viril. 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde' ]]>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 17:02:15 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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Eu, que sou feio, s&#243;lido, leal, 
A ti, que &#233;s bela, fr&#225;gil, assustada, 
Quero estimar-te sempre, recatada 
Numa exist&#234;ncia honesta, de cristal. 

Sentado &#224; mesa dum caf&#233; devasso, 
Ao avistar-te, h&#225; pouco, fraca e loura, 
Nesta Babel t&#227;o velha e corruptora, 
Tive ten&#231;&#245;es de oferecer-te o bra&#231;o. 

E, quando socorreste um miser&#225;vel, 
Eu, que bebia c&#225;lices de absinto, 
Mandei ir a garrafa, porque sinto 
Que me tornas prestante, bom, saud&#225;vel. 

&quot;Ela a&#237; vem!&quot; disse eu para os demais; 
E pus-me a olhar, vexado e suspirando, 
O teu corpo que pulsa, alegre e brando, 
Na frescura dos linhos matinais. 

Via-te pela porta envidra&#231;ada; 
E invejava, &#8212; talvez que n&#227;o o suspeites! - 
Esse vestido simples, sem enfeites, 
Nessa cintura tenra, imaculada. 

Ia passando, a quatro, o patriarca. 
Triste eu sa&#237;. Do&#237;a-me a cabe&#231;a. 
Uma turba ruidosa, negra, espessa, 
Voltava das ex&#233;quias dum monarca. 

Ador&#225;vel! Tu, muito natural, 
Seguias a pensar no teu bordado; 
Avultava, num largo arborizado, 
Uma est&#225;tua de rei num pedestal. 

Sorriam, nos seus trens, os titulares; 
E ao claro sol, guardava-te, no entanto, 
A tua boa m&#227;e, que te ama tanto, 
Que n&#227;o te morrer&#225; sem te casares! 

Soberbo dia! Impunha-me respeito 
A limpidez do teu semblante grego; 
E uma fam&#237;lia, um ninho de sossego, 
Desejava beijar sobre o teu peito. 

Com eleg&#226;ncia e sem ostenta&#231;&#227;o, 
Atravessavas branca, esbelta e fina, 
Uma chusma de padres de batina, 
E de altos funcion&#225;rios da na&#231;&#227;o. 

&quot;Mas se a atropela o povo turbulento! 
Se fosse, por acaso, ali pisada!&quot; 
De repente, paraste embara&#231;ada 
Ao p&#233; dum numeroso ajuntamento. 

E eu, que urdia estes f&#225;ceis esbocetos, 
Julguei ver, com a vista de poeta, 
Uma pombinha t&#237;mida e quieta 
Num bando amea&#231;ador de corvos pretos. 

E foi, ent&#227;o, que eu, homem varonil, 
Quis dedicar-te a minha pobre vida, 
A ti, que &#233;s t&#234;nue, d&#243;cil, recolhida, 
Eu, que sou h&#225;bil, pr&#225;tico, viril. 

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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 99 - An&#225;lise do poema &quot;Cristaliza&#231;&#245;es&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Cristalizações

 

A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra — que união sonora! — 
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás.

Eu  julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 17:01:02 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De c&#243;coras, em linha, os calceteiros,
Com lentid&#227;o, terrosos e grosseiros,
Cal&#231;am de lado a lado a longa rua.

Como as eleva&#231;&#245;es secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as po&#231;as de &#225;gua, como em ch&#227;o vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em p&#233; e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manh&#227; bonita,
Uns barrac&#245;es de gente pobrezita
E uns quintal&#243;rios velhos com parreiras.

N&#227;o se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra &#8212; que uni&#227;o sonora! &#8212; 
Retinem alto pelo espa&#231;o fora,
Com choques rijos, &#225;speros, cantantes.

Bom tempo. E os rapag&#245;es, morosos, duros, ba&#231;os,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilha&#231;os.
Pesam enormemente os grossos ma&#231;os,
Com que outros batem a cal&#231;ada feita.

A sua barba agreste! A l&#227; dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descal&#231;am com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude m&#234;s, que n&#227;o consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As &#225;rvores despidas. S&#243;brias cores!
Mastros, enx&#225;rcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas p&#225;s.

Eu  julgo-me no Norte, ao frio &#8212; o grande agente! &#8212;
Carros de m&#227;o, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
V&#234;-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, &#225;guas, multid&#245;es, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O c&#233;u renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esfor&#231;os na friagem
De t&#227;o lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a s&#237;lex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um p&#225;ra enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de a&#231;o;
E um gordo, o mestre, com um ar rala&#231;o
E manso, tira o n&#237;vel das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas v&#227;o curvadas!
Que vida t&#227;o custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas m&#227;os gretadas,
Para que n&#227;o lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listr&#245;es de vinho lan&#231;am-lhe divisas,
E os suspens&#243;rios tra&#231;am-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se agu&#231;a;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco &#224; russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, &#224; noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como laj&#245;es. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lez&#237;rias, dos montados:
Os das plan&#237;cies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de fei&#231;&#245;es, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro en&#233;rgico, sucinto,
E nestes s&#237;tios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, m&#225;sculos, ossudos,
Encaram-na sangu&#237;nea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tac&#245;es agudos.

Por&#233;m, desempenhando o seu papel na pe&#231;a,
Sem que inda o p&#250;blico a passagem abra,
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Covas, entulhos, lama&#231;ais, depressa,
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 98 - An&#225;lise do poema &quot;Horas Mortas&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[ O Sentimento dum Ocidental
IV

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

    E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

                               Cesário Verde
]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:59:49 +0000</pubDate>
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      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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IV

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxig&#233;nio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
V&#234;m l&#225;grimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que port&#245;es! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, &#224;s escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no sil&#234;ncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma long&#237;nqua flauta.

    Se eu n&#227;o morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfei&#231;&#227;o das cousas!
Esque&#231;o-me a prever cast&#237;ssimas esposas,
Que aninhem em mans&#245;es de vidro transparente!

    &#211; nossos filhoes! Que de sonhos &#225;geis,
Pousando, vos trar&#227;o a nitidez &#224;s vidas!
Eu quero as vossas m&#227;es e irm&#227;s estremecidas,
Numas habita&#231;&#245;es transl&#250;cidas e fr&#225;geis.

    Ah! Como a ra&#231;a ruiva do porvir,
E as frotas dos av&#243;s, e os n&#243;madas ardentes,
N&#243;s vamos explorar todos os continentes
E pelas vastid&#245;es aqu&#225;ticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem &#225;rvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

    E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de bra&#231;o dado, uns tristes bebedores.

    Eu n&#227;o receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a dist&#226;ncia, os d&#250;bios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, &#243;sseos, febris, errantes,
Amareladamente, os c&#227;es parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roup&#245;es ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De pr&#233;dios sepulcrais, com dimens&#245;es de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem mar&#233;s, de fel, como um sinistro mar!

                               Ces&#225;rio Verde
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IV

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxig&#233;nio, de a...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 97 - An&#225;lise do poema &quot;Ao G&#225;s&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[ O Sentimento dum Ocidental


III
             Ao gás

    E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

    Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

    Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

    &lt;&gt;
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:58:38 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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III
             Ao g&#225;s

    E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
&#211; moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, t&#233;pidas. Eu penso
Ver c&#237;rios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fi&#233;is, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo ch&#227;o minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

    Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a p&#227;o no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a an&#225;lise mo dessem;
Casas de confec&#231;&#245;es e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! N&#227;o poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difus&#227;o dos vossos reverberos,
E a vossa palidez rom&#226;ntica e lunar!

    Que grande cobra, a l&#250;brica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excel&#234;ncia atrai, magn&#233;tica, entre luxo,
Que ao longo dos balc&#245;es de mogno se amontoa.

    E aquela velha, de band&#243;s! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, &#224; vit&#243;ria, os seus mecklemburgueses.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de p&#243;s-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solid&#227;o regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausol&#233;us as arma&#231;&#245;es fulgentes.

    &lt;&gt;
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!</itunes:summary>
      <itunes:subtitle> O Sentimento dum Ocidental


III
             Ao g&#225;s

    E saio. A noite pesa, esmaga. No...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 96 - An&#225;lise do poema &quot;Noite Fechada&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[O Sentimento dum Ocidental
 II

          Noite Fechada

    Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de &lt;&gt;!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

    A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

    Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

    E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, 
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:55:55 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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 II

          Noite Fechada

    Toca-se &#224;s grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje est&#227;o velhinhas e crian&#231;as,
Bem raramente encerra uma mulher de &lt;&gt;!

    E eu desconfio, at&#233;, de um aneurisma
T&#227;o m&#243;rbido me sinto, ao acender das luzes;
&#192; vista das pris&#245;es, da velha S&#233;, das Cruzes,
Chora-me o cora&#231;&#227;o que se enche e que se abisma.

    A espa&#231;os, iluminam-se os andares,
E as tascas, os caf&#233;s, as tendas, os estancos
Alastram em len&#231;ol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas igrejas, num saudoso largo,
Lan&#231;am a n&#243;doa negra e f&#250;nebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela Hist&#243;ria eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as constru&#231;&#245;es rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as &#237;ngremes subidas,
E os sinos dum tanger mon&#225;stico e devoto.

    Mas, num recinto p&#250;blico e vulgar,
Com bancos de namoro e ex&#237;guas pimenteiras,
Br&#244;nzeo, monumental, de propor&#231;&#245;es guerreiras,
Um &#233;pico doutrora ascende, num pilar!

    E eu sonho o C&#243;lera, imagino a Febre,
Nesta acumula&#231;&#227;o de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um pal&#225;cio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quart&#233;is que foram j&#225; conventos:
Idade M&#233;dia! A p&#233;, outras, a passos lentos, 
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paix&#227;o defunta! Aos lampi&#245;es distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir &#224;s montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pesco&#231;os altos
E muitas delas s&#227;o comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente s&#243;,
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Entro na brasserie; &#224;s mesas de emigrados,
Ao riso e &#224; crua luz joga-se o domin&#243;.</itunes:summary>
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 II

          Noite Fechada

    Toca-se &#224;s grades, nas cadeias....</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 95 - An&#225;lise do poema &quot;Ave-Marias&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL

 A Guerra Junqueiro

 I

 AVÉ-MARIAS

 Nas nossas ruas, ao anoitecer, 
Há tal soturnidade, há tal melancolia, 
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia 
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. 
  
O céu parece baixo e de neblina, 
O gás extravasado enjoa-me, perturba; 
E os edifícios, com as chaminés, e a turba 
Toldam-se duma cor monótona e londrina 
  
Batem os carros de aluguer, ao fundo, 
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! 
Ocorrem-me em revista exposições, países; 
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


 Semelham-se a gaiolas, com viveiros, 
As edificações somente emadeiradas: 
Como morcegos, ao cair das badaladas, 
Saltam de viga os mestres carpinteiros.


 Voltam os calafates, aos magotes, 
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; 
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos, 
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.


 E evoco, então, as crónicas navais: 
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! 
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! 
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!


 E o fim de tarde inspira-me; e incomoda! 
De um couraçado inglês vogam os escaleres; 
E em terra num tinir de louças e talheres 
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.


 Num trem de praça arengam dois dentistas; 
Um trôpego arlequim braceja numas andas; 
Os querubins do lar flutuam nas varandas; 
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! 
   

Vazam-se os arsenais e as oficinas 
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; 
E num cardume negro, hercúleas galhofeiras, 
Correndo com firmeza, assomam as varinas. 
 

Vêm sacudindo as ancas opulentas! 
Seus troncos varonis recordam-me pilastras; 
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras 
Os filhos que depois naufragam nas tormentas. 
 

Descalças! Nas descargas de carvão, 
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; 
E apinham-se num bairro aonde miam gatas, 
E o peixe podre gera os focos de infecção! 
 

Cesário Verde, 1880]]>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:52:40 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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 A Guerra Junqueiro

 I

 AV&#201;-MARIAS

 Nas nossas ruas, ao anoitecer, 
H&#225; tal soturnidade, h&#225; tal melancolia, 
Que as sombras, o bul&#237;cio, o Tejo, a maresia 
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. 
  
O c&#233;u parece baixo e de neblina, 
O g&#225;s extravasado enjoa-me, perturba; 
E os edif&#237;cios, com as chamin&#233;s, e a turba 
Toldam-se duma cor mon&#243;tona e londrina 
  
Batem os carros de aluguer, ao fundo, 
Levando &#224; via-f&#233;rrea os que se v&#227;o. Felizes! 
Ocorrem-me em revista exposi&#231;&#245;es, pa&#237;ses; 
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


 Semelham-se a gaiolas, com viveiros, 
As edifica&#231;&#245;es somente emadeiradas: 
Como morcegos, ao cair das badaladas, 
Saltam de viga os mestres carpinteiros.


 Voltam os calafates, aos magotes, 
De jaquet&#227;o ao ombro, enfarruscados, secos; 
Embrenho-me, a cismar, por boqueir&#245;es, por becos, 
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.


 E evoco, ent&#227;o, as cr&#243;nicas navais: 
Mouros, baix&#233;is, her&#243;is, tudo ressuscitado! 
Luta Cam&#245;es no Sul, salvando um livro a nado! 
Singram soberbas naus que eu n&#227;o verei jamais!


 E o fim de tarde inspira-me; e incomoda! 
De um coura&#231;ado ingl&#234;s vogam os escaleres; 
E em terra num tinir de lou&#231;as e talheres 
Flamejam, ao jantar, alguns hot&#233;is da moda.


 Num trem de pra&#231;a arengam dois dentistas; 
Um tr&#244;pego arlequim braceja numas andas; 
Os querubins do lar flutuam nas varandas; 
&#192;s portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! 
   

Vazam-se os arsenais e as oficinas 
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; 
E num cardume negro, herc&#250;leas galhofeiras, 
Correndo com firmeza, assomam as varinas. 
 

V&#234;m sacudindo as ancas opulentas! 
Seus troncos varonis recordam-me pilastras; 
E algumas, &#224; cabe&#231;a, embalam nas canastras 
Os filhos que depois naufragam nas tormentas. 
 

Descal&#231;as! Nas descargas de carv&#227;o, 
Desde manh&#227; &#224; noite, a bordo das fragatas; 
E apinham-se num bairro aonde miam gatas, 
E o peixe podre gera os focos de infec&#231;&#227;o! 
 

Ces&#225;rio Verde, 1880</itunes:summary>
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 A Guerra Junqueiro

 I

 AV&#201;-MARIAS

 Nas nossas ruas, ao an...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 94 - An&#225;lise do poema &quot;Tormento do Ideal&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[ Tormento do Ideal

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
 
Minguar, fundir-se sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
 
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
 
Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste. ]]>
      </description>
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Conheci a Beleza que n&#227;o morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos p&#233;s a terra
E o mar, v&#234; tudo, a maior nau ou torre,
 
Minguar, fundir-se sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao p&#244;r do sol e sobre o mar discorre.
 
Pedindo &#224; forma, em v&#227;o, a ideia pura,
Trope&#231;o, em sombras, na mat&#233;ria dura,
E encontro a imperfei&#231;&#227;o de quanto existe.
 
Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei p&#225;lido e triste. </itunes:summary>
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Conheci a Beleza que n&#227;o morre
E fiquei triste. Como quem da serra
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 93 - An&#225;lise do poema &quot;Sonho Oriental&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Sonho Oriental
Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
Onde a noite é balsâmica e fulgente 
E a lua cheia sobre as águas brilha... 

O aroma da magnólia e da baunilha 
Paira no ar diáfano e dormente... 
Lambe a orla dos bosques, vagamente, 
O mar com finas ondas de escumilha... 

E enquanto eu na varanda de marfim 
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim, 
Tu, meu amor, divagas ao luar, 

Do profundo jardim pelas clareiras, 
Ou descanças debaixo das palmeiras, 
Tendo aos pés um leão familiar. 

Antero de Quental, in "Sonetos" ]]>
      </description>
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      <itunes:summary>Sonho Oriental
Sonho-me &#224;s vezes rei, n'alguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
Onde a noite &#233; bals&#226;mica e fulgente 
E a lua cheia sobre as &#225;guas brilha... 

O aroma da magn&#243;lia e da baunilha 
Paira no ar di&#225;fano e dormente... 
Lambe a orla dos bosques, vagamente, 
O mar com finas ondas de escumilha... 

E enquanto eu na varanda de marfim 
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim, 
Tu, meu amor, divagas ao luar, 

Do profundo jardim pelas clareiras, 
Ou descan&#231;as debaixo das palmeiras, 
Tendo aos p&#233;s um le&#227;o familiar. 

Antero de Quental, in &quot;Sonetos&quot; </itunes:summary>
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Sonho-me &#224;s vezes rei, n'alguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 92 - An&#225;lise do poema &quot;Oceano Nox&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente 
A trágica voz rouca, enquanto o vento 
Passava como o vôo do pensamento 
Que busca e hesita, inquieto e intermitente, 

Junto do mar sentei-me tristemente, 
Olhando o céu pesado e nevoento, 
E interroguei, cismando, esse lamento 
Que saía das coisas, vagamente... 

Que inquieto desejo vos tortura, 
Seres elementares, força obscura? 
Em volta de que idéia gravitais? 

Mas na imensa extensão, onde se esconde 
O Inconsciente imortal, só me responde 
Um bramido, um queixume, e nada mais... 

Antero de Quental, in "Sonetos" ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:46:06 +0000</pubDate>
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      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <itunes:summary>Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente 
A tr&#225;gica voz rouca, enquanto o vento 
Passava como o v&#244;o do pensamento 
Que busca e hesita, inquieto e intermitente, 

Junto do mar sentei-me tristemente, 
Olhando o c&#233;u pesado e nevoento, 
E interroguei, cismando, esse lamento 
Que sa&#237;a das coisas, vagamente... 

Que inquieto desejo vos tortura, 
Seres elementares, for&#231;a obscura? 
Em volta de que id&#233;ia gravitais? 

Mas na imensa extens&#227;o, onde se esconde 
O Inconsciente imortal, s&#243; me responde 
Um bramido, um queixume, e nada mais... 

Antero de Quental, in &quot;Sonetos&quot; </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente 
A tr&#225;gica voz rouca, enquanto o vento 
Passava...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 91 - An&#225;lise do poema &quot;Na m&#227;o de Deus&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Na Mão de Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita, 
Descansou afinal meu coração. 
Do palácio encantado da Ilusão 
Desci a passo e passo a escada estreita. 

Como as flores mortais, com que se enfeita 
A ignorância infantil, despojo vão, 
Depois do Ideal e da Paixão 
A forma transitória e imperfeita. 

Como criança, em lôbrega jornada, 
Que a mãe leva ao colo agasalhada 
E atravessa, sorrindo vagamente, 

Selvas, mares, areias do deserto... 
Dorme o teu sono, coração liberto, 
Dorme na mão de Deus eternamente! 

Antero de Quental, in "Sonetos" ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:44:48 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Na M&#227;o de Deus
Na m&#227;o de Deus, na sua m&#227;o direita, 
Descansou afinal meu cora&#231;&#227;o. 
Do pal&#225;cio encantado da Ilus&#227;o 
Desci a passo e passo a escada estreita. 

Como as flores mortais, com que se enfeita 
A ignor&#226;ncia infantil, despojo v&#227;o, 
Depois do Ideal e da Paix&#227;o 
A forma transit&#243;ria e imperfeita. 

Como crian&#231;a, em l&#244;brega jornada, 
Que a m&#227;e leva ao colo agasalhada 
E atravessa, sorrindo vagamente, 

Selvas, mares, areias do deserto... 
Dorme o teu sono, cora&#231;&#227;o liberto, 
Dorme na m&#227;o de Deus eternamente! 

Antero de Quental, in &quot;Sonetos&quot; </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Na M&#227;o de Deus
Na m&#227;o de Deus, na sua m&#227;o direita, 
Descansou afinal meu cora&#231;&#227;o. 
Do pal&#225;cio ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 90 - An&#225;lise do poema &quot;Ideal&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Ideal
Aquela, que eu adoro, não é feita 
De lírios nem de rosas purpurinas, 
Não tem as formas languidas, divinas 
Da antiga Vénus de cintura estreita... 

Não é a Circe, cuja mão suspeita 
Compõe filtros mortaes entre ruinas, 
Nem a Amazona, que se agarra ás crinas 
D'um corcel e combate satisfeita... 

A mim mesmo pergunto, e não atino 
Com o nome que dê a essa visão, 
Que ora amostra ora esconde o meu destino... 

É como uma miragem, que entrevejo, 
Ideal, que nasceu na solidão, 
Nuvem, sonho impalpável do Desejo... 

Antero de Quental, in "Sonetos" ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:43:38 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ideal
Aquela, que eu adoro, n&#227;o &#233; feita 
De l&#237;rios nem de rosas purpurinas, 
N&#227;o tem as formas languidas, divinas 
Da antiga V&#233;nus de cintura estreita... 

N&#227;o &#233; a Circe, cuja m&#227;o suspeita 
Comp&#245;e filtros mortaes entre ruinas, 
Nem a Amazona, que se agarra &#225;s crinas 
D'um corcel e combate satisfeita... 

A mim mesmo pergunto, e n&#227;o atino 
Com o nome que d&#234; a essa vis&#227;o, 
Que ora amostra ora esconde o meu destino... 

&#201; como uma miragem, que entrevejo, 
Ideal, que nasceu na solid&#227;o, 
Nuvem, sonho impalp&#225;vel do Desejo... 

Antero de Quental, in &quot;Sonetos&quot; </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ideal
Aquela, que eu adoro, n&#227;o &#233; feita 
De l&#237;rios nem de rosas purpurinas, 
N&#227;o tem as formas...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 89 - An&#225;lise do poema &quot;A um poeta&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[A UM POETA
     
Surge et ambula!
    

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate.]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:42:30 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>A UM POETA
     
Surge et ambula!
    

Tu, que dormes, esp&#237;rito sereno,
Posto &#224; sombra dos cedros seculares,
Como um levita &#224; sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! &#233; tempo! O sol, j&#225; alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera s&#243; um aceno...

Escuta! &#233; a grande voz das multid&#245;es!
S&#227;o teus irm&#227;os, que se erguem! S&#227;o can&#231;&#245;es...
Mas de guerra... e s&#227;o vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>A UM POETA
     
Surge et ambula!
    

Tu, que dormes, esp&#237;rito sereno,
Posto &#224; sombra dos...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 88 - An&#225;lise do poema &quot;A Santos Valente&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[A SANTOS VALENTE
Estreita é do prazer na vida a taça:
Largo, como o oceano é largo e fundo,
E como ele em venturas infecundo,
O cálix amargoso da desgraça.

E contudo nossa alma, quando passa
Incerta peregrina, pelo mundo,
Prazer só pede à vida, amor fecundo,
É com essa esperança que se abraça.

É lei de Deus este aspirar imenso...
E contudo a ilusão impôs à vida,
E manda buscar luz e dá-nos treva!

Ah! se Deus acendeu um foco intenso
De amor e dor em nós, na ardente lida,
Porque a miragem cria... ou porque a leva?]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:41:10 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>A SANTOS VALENTE
Estreita &#233; do prazer na vida a ta&#231;a:
Largo, como o oceano &#233; largo e fundo,
E como ele em venturas infecundo,
O c&#225;lix amargoso da desgra&#231;a.

E contudo nossa alma, quando passa
Incerta peregrina, pelo mundo,
Prazer s&#243; pede &#224; vida, amor fecundo,
&#201; com essa esperan&#231;a que se abra&#231;a.

&#201; lei de Deus este aspirar imenso...
E contudo a ilus&#227;o imp&#244;s &#224; vida,
E manda buscar luz e d&#225;-nos treva!

Ah! se Deus acendeu um foco intenso
De amor e dor em n&#243;s, na ardente lida,
Porque a miragem cria... ou porque a leva?</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>A SANTOS VALENTE
Estreita &#233; do prazer na vida a ta&#231;a:
Largo, como o oceano &#233; largo e fundo,
E ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 87 - An&#225;lise do poema &quot;A Jo&#227;o de Deus&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[A JOÃO DE DEUS
Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento:

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que há-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida:
Se procura, só acha... o desatino!

Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degredo, o céu destino.
]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:39:44 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>A JO&#195;O DE DEUS
Se &#233; lei, que rege o escuro pensamento,
Ser v&#227; toda a pesquisa da verdade
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento:

&#201; lei tamb&#233;m, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E s&#243; ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que h&#225;-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora cr&#234; de f&#233;, logo duvida:
Se procura, s&#243; acha... o desatino!

S&#243; Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degredo, o c&#233;u destino.
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      <itunes:subtitle>A JO&#195;O DE DEUS
Se &#233; lei, que rege o escuro pensamento,
Ser v&#227; toda a pesquisa da verdade
Em ve...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title> Epis&#243;dio 86 - An&#225;lise do poema &quot;Ad amicos&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Ad Amicos
Em vão lutamos. Como névoa baça, 
A incerteza das coisas nos envolve. 
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, 
Nas suas próprias redes se embaraça. 

O pensamento, que mil planos traça, 
É vapor que se esvae e se dissolve; 
E a vontade ambiciosa, que resolve, 
Como onda entre rochedos se espedaça. 

Filhos do Amor, nossa alma é como um hino 
À luz, à liberdade, ao bem fecundo, 
Prece e clamor d'um presentir divino; 

Mas n'um deserto só, árido e fundo, 
Ecoam nossas vozes, que o Destino 
Paira mudo e impassível sobre o mundo. 

Antero de Quental, in 'Sonetos' 
// Consultar versos e eventuais rimas]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 25 Feb 2018 16:35:18 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ad Amicos
Em v&#227;o lutamos. Como n&#233;voa ba&#231;a, 
A incerteza das coisas nos envolve. 
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, 
Nas suas pr&#243;prias redes se embara&#231;a. 

O pensamento, que mil planos tra&#231;a, 
&#201; vapor que se esvae e se dissolve; 
E a vontade ambiciosa, que resolve, 
Como onda entre rochedos se espeda&#231;a. 

Filhos do Amor, nossa alma &#233; como um hino 
&#192; luz, &#224; liberdade, ao bem fecundo, 
Prece e clamor d'um presentir divino; 

Mas n'um deserto s&#243;, &#225;rido e fundo, 
Ecoam nossas vozes, que o Destino 
Paira mudo e impass&#237;vel sobre o mundo. 

Antero de Quental, in 'Sonetos' 
// Consultar versos e eventuais rimas</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ad Amicos
Em v&#227;o lutamos. Como n&#233;voa ba&#231;a, 
A incerteza das coisas nos envolve. 
Nossa alma, e...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 85 - An&#225;lise do poema &quot;Despondency&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Despondency
Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram 
Ninho e filhos e tudo, sem piedade... 
Que a leve o ar sem fim da soledade 
Onde as asas partidas a levaram... 

Deixá-la ir, a vela, que arrojaram 
Os tufões pelo mar, na escuridade, 
Quando a noite surgiu da imensidade, 
Quando os ventos do Sul levantaram... 

Deixá-la ir, a alma lastimosa, 
Que perdeu fé e paz e confiança, 
À morte queda, à morte silenciosa... 

Deixá-la ir, a nota desprendida 
D'um canto extremo... e a última esperança... 
E a vida... e o amor... Deixá-la ir, a vida! ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 18 Feb 2018 18:26:13 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-18</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Despondency
Deix&#225;-la ir, a ave, a quem roubaram 
Ninho e filhos e tudo, sem piedade... 
Que a leve o ar sem fim da soledade 
Onde as asas partidas a levaram... 

Deix&#225;-la ir, a vela, que arrojaram 
Os tuf&#245;es pelo mar, na escuridade, 
Quando a noite surgiu da imensidade, 
Quando os ventos do Sul levantaram... 

Deix&#225;-la ir, a alma lastimosa, 
Que perdeu f&#233; e paz e confian&#231;a, 
&#192; morte queda, &#224; morte silenciosa... 

Deix&#225;-la ir, a nota desprendida 
D'um canto extremo... e a &#250;ltima esperan&#231;a... 
E a vida... e o amor... Deix&#225;-la ir, a vida! </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Despondency
Deix&#225;-la ir, a ave, a quem roubaram 
Ninho e filhos e tudo, sem piedade... 
Que a ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 84 - An&#225;lise do poema &quot;Nihil&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[NIHIL

Homem! Homem! Mendigo do Infinito! 
Abres a boca e estendes os teus braços
A ver se os astros caem dos espaços
A encher o vácuo imenso do finito!

Porque sobes à rocha de granito?
Porque é que dás no ar tantos abraços?
E cuidas amarrar com férreos laços
Um reflexo da sombra de um esp’rito?

Vê que o céu, por escárnio, a luz nos lança!
Que, à tua voz, a voz da imensidão
Responde com imensa gargalhada!

A ideia fechou a porta à esp’rança
Quando lhe foi pedir gasalho e pão...
Deixou-a cara a cara com o Nada!...]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 18 Feb 2018 18:24:20 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2018-02-18</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>NIHIL

Homem! Homem! Mendigo do Infinito! 
Abres a boca e estendes os teus bra&#231;os
A ver se os astros caem dos espa&#231;os
A encher o v&#225;cuo imenso do finito!

Porque sobes &#224; rocha de granito?
Porque &#233; que d&#225;s no ar tantos abra&#231;os?
E cuidas amarrar com f&#233;rreos la&#231;os
Um reflexo da sombra de um esp&#8217;rito?

V&#234; que o c&#233;u, por esc&#225;rnio, a luz nos lan&#231;a!
Que, &#224; tua voz, a voz da imensid&#227;o
Responde com imensa gargalhada!

A ideia fechou a porta &#224; esp&#8217;ran&#231;a
Quando lhe foi pedir gasalho e p&#227;o...
Deixou-a cara a cara com o Nada!...</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>NIHIL

Homem! Homem! Mendigo do Infinito! 
Abres a boca e estendes os teus bra&#231;os
A ver se os...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 83 - An&#225;lise do poema &quot;Nox&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Nox
Noite, vão para ti meus pensamentos, 
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, 
Tanto estéril lutar, tanta agonia, 
E inúteis tantos ásperos tormentos... 

Tu, ao menos, abafas os lamentos, 
Que se exalam da trágica enxovia... 
O eterno Mal, que ruge e desvaria, 
Em ti descansa e esquece alguns momentos... 

Oh! Antes tu também adormecesses 
Por uma vez, e eterna, inalterável, 
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses, 

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver, 
Dormisse no teu seio inviolável, 
Noite sem termo, noite do Não-ser! 

Antero de Quental, in "Sonetos" ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 18 Feb 2018 18:19:20 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Nox
Noite, v&#227;o para ti meus pensamentos, 
Quando olho e vejo, &#224; luz cruel do dia, 
Tanto est&#233;ril lutar, tanta agonia, 
E in&#250;teis tantos &#225;speros tormentos... 

Tu, ao menos, abafas os lamentos, 
Que se exalam da tr&#225;gica enxovia... 
O eterno Mal, que ruge e desvaria, 
Em ti descansa e esquece alguns momentos... 

Oh! Antes tu tamb&#233;m adormecesses 
Por uma vez, e eterna, inalter&#225;vel, 
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses, 

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver, 
Dormisse no teu seio inviol&#225;vel, 
Noite sem termo, noite do N&#227;o-ser! 

Antero de Quental, in &quot;Sonetos&quot; </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Nox
Noite, v&#227;o para ti meus pensamentos, 
Quando olho e vejo, &#224; luz cruel do dia, 
Tanto est&#233;r...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 82 - An&#225;lise do poema &quot;O Pal&#225;cio da Ventura&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante. 
Por desertos, por sóis, por noite escura, 
Paladino do amor, busco anelante 
O palácio encantado da Ventura! 

Mas já desmaio, exausto e vacilante, 
Quebrada a espada já, rota a armadura... 
E eis que súbito o avisto, fulgurante 
Na sua pompa e aérea formosura! 

Com grandes golpes bato à porta e brado: 
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 

Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 
Mas dentro encontro só, cheio de dor, 
Silêncio e escuridão - e nada mais! 

Antero de Quental, in "Sonetos" ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 18 Feb 2018 18:15:37 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>O Pal&#225;cio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante. 
Por desertos, por s&#243;is, por noite escura, 
Paladino do amor, busco anelante 
O pal&#225;cio encantado da Ventura! 

Mas j&#225; desmaio, exausto e vacilante, 
Quebrada a espada j&#225;, rota a armadura... 
E eis que s&#250;bito o avisto, fulgurante 
Na sua pompa e a&#233;rea formosura! 

Com grandes golpes bato &#224; porta e brado: 
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 

Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 
Mas dentro encontro s&#243;, cheio de dor, 
Sil&#234;ncio e escurid&#227;o - e nada mais! 

Antero de Quental, in &quot;Sonetos&quot; </itunes:summary>
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Sonho que sou um cavaleiro andante. 
Por desertos, por s&#243;is, por noite e...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#195;&#179;dio 1 - An&#195;&#161;lise do poema &quot;Impress&#195;&#181;es do Crep&#195;&#186;sculo&quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Mon, 11 Jun 2007 03:18:58 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2014-03-01</dcterms:modified>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 81 - An&#225;lise do Acto I (pergunta/resposta)</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Magritte]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 16 Jun 2006 16:50:06 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 80 - Introdu&#231;&#227;o ao estudo de Felizmente H&#225; Luar de Lu&#237;s de Sttau Monteiro</title>
      <description>
        <![CDATA[ ]]>
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      <pubDate>Fri, 16 Jun 2006 16:12:19 +0000</pubDate>
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      <title>Epis&#243;dio 79  - Este Inferno de amar - de Almeida Garrett</title>
      <description>
        <![CDATA[ Este inferno de amar - de Almeida Garrett

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida – e que a vida destrói.
Como é que se veio atear,
Quando – ai se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… foi um sonho.
Em que a paz tão serena a dormi!
Oh! Que doce era aquele olhar…
Quem me veio, ai de mim! Despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… Dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? Não o sei;
Mas nessa hora a viver comecei…]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 15 May 2006 15:47:00 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary> Este inferno de amar - de Almeida Garrett

Este inferno de amar &#8211; como eu amo!
Quem mo p&#244;s aqui n&#8217;alma&#8230; quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que &#233; vida &#8211; e que a vida destr&#243;i.
Como &#233; que se veio atear,
Quando &#8211; ai se h&#225;-de ela apagar?

Eu n&#227;o sei, n&#227;o me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez&#8230; foi um sonho.
Em que a paz t&#227;o serena a dormi!
Oh! Que doce era aquele olhar&#8230;
Quem me veio, ai de mim! Despertar?

S&#243; me lembra que um dia formoso
Eu passei&#8230; Dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? N&#227;o o sei;
Mas nessa hora a viver comecei&#8230;</itunes:summary>
      <itunes:subtitle> Este inferno de amar - de Almeida Garrett

Este inferno de amar &#8211; como eu amo!
Quem mo p&#244;s aq...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 78 - An&#225;lise do poema &amp;quot;O Deus P&#227; n&#227;o morreu&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Ricardo Reis
O Deus Pã
 
O Deus Pã não morreu, 
Cada campo que mostra 
Aos sorrisos de Apolo 
Os peitos nus de Ceres— 
Cedo ou tarde vereis 
por lá aparecer 
O deus Pã, o imortal. 

Não matou outros deuses 
O triste deus cristão. 
Cristo é um deus a mais, 
Talvez um que faltava. 
Pã continua a ciar 
Os sons da sua flauta 
Aos ouvidos de Ceres 
Recumbente nos campos. 

Os deuses são os mesmos, 
Sempre claros e calmos, 
Cheios de eternidade 
E desprezo por nós, 
Trazendo o dia e a noite 
E as colheitas douradas 
Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo 
Mas por outro e divino 
Propósito casual. ]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 23:31:31 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Ricardo Reis
O Deus P&#227;
 
O Deus P&#227; n&#227;o morreu, 
Cada campo que mostra 
Aos sorrisos de Apolo 
Os peitos nus de Ceres&#8212; 
Cedo ou tarde vereis 
por l&#225; aparecer 
O deus P&#227;, o imortal. 

N&#227;o matou outros deuses 
O triste deus crist&#227;o. 
Cristo &#233; um deus a mais, 
Talvez um que faltava. 
P&#227; continua a ciar 
Os sons da sua flauta 
Aos ouvidos de Ceres 
Recumbente nos campos. 

Os deuses s&#227;o os mesmos, 
Sempre claros e calmos, 
Cheios de eternidade 
E desprezo por n&#243;s, 
Trazendo o dia e a noite 
E as colheitas douradas 
Sem ser para nos dar o dia e a noite e o trigo 
Mas por outro e divino 
Prop&#243;sito casual. </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ricardo Reis
O Deus P&#227;
 
O Deus P&#227; n&#227;o morreu, 
Cada campo que mostra 
Aos sorrisos de Apolo...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 76 - An&#225;lise do poema &amp;quot; Vem sentar-te comigo, L&#237;dia, &#224; beira do rio&amp;quot; de Ricardo Reis</title>
      <description>
        <![CDATA[Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise'ssemos, trocar beijos e abrac,os e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 23:23:42 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Vem sentar-te comigo, L&#237;dia, &#224; beira do rio

Vem sentar-te comigo L&#237;dia, &#224; beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e n&#227;o estamos de m&#227;os enla&#231;adas.
(Enlacemos as m&#227;os.)

Depois pensemos, crian&#231;as adultas, que a vida
Passa e n&#227;o fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao p&#233; do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as m&#227;os, porque n&#227;o vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem &#243;dios, nem paix&#245;es que levantam a voz,
Nem invejas que d&#227;o movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise'ssemos, trocar beijos e abrac,os e car&#237;cias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao p&#233; um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pag&#227;os inocentes da decad&#234;ncia.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembran&#231;a te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enla&#231;amos as m&#227;os, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crian&#231;as.

E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-&#225;s suave &#224; mem&#243;ria lembrando-te assim - &#224; beira-rio,
Pag&#227; triste e com flores no rega&#231;o.
</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Vem sentar-te comigo, L&#237;dia, &#224; beira do rio

Vem sentar-te comigo L&#237;dia, &#224; beira do rio.
Sosse...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 76 - An&#225;lise do poema &amp;quot;As rosas amo dos jardins de Ad&#243;nis&amp;quot; de Ricardo reis</title>
      <description>
        <![CDATA[ Ricardo Reis


As Rosas

As Rosas amo dos jardins de Adônis, 
Essas volucres amo, Lídia, rosas, 
Que em o dia em que nascem, 
Em esse dia morrem. 
A luz para elas é eterna, porque 
Nascem nascido já o sol, e acabam 
Antes que Apolo deixe 
O seu curso visível. 
Assim façamos nossa vida um dia, 
Inscientes, Lídia, voluntariamente 
Que há noite antes e após 
O pouco que duramos. ]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 23:09:58 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary> Ricardo Reis


As Rosas

As Rosas amo dos jardins de Ad&#244;nis, 
Essas volucres amo, L&#237;dia, rosas, 
Que em o dia em que nascem, 
Em esse dia morrem. 
A luz para elas &#233; eterna, porque 
Nascem nascido j&#225; o sol, e acabam 
Antes que Apolo deixe 
O seu curso vis&#237;vel. 
Assim fa&#231;amos nossa vida um dia, 
Inscientes, L&#237;dia, voluntariamente 
Que h&#225; noite antes e ap&#243;s 
O pouco que duramos. </itunes:summary>
      <itunes:subtitle> Ricardo Reis


As Rosas

As Rosas amo dos jardins de Ad&#244;nis, 
Essas volucres amo, L&#237;dia, r...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 75 - Ricardo Reis: o neopaganismo e o estoicismo e epicurismo</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Luca Giordano


Texto adaptade do manual Das Palavras aos Actos, 12º Ano , pp.83/84 Edições ASA

]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 19:53:57 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Pintura de Luca Giordano


Texto adaptade do manual Das Palavras aos Actos, 12&#186; Ano , pp.83/84 Edi&#231;&#245;es ASA

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      <itunes:subtitle>Pintura de Luca Giordano


Texto adaptade do manual Das Palavras aos Actos, 12&#186; Ano , pp.83/84...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 74 - An&#225;lise do poema Anivers&#225;rio de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>
        <![CDATA[ ]]>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 19:41:19 +0000</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 73 - Poema Anivers&#225;rio, na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
      <description>
        <![CDATA[ ANIVERSÁRIO - ÁLVARO DE CAMPOS

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

15-10-1929


]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 19:16:49 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary> ANIVERS&#193;RIO - &#193;LVARO DE CAMPOS

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ningu&#233;m estava morto.
Na casa antiga, at&#233; eu fazer anos era uma tradi&#231;&#227;o de h&#225; s&#233;culos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religi&#227;o qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande sa&#250;de de n&#227;o perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a fam&#237;lia,
E de n&#227;o ter as esperan&#231;as que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperan&#231;as, j&#225; n&#227;o sabia ter esperan&#231;as.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de cora&#231;&#227;o e parentesco.
O que fui de ser&#245;es de meia-prov&#237;ncia,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que s&#243; hoje sei que fui...
A que dist&#226;ncia!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje &#233; como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme atrav&#233;s das minhas l&#225;grimas),
O que eu sou hoje &#233; terem vendido a casa,
&#201; terem morrido todos,
&#201; estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um f&#243;sforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo f&#237;sico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metaf&#237;sica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como p&#227;o de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que h&#225; aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loi&#231;a,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas &#8212; doces, frutas o resto na sombra debaixo do al&#231;ado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

P&#225;ra, meu cora&#231;&#227;o!
N&#227;o penses! Deixa o pensar na cabe&#231;a!
&#211; meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje j&#225; n&#227;o fa&#231;o anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de n&#227;o ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

15-10-1929


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      <itunes:subtitle> ANIVERS&#193;RIO - &#193;LVARO DE CAMPOS

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz ...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 72 - An&#225;lise do poema Dactilografia</title>
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        <![CDATA[ ]]>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 19:12:33 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 71 - Poema Dactilografia na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
      <description>
        <![CDATA[Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra…

Mas o lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.


Álvaro de Campos, 19-12-1933]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 18:56:10 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Tra&#231;o sozinho, no meu cub&#237;culo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto at&#233; de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.
Que n&#225;usea da vida!
Que abjec&#231;&#227;o esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustra&#231;&#245;es, talvez, de qualquer livro de inf&#226;ncia),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, expl&#237;citas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que &#233; a que sonhamos na inf&#226;ncia,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de n&#233;voa;
A falsa, que &#233; a que vivemos em conviv&#234;ncia com outros,
Que &#233; a pr&#225;tica, a &#250;til,
Aquela em que acabam por nos meter num caix&#227;o.

Na outra n&#227;o h&#225; caix&#245;es, nem mortes,
H&#225; s&#243; ilustra&#231;&#245;es de inf&#226;ncia:
Grandes livros coloridos, para ver mas n&#227;o ler;
Grandes p&#225;ginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos n&#243;s,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que &#233; o que viver quer dizer;
Neste momento, pela n&#225;usea, vivo na outra&#8230;

Mas o lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.


&#193;lvaro de Campos, 19-12-1933</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Tra&#231;o sozinho, no meu cub&#237;culo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 70 - An&#225;lise do poema Ode Triunfal, de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>
        <![CDATA[Álvaro de Campos
 
Ode Marítima
 
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, 
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,  
Olho e contenta-me ver, 
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. 
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. 
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, 
Aqui, acolá, acorda a vida marítima, 
Erguem-se velas, avançam rebocadores, 
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.   
Há uma vaga brisa. 
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,  
Com o paquete que entra, 
Porque ele está com a Distância, com a Manhã, 
Com o sentido marítimo desta Hora, 
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,  
Como um começar a enjoar, mas no espírito. 

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,  
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente, 

Os paquetes que entram de manhã na barra 
Trazem aos meus olhos consigo 
O mistério alegre e triste de quem chega e parte. 
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos 
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. 
Todo o atracar, todo o largar de navio, 
É — sinto-o em mim como o meu sangue - 
Inconscientemente simbólico, terrivelmente 
Ameaçador de significações metafísicas 
Que perturbam em mim quem eu fui... 

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espaço 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, 
Uma névoa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha. 

Ah, quem sabe, quem sabe, 
Se não parti outrora, antes de mim, 
Dum cais; se não deixei, navio ao sol 
Oblíquo da madrugada, 
Uma outra espécie de porto? 
Quem sabe se não deixei, antes de a hora 
Do mundo exterior como eu o vejo 
Raiar-se para mim, 
Um grande cais cheio de pouca gente, 
Duma grande cidade meio-desperta, 
Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética, 
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo? 

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, 
Real, visível como cais, cais realmente, 
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado 
Insensivelmente evocado, 
Nós os homens construímos 
Os nossos cais de pedra atual sobre água verdadeira, 
Que depois de construídos se anunciam de repente 
Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, 
A certos momentos nossos de sentimento-raiz 
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta 
E, sem que nada se altere, 
Tudo se revela diverso. 

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações! 
O Grande Cais Anterior, eterno e divino! 
De que porto?  Em que águas?  E porque penso eu isto? 
Grandes Cais como os outros cais, mas o Único. 
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs, 
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes 
E chegadas de comboios de mercadorias, 
E sob a nuvem negra e ocasional e leve 
Do fundo das chaminés das fábricas próximas 
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha, 
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria. 

Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados  
Em divino êxtase revelador  
Às horas cor de silêncios e angústias 
Não é ponte entre qualquer cais e O Cais! 

Cais negramente refletido nas águas paradas,  
Bulício a bordo dos navios, 
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,  
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,  
Que quando o navio volta ao porto 
Há sempre qualquer alteração a bordo! 

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!   
Alma eterna dos navegadores e das navegações!   
Cascos refletidos devagar nas águas, 
Quando o navio larga do porto! 
Flutuar como alma da vida, partir como voz, 
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas. 
Acordar para dias mais diretos que os dias da Europa, 
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar, 
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens 
Por inumeráveis encostas atônitas... 

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe, 
E depois as praias próximas, os cais vistos de perto. 
O mistério de cada ida e de cada chegada, 
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade 
Deste impossível universo 
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!   
O soluço absurdo que as nossas almas derramaram  
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,  
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,  
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,  
Para o navio que se aproxima. 

Ah, a frescura das manhãs em que se chega, 
E a palidez das manhãs em que se parte, 
Quando as nossas entranhas se arrepanham 
E uma vaga sensação parecida com um medo 
- O medo ancestral de se afastar e partir, 
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo - 
Encolhe-nos a pele e agonia-nos, 
E todo o nosso corpo angustiado sente, 
Como se fosse a nossa alma,  
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:  
Uma saudade a qualquer coisa, 
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria? 
A que costa? a que navio? a que cais? 
Que se adoece em nós o pensamento, 
E só fica um grande vácuo dentro de nós, 
Uma oca saciedade de minutos marítimos, 
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor 
Se soubesse como sê-lo... 

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca.   
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.   
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.   
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,  
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva. 

Na minha imaginação ele está já perto e é visível  
Em toda a extensão das linhas das suas vigias.   
E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele,  
Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco  
E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado oblíquo. 
Os navios que entram a barra, 
Os navios que saem dos portos, 
Os navios que passam ao longe  
(Suponho-me vendo-os duma praia deserta)  - 
Todos estes navios abstratos quase na sua ida,  
Todos estes navios assim comovem-me como se fossem outra coisa  
E não apenas navios, navios indo e vindo. 

E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá embarcar neles, 
Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas,  
Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das despensas,  
Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pró alto,  
Roçando pelas cordas, descendo as escadas incômodas,  
Cheirando a untada mistura metálica e marítima de tudo aquilo  - 
Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma coisa,  
Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira. 

Toda a vida marítima! tudo na vida marítima! 
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina 
E eu cismo indeterminadamente as viagens. 
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!   
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! 
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico  
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola  
Se sente pesar sobre os nervos o fato de que aquele é o maior dos oceanos  
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós! 
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!  
O indico, o mais misterioso dos oceanos todos! 
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater 
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!   
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos, 
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer! 

E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho! 
Componde fora de mim a minha vida interior! 
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, 
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas, 
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, válvulas; 
Caí por mim dentro em montão, em monte, 
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão! 
Sede vós o tesouro da minha avareza febril, 
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação, 
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,  
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética, 
Fornecei-me metáforas imagens, literatura, 
Porque em real verdade, a sério, literalmente, 
Minhas sensações são um barco de quilha pro ar, 
Minha imaginação uma ancora meio submersa, 
Minha ânsia um remo partido, 
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia! 

Soa no acaso do rio um apito, só um. 
Treme já todo o chão do meu psiquismo. 
Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim. 

Ah, os paquetes, as viagens, o não-se-saber-o-paradeiro 
De Fulano-de-tal, marítimo, nosso conhecido! 
Ah, a glória de se saber que um homem que andava conosco 
Morreu afogado ao pé duma ilha do Pacífico! 
Nós que andamos com ele vamos falar nisso a todos, 
Com um orgulho legítimo, com uma confiança invisível 
Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto 
Que apenas o ter-se perdido o barco onde ele ia 
E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado água pros pulmões! 

Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!   
Vão rareando - ai de mim! - os navios de vela nos mares! 
E eu, que amo a civilização moderna, eu que beijo com a alma as máquinas, 
Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro, 
Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira, 
De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares! 
Porque os mares antigos são a Distância Absoluta, 
O Puro Longe, liberto do peso do Atual... 
E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor, 
Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar. 
Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles. 

Todo o vapor ao longe é um barco de vela perto.   
Todo o navio distante visto agora é um navio no passado visto próximo. 
Todos os marinheiros invisíveis a bordo dos navios no horizonte 
São os marinheiros visíveis do tempo dos velhos navios, 
Da época lenta e veleira das navegações perigosas, 
Da época de madeira e lona das viagens que duravam meses. 

Toma-me pouco a pouco o delírio das coisas marítimas, 
Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera, 
O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos, 
E começo a sonhar, começo a envolver-me do sonho das águas, 
Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minh'alma 
E a aceleração do volante sacode-me nitidamente. 

Chamam por mim as águas, 
Chamam por mim os mares, 
Chamam por mim, levantando uma voz corpórea, os longes, 
As épocas marítimas todas sentidas no passado, a chamar. 

Tu, marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo, foste tu 
Que me ensinaste esse grito antiquíssimo, inglês, 
Que tão venenosamente resume 
Para as almas complexas como a minha 
O chamamento confuso das águas, 
A voz inédita e implícita de todas as coisas do mar, 
Dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. 
Esse teu grito inglês, tornado universal no meu sangue, 
Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz, 
Esse grito tremendo que parece soar 
De dentro duma caverna cuja abóbada é o céu  
E parece narrar todas as sinistras coisas 
Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite...  
(Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas,  
E dizias assim, pondo uma mão de cada lado da boca, 
Fazendo porta-voz das grandes mãos curtidas e escuras: 

Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyy... 
Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-oò -yyy...)  

Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa. 
Estremece o vento.  Sobe a manhã.  O calor abre. 
Sinto corarem-me as faces. 
Meus olhos conscientes dilatam-se. 
O êxtase em mim levanta-se, cresce, avança,  
E com um ruído cego de arruaça acentua-se  
O giro vivo do volante. 

Ó clamoroso chamamento 
A cujo calor, a cuja fúria fervem em mim 
Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias, 
Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!... 
Apelo lançado ao meu sangue 
Dum amor passado, não sei onde, que volve 
E ainda tem força para me atrair e puxar, 
Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida 
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica 
Da gente real com que vivo! 

Ah seja como for, seja por onde for, partir! 
Largar por aí  fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar. 
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata, 
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, 
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! 
Ir, ir, ir, ir de vez! 

Todo o meu sangue raiva por asas! 
Todo o meu corpo atira-se pra frente! 
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes! 
Atropelo-me, rujo, precipito-me 
Estoiram em espuma as minhas ânsias 
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos! 

Pensando nisto - ó raiva! pensando nisto - ó fúria! 
Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de ânsias, 
Subitamente, tremulamente extraorbitadamente, 
Com uma oscilação viciosa, vasta, violenta, 
Do volante vivo da minha imaginação. 
Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando, 
O cio sombrio e sádico da estrídula vida marítima. 

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!   
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!   
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!   
Homens que dormem em beliches rudes!   
Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias!   
Homens que dormem co'a Morte por travesseiro!   
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar  
A imensidade imensa do mar imenso! 
Eh manipuladores dos guindastes de carga! 
Eh amainadores de velas, fagueiros, criados de bordo! 
Homens que metem a carga nos porões! 
Homens que enrolam cabos no convés! 
Homens que limpam os metais das escotilhas! 
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!   
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Gente de boné de pala!  Gente de camisola de malha! 
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito! 
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada! 
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva, 
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles, 
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer! 

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Homens que vistes a Patagônia! 
Homens que passasses pela Austrália! 
Que enchesses o vosso olhar de costas que nunca verei! 
Que fostes a terra em terras onde nunca descerei! 
Que comprastes artigos toscos em colônias à proa de sertões! 
E fizestes tudo isso como se não fosse nada, 
Como se isso fosse natural, 
Como se a vida fosse isso, 
Como nem sequer cumprindo um destino!   
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Homens do mar atual! homens do mar passado! 
Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto! 
Piratas do tempo de Roma!  Navegadores da Grécia! 
Fenícios!  Cartagineses!  Portugueses atirados de Sagres 
Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossível! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Homens que erguestes padrões, que destes nomes a cabos!   
Homens que negociastes pela primeira vez com pretos! 
Que primeiro vendesses escravos de novas terras! 
Que destes o primeiro espasmo europeu às negras atônitas  
Que trouxesses ouro, miçanga, madeiras cheirosas, setas, 
De encostas explodindo em verde vegetação!   
Homens que saqueasses tranqüilas povoações africanas  
Que fizestes fugir com o ruído de canhões essas raças  
Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes  
Os prêmios de Novidade de quem, de cabeça baixa  
Arremete contra o mistério de novos mares!  Eh-eh-eh eh-eh!  
A vós todos num, a vós todos em vós todos como um, 
A vós todos misturados, entrecruzados. 
A vós todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados,  
Eu vos saúdo, eu vos saúdo, eu vos saúdo! 
Eh-eh-eh-eh eh!  Eh eh-eh-eh eh!  Eh-eh-eh eh-eh-eh eh! 
Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à! 

Quero ir convosco, quero ir convosco, 

Ao mesmo tempo com vós todos 
Pra toda a parte pr'onde fostes! 
Quero encontrar vossos perigos frente a frente, 
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossa 
Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos 
Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas 
Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos! 
Fugir convosco à civilização! 
Perder convosco a noção da moral! 
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade! 
Beber convosco em mares do Sul 
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma, 
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito! 
Ir convosco, despir de mim - ah! põe-te daqui pra fora! - 
O meu traje de civilizado, a minha brandura de ações, 
Meu medo inato das cadeias, 
Minha pacífica vida, 
A minha vida sentada, estática, regrada e revista! 

No mar, no mar, no mar, no mar, 
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas, 
A minha vida! 
Salgar de espuma arremessada pelos ventos 
Meu paladar das grandes viagens. 
Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura, 
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência, 
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis, 
Meu ser ciclônico e atlântico, 
Meus nervos postos como enxárcias, 
Lira nas mãos dos ventos! 

Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navegações 
E as minhas espáduas gozarão a minha cruz! 
Atai-me às viagens como a postes 
E a sensação dos postes entrará pela minha espinha 
E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo! 
Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares, 
Sobre conveses, ao som de vagas, 
Que me rasgueis, mateis, fira-os! 
O que quero é levar pra Morte 
Uma alma a transbordar de Mar,  
Ébria a cair das coisas marítimas, 
Tanto dos marujos como das âncoras, dos cabos, 
Tanto das costas longínquas como do ruído dos ventos, 
Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufrágios 
Como dos tranqüilos comércios, 
Tanto dos mastros como das vagas, 
Levar pra Morte com dor, voluptuosamente, 
Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar, 
De estranhas verdes absurdas sanguessugas marítimas! 

Façam enxárcias das minhas veias! 
Amarras dos meus músculos! 
Atranquem-me a pele, preguem-na às quilhas. 
E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir! 
Façam do meu coração uma flâmula de almirante 
Na hora de guerra aos velhos navios! 
Calquem aos pés nos conveses meus olhos arrancados! 
Quebrem-me os ossos de encontro às amuradas! 
Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me! 
A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes 
Derramem meu sangue sobre as águas arremessadas 
Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado, 
Nas vascas bravas das tormentas! 

Ter a audácia ao vento dos panos das velas! 
Ser, como as gáveas altas, o assobio dos ventos! 
A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos, 
Canção para os navegadores ouvirem e não repetirem! 

Os marinheiros que se sublevaram 
Enforcaram o capitão numa verga. 
Desembarcaram um outro numa ilha deserta. 
Morooned! 
O sol dos trópicos pôs a febre da pirataria antiga 
Nas minhas veias intensivas. 
Os ventos da Patagônia tatuaram a minha imaginação 
De imagens trágicas e obscenas. 
Fogo, fogo, fogo, dentro de mim! 
Sangue! sangue! sangue! sangue! 
Explode todo o meu cérebro! 
Parte-se-me o mundo em vermelho! 
Estoiram-me com o som de amarras as veias! 
E estala em mim, feroz, voraz, 
A canção do Grande Pirata, 
A morte berrada do Grande Pirata a cantar 
Até meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo. 
Lá da ré a morrer, e a berrar, a cantar: 

                Fifteen men on the Dead Man's Chest. 
                Yo-ho ho and a bottle of rum I 

E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar: 

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw! 
Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw! 
Fetch a-a-aft th ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby, 

Eia,, que vida essa! essa era a vida, eia! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Eh-lahô-lahô-laFIO-Iahá-á-á-à-à! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!   

Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares 
Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos! 
Dedos decepados sobre amuradas! 
Cabeças de crianças, aqui, acolá! 
Gente de olhos fora, a gritar, a uivar! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio! 
Roço-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro! 
Rujo como um leão faminto para tudo isto! 
Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto! 
Cravo unhas, parto garras, sangro dos dentes sobre isto! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 

De repente estala-me sobre os ouvidos 
Como um clarim a meu lado, 
O velho grito, mas agora irado, metálico, 
Chamando a presa que se avista, 
A escuna que vai ser tomada: 

Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó - yyyy.. 
Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó - yyyy... 

O mundo inteiro não existe para mim!  Ardo vermelho! 
Rujo na fúria da abordagem! 
Pirata-mór!  César-Pirata! 
Pilho, mato, esfacelo, rasgo! 
Só sinto o mar, a presa, o saque! 
Só sinto em mim bater, baterem-me 
As veias das minhas fontes! 
Escorre sangue quente a minha sensação dos meus olhos! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 

Ah piratas, piratas, piratas! 
Piratas, amai-me e odiai-me! 
Misturai-me convosco, piratas! 

Vossa fúria, vossa crueldade corno falam ao sangue  
Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive! 

Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos,  
Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas  
Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos conveses,  
Trincasse velas, remos, cordame e poleame, 
Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! 

E há uma sinfonia de sensações incompatíveis e análogas, 
Há uma orquestrarão no meu sangue de balbúrdias de crimes,   
De estrépitos espasmados de orgias de sangue nos mares,  
Furlbundamente, como um vendaval de calor pelo espírito,  
Nuvem de poeira quente anuviando a minha lucidez  
E fazendo-me ver e sonhar isto tudo só com a pele e as veias! 

Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora, 
Aquela hora marítima em que as presas são assaltadas,  
E o terror dos apresados foge pra loucura - essa hora,  
No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, céu, nuvens,  
Brisa, latitude, longitude, vozearia, 
Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo, 
Que fosse meu corpo e meu sangue, compusesse meu ser em vermelho, 
Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma! 

Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes 
Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das violações!   
Ser quanto foi no lugar dos saques! 
Ser quanto viveu ou jazeu no local das tragédias de sangue!   
Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge,  
E a vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! 
Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres  
Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!   
Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles  
E sentir tudo isso -- todas estas coisas duma só vez - pela espinha! 

Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime!   
Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação!   
Amantes casuais da obliqüidade das minhas sensações!   
Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos, 
A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos! 
Porque ela teria convosco, mas só em espírito, raivado 
Sobre os cadáveres nus das vítimas que fazeis no mar! 
Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oceânica  
Seu espírito de bruxa dançaria invisível em volta dos gestos  
Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas mãos estranguladores! 
E ela em terra, esperando-vos, quando viésseis, se acaso viésseis, 
Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto, 
Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vitórias,  
E através dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo! 

A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo! 
Agora, no auge conciso de sonhar o que vós fazíeis,  
Perco-me todo de mim, já não vos pertenço, sou vós,  
A minha feminilidade que vos acompanha é ser as vossas almas! 
Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a praticáveis! 
Sugar por dentro a vossa consciência das vossas sensações  
Quando tingíeis de sangue os mares altos, 
Quando de vez em quando atiráveis aos tubarões 
Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das crianças 
E leváveis as mães às amuradas para verem o que lhes acontecia! 

Estar convosco na carnagem, na pilhagem! 
Estar orquestrado convosco na sinfonia dos saques!   
Ah, não sei quê, não sei quanto queria eu ser de vós!   
Não era só ser-vos a fêmea, ser-vos as fêmeas, ser-vos as vítimas, 
Ser-vos as vítimas - homens, mulheres, crianças, navios -, 
Não era só ser a hora e os barcos e as ondas, 
Não era só ser vossas almas, vossos corpos, vossa fúria, vossa posse, 
Não era só ser concretamente vosso ato abstrato de orgia,  
Não era só isto que eu queria ser - era mais que isto o Deus-isto! 
Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrário, 
Um Deus monstruoso e satânico, um Deus dum panteísmo de sangue, 
Para poder encher toda a medida da minha fúria imaginativa,  
Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade  
Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vitórias! 

Ah, torturai-me para me curardes! 
Minha carne - fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam  
Antes de caírem sobre as cabeças e os ombros!   
Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam!   
Minha imaginação o corpo das mulheres que violais!   
Minha inteligência o convés onde estais de pé matando!   
Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, histérico, absurdo,  
O grande organismo de que cada ato de pirataria que se cometeu  
Fosse uma célula consciente - e todo eu turbilhonasse  
Como uma imensa podridão ondeando, e fosse aquilo tudo!   

Com tal velocidade desmedida, pavorosa, 
A máquina de febre das minhas visões transbordantes  
Gira agora que a minha consciência, volante, 
E apenas um nevoento círculo assobiando no ar. 

Fifteen men on tbe Dead Man's Chest. 
Yo-ho-ho and a bottle of rum! 

Eh-lahô-lahô-laHO - lahá-á-ááá - ààà... 

Ah! a selvajaria desta selvajaria!  Merda 
Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto! 
Eu pr'àqui engenheiro, pratico à força, sensível a tudo, 
Pr'àqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando; 
Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil;  
Estático, quebrado, dissidente cobarde da vossa Glória,  
Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta! 

Arre! por não poder agir de acordo com o meu delírio!   
Arre! por andar sempre agarrado às saias da civilização!   
Por andar com a douceur des moeurs às costas, como um fardo de rendas!   
Moços de esquina - todos nós o somos - do humanitarismo moderno! 
Estupores de tísicos, de neurastênicos, de linfáticos, 
Sem coragem para ser gente com violência e audácia, 
Com a alma como uma galinha presa por uma perna! 

Ah, os piratas! os piratas!. 
A ânsia do ilegal unido ao feroz, 
A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis, 
Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzimos, 
Os nossos nervos femininos e delicados, 
E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios! 

Obrigai-me a ajoelhar diante de vós! 
Humilhai-me e batei-me! 
Fazei de mim o vosso escravo e a vossa coisa! 
E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone, 
Ó meus senhores! ó meus senhores! 

Tomar sempre gloriosamente a parte submissa 
Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas!   
Desabai sobre mim, como grandes muros pesados,  
Ó bárbaros do antigo mar! 
Rasgai-me e feri-me! 
De leste a oeste do meu corpo 
Riscai de sangue a minha carne! 
Beijai com cutelos de bordo e açoites e raiva 
O meu alegre terror carnal de vos pertencer. 
A minha ânsia masoquista em me dar à vossa fúria, 
Em ser objeto inerte e sentiente da vossa omnívora crueldade, 
Dominadores, senhores, imperadores, corcéis! 
Ah, torturai-me, 
Rasgai-me e abri-me! 
Desfeito em pedaços conscientes 
Entornai-me sobre os conveses, 
Espalhal-me nos mares, deixai-me 
Nas praias ávidas das ilhas! 

Cevai sobre mim todo o meu misticismo de vós! 
Cinzelai a sangue a minh'alma 
Cortai, riscai! 
Ó tatuadores da minha imaginação corpórea! 
Esfoladores amados da minha cama submissão! 
Submetei-me como quem mata um cão a pontapés! 
Fazei de mim o poço para o vosso desprezo de domínio! 

Fazei de mim as vossas vítimas todas! 
Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer  
Por todas as vossas vítimas às vossas mãos,  
Às vossas mãos calosas, sangrentas e de dedos decepados  
Nos assaltos bruscos de amuradas! 

Fazei de mim qualquer, cousa como se eu fosse 
Arrastado - ó prazer, o beijada dor! - 
Arrastado à cauda de cavalos chicoteados por vós... 
Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR!   
Eh-eh-eh-eh-eh!  Eh--.h-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EHEH-EH-EH-EH!  No MA-A-A-A-AR! 

Yeh eh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eheh-eh-eh-eh-eh'  
Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos,  
Marés, gáveas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar!   
Eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar! 

FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. 
YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM! 

Eh-eh eh-eh -eh-eh-eh!  Eh-eh-eh-eh-eheh-eh!  Eh eheh eh-eh-eh-eh!   
Eh-lahô-lahô-laHO-O-O-ôô-lahá-á à - ààà! 

AHÓ-Ó-Ó Ó Ó Ó-Ó Ó Ó Ó Ó - yyyj... 
SCHOONER AHÓ-ó-ó-ó-ó-ó-ó-o-o-o - yyyy! ... 

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw! 
DA.RBY M'GRAW-AW AW-AW-AW-AW-AW! 
FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY! 

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh! 
EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!   
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!   
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EFI-EH-EH-EH-EHI 
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! 

Parte-se em mim qualquer coisa.  O vermelho anoiteceu. 
Senti demais para poder continuar a sentir. 
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. 
Decresce sensivelmente a velocidade do volante. 
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos. 
Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar noturno. 
E logo que sinto que há um mar noturno dentro de mim, 
Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio, 
Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo. 
De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura, 

Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo 
Úmido e sombrio marulho humano noturno, 
Voz de sereia longínqua chorando, chamando, 
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, 
E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos... 

Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yy... 
Schooner a Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yy... 

Ah, o orvalho sobre a minha excitação! 
O frescor noturno no meu oceano interior! 
Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar 
Cheia de enorme mistério humaníssimo das ondas noturnas 
A lua sobe no horizonte 
E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima, em mim. 
O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo 
Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção 
Que fosse chamar ao meu passado 
Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter. 

Era na velha casa sossegada ao pé do rio 
(As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar também,  
Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio próximo,  
Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo 
Se eu agora chegasse às mesmas janelas não chegava às mesmas janelas. 
Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto... ) 

Unia inexplicável ternura, 
Um remorso comovido e lacrimoso, 
Por todas aquelas vítimas - principalmente as crianças - 
Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo, 
Emoção comovida, porque elas foram minhas vítimas; 
Terna e suave, porque não o foram realmente; 
Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada, 
Canta velhas canções na minha pobre alma dolorida. 

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas? 
Que longe estou do que fui há uns momentos! 
Histeria das sensações - ora estas, ora as opostas! 
Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe 
As cousas de acordo com esta emoção - o marulho das águas. 
O marulho leve das águas do rio de encontro ao cais.... 
A vela passando perto do outro lado do rio, 
Os montes longínquos, dum azul japonês, 
As casas de Almada, 
E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... 

Uma gaivota que passa, 
E a minha ternura é maior. 

Mas todo este tempo não estive a reparar para nada.   
Tudo isto foi uma impressão só da pele, com uma carícia  
Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo,  
Da minha casa ao pé do rio, 
Da minha infância ao pé do rio, 
Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,  
E a paz do luar esparso nas águas! ... 

Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu..., 
Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me 
(Se bem que eu fosse já crescido demais para isso)... 
Lembro-me e as lágrimas caem sobre o meu coração e lavam-no da vida, 
E ergue-me uma leve brisa marítima dentro de mim. 
As vezes ela cantava a "Nau Catrineta": 

                Lá vai a Nau Catrineta 
                Por sobre as águas do mar ... 

E outras vezes, numa melodia muito saudosa e tão medieval,  
Era a "Bela Infanta"... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim 
E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto! 
Como fui ingrato para ela - e afinal que fiz eu da vida? 
Era a "Bela Infanta"...  Eu fechava os olhos, e ela cantava: 

                Estando a Bela Infanta 
                No seu Jardim assentada... 

Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar  
E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz. 

                Estando a Bela Infanta 
                No seu jardim assentada, 
                Seu pente de ouro na mão, 
                Seus cabelos penteava 

Ó meu passado de infância, boneco que me partiram! 
Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, 
E ficar lá sempre, sempre criança e sempre contente! 

Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha. 
Pensar isto faz frio, faz fome duma cousa que se não pode obter. 
Dá-me não sei que remorso absurdo pensar nisto. 
Oh turbilhão lento de sensações desencontradas! 
Vertigem tênue de confusas coisas na alma! 
Fúrias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crianças brincam, 
Grandes desabamentos de imaginação sobre os olhos dos sentidos,  
Lágrimas, lágrimas inúteis, 
Leves brisas de contradição roçando pela face a alma... 

Evoco, por um esforço voluntário, para sair desta emoção, 
Evoco, com um esforço desesperado, seco, nulo, 
A canção do Grande Pirata, quando estava a morrer: 

                Fifteen men on the Dead Man's Chest. 
                Yo-ho-ho and a bottle of rum! 

Mas a canção é uma linha reta mal traçada dentro de mim... 
Esforço-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma, 
Outra vez, mas através duma imaginação quase literária,  
A fúria da pirataria, da chacina, o apetite, quase do paladar, do saque, 
Da chacina inútil de mulheres e de crianças,  
Da tortura fútil, e só para nos distrairmos, dos passageiros pobres  
E a sensualidade de escangalhar e partir as coisas mais queridas dos outros,  
Mas sonho isto tudo com um medo de qualquer coisa a respirar-me sobre a nuca. 

Lembro-me de que seria interessante  
Enforcar os filhos à vista das mães  
(Mas sinto-me sem querer as mães deles), 
Enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos 
Levando os pais em barcos até lá para verem 
(Mas estremeço, lembrando-me dum filho que não tenho 
e está dormindo tranqüilo em casa). 

Aguilhôo uma ânsia fria dos crimes marítimos,  
Duma inquisição sem a desculpa da Fé, 
Crimes nem sequer com razão de ser de maldade e de fúria, 
Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal, 
Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo,  
Como quem faz paciências a uma mesa de jantar de província com a toalha  
Atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar,  
Só pelo suave gosto de cometer crimes abomináveis e não os achar grande coisa,  
De ver sofrer até ao ponto da loucura e da morte-pela-dor mas nunca deixar chegar lá... 
Mas a minha imaginação recusa-se a acompanhar-me.   
Um calafrio arrepia-me. 
E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo, 
De repente - oh pavor por todas as minhas veias! -,  
Oh frio repentino da porta para o Mistério 
que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar! 
Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente  
A velha voz do marinheiro inglês Jim Barris com quem eu falava,  
Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim,  
das pequenas coisas de regaço de mãe e de fita de cabelo de irmã, 
Mas estupendamente vinda de além da aparência das coisas, 
A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca, 
Vinda de sobre e de dentro da solidão noturna dos mares,  

Chama por mim, chama por mim, chama por mim ... 

Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse,  
Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui não se pudesse ouvir,  
Como um soluço abafado, uma luz que se apaga, um hálito silencioso.   
De nenhum lado do espaço, de nenhum local no tempo,  
O grito eterno e noturno, o sopro fundo e confuso: 

Ahô-ô-õ-õ-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô - yyy...... 
Ahô-ô-õ-õ-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô - yyy...... 
Schooner ah-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ô - - yy..... 

Tremo com frio da alma repassando-me o corpo 
E abro de repente os olhos, que não tinha fechado.   
Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez!   
Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nervos!   
Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo. 

Já não me importa o paquete que entrava.  Ainda está longe.   
Só o que está perto agora me lava a alma. 
A minha imaginação higiênica, forte, pratica, 
Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e úteis,  
Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, 
Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras. 
Abranda o seu giro dentro de mim o volante. 

Maravilhosa vida marítima moderna, 
Toda limpeza, máquinas e saúde! 
Tudo tão bem arranjado, tão espontaneamente ajustado,  
Todas as peças das máquinas, todos os navios pelos mares,  
Todos os elementos da atividade comercial de exportação e importação  
Tão maravilhosamente combinando-se 
Que corre tudo como se fosse por leis naturais,  
Nenhuma coisa esbarrando com outra! 

Nada perdeu a poesia.  E agora há a mais as máquinas  
Com a sua poesia também, e todo o novo gênero de vida  
Comercial, mundana, intelectual, sentimental,  
Que a era das máquinas veio trazer para as almas.   
As viagens agora são tão belas como eram dantes  
E um navio será sempre belo, só porque é um navio.   
Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve  
Em parte nenhuma, graças a Deus! 

Os portos cheios de vapores de muitas espécies!   
Pequenos, grandes, de várias cores, com várias disposições de vigias,  
De tão deliciosamente tantas companhias de navegação!   
Vapores nos portos, tão individuais na separação destacada dos ancoramentos!   
Tão prazenteiro o seu garbo quieto de cousas comerciais que andam no mar, 
No velho mar sempre o homérico, ó Ulisses! 

O olhar humanitário dos faróis na distância da noite,  
Ou o súbito farol próximo na noite muito escura  
("Que perto da terra que estávamos passando!"   
E o som da água canta-nos ao ouvido)! ... 

Tudo isto hoje é como sempre foi, mas há o comércio; 
E o destino comercial dos grandes vapores 
Envaidece-me da minha época! 
A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros  
Dá-me o orgulho moderno de viver numa época onde é tão fácil  
Misturarem-se as raças, transporem-se os espaços, ver com facilidade todas as coisas,  
E gozar a vida realizando um grande número de sonhos. 

Limpos, regulares, modernos como um escritório com guichets em redes de arame amarelo! 
Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como , gentlemen, 
São práticos, longe de desvairamentos, enchem de ar marítimo os pulmões, 
Como gente perfeitamente consciente de como é higiênico respirar o ar do mar. 

O dia é perfeitamente já de horas de trabalho. 
Começa tudo a movimentar-se, a regularizar-se. 

Com um grande prazer natural e direto percorro a alma 
Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias. 
A minha época é o carimbo que levam todas as faturas 
E sinto que todas as cartas de todos os escritórios 
Deviam ser endereçadas a mim. 

Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade, 
E uma assinatura de comandante de navio é tão bela  e moderna! 
Rigor comercial do princípio e do fim das cartas: 
Dear Sirs - Messieurs - Amigos e Srs., 
Yours faithfully - ...nos salutations empressées... 
Tudo isto não é só humano e limpo, mas também belo, 
E tem ao fim um destino marítimo, um vapor onde embarquem 
As mercadorias de que as cartas e as faturas tratam. 

Complexidade da vida!  As faturas são feitas por gente 
Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes - 
E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso!   
Há quem olhe para uma fatura e não sinta isto.   
Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.   
Eu é até às lágrimas que o sinto humanissimamente.   
Venham dizer-me que não há poesia no comércio, nos escritórios! 
Ora, ela entra por todos os poros... Neste ar marítimo respiro-a,  
Por tudo isto vem a propósito dos vapores, da navegação moderna,  
Porque as faturas e as cartas comerciais são o princípio da história 
E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno são o fim. 

Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras,  
As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros 
Duma maneira especial, como se um mistério marítimo  
Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento  
Patriotas transitórios duma mesma pátria incerta,  
Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das água,,  
Grandes hotéis do Infinito, oh transatlânticos meus!  
Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto  
E conterem todas as espécies de trajes, de caras, de raças! 

As viagens, os viajantes - tantas espécies deles!   
Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profissão! tanta gente! 
Tanto destino diverso que se pode dar à vida, 
À vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!   
Tantas caras curiosas!  Todas as caras são curiosas  
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente. 
A fraternidade afinal não é uma idéia revolucionária.  
É uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,  
E passa a achar graça ao que tem que tolerar, 
E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou! 

Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado  
Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burgueses.   
Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes!   
A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano.   
Pobre gente! pobre gente toda a gente! 

Despeço-me desta hora no corpo deste outro navio 
Que vai agora saindo. É um tramp-steamer inglês, 
Muito sujo, como se fosse um navio francês, 
Com um ar simpático de proletário dos mares, 
E sem dúvida anunciado ontem na última página das gazetas. 

Enternece-me o pobre vapor, tão humilde vai ele e tão natural. 
Parece ter um certo escrúpulo não sei em quê, ser pessoa honesta, 
Curnpridora duma qualquer espécie de deveres. 
Lá vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.   
Lá vai ele tranqüilamente, passando por onde as naus estiveram 
Outrora, outrora... 
Para Cardiff?  Para Liverpool?  Para Londres?  Não tem importância. 
Ele faz o seu dever.  Assim façamos nós o nosso.  Bela vida! 
Boa viagem!  Boa viagem!  
Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor 
De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,  
E restituir-me à vida para olhar para ti e te ver passar.   
Boa viagem!  Boa viagem!  A vida é isto... 

Que aprumo tão natural, tão inevitavelmente matutino  
Na tua saída do porto de Lisboa, hoje! 
Tenho-te uma afeição curiosa e grata por isso... 
Por isso quê?  Sei lá o que é!... Vai... Passa... 
Com um ligeiro estremecimento, 
(T-t--t --- r ---- t----- r ... ) 
O volante dentro de mim pára. 

Passa, lento vapor, passa e não fiques... 
Passa de mim, passa da minha vista, 
Vai-te de dentro do meu coração, 
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, 
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... 
Eu quem sou para que chore e interrogue? 
Eu quem sou para que te fale e te ame? 
Eu quem sou para que me perturbe ver-te? 
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, 
Luzem os telhados dos edifícios do cais, 
Todo o lado de cá da cidade brilha... 
Parte, deixa-me, torna-te 
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido, 
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto 
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!), 
Ponto cada vez mais vago no horizonte.... 
Nada depois, e só eu e a minha tristeza, 
E a grande cidade agora cheia de sol 
E a hora real e nua como um cais já sem navios, 
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira, 
Traça um semicírculo de não sei que emoção 
No silêncio comovido da minh'alma...]]>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 18:45:35 +0000</pubDate>
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      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>&#193;lvaro de Campos
 
Ode Mar&#237;tima
 
Sozinho, no cais deserto, a esta manh&#227; de Ver&#227;o, 
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,  
Olho e contenta-me ver, 
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 
Vem muito longe, n&#237;tido, cl&#225;ssico &#224; sua maneira. 
Deixa no ar distante atr&#225;s de si a orla v&#227; do seu fumo. 
Vem entrando, e a manh&#227; entra com ele, e no rio, 
Aqui, acol&#225;, acorda a vida mar&#237;tima, 
Erguem-se velas, avan&#231;am rebocadores, 
Surgem barcos pequenos de tr&#225;s dos navios que est&#227;o no porto.   
H&#225; uma vaga brisa. 
Mas a minh'alma est&#225; com o que vejo menos,  
Com o paquete que entra, 
Porque ele est&#225; com a Dist&#226;ncia, com a Manh&#227;, 
Com o sentido mar&#237;timo desta Hora, 
Com a do&#231;ura dolorosa que sobe em mim como uma n&#225;usea,  
Como um come&#231;ar a enjoar, mas no esp&#237;rito. 

Olho de longe o paquete, com uma grande independ&#234;ncia de alma,  
E dentro de mim um volante come&#231;a a girar, lentamente, 

Os paquetes que entram de manh&#227; na barra 
Trazem aos meus olhos consigo 
O mist&#233;rio alegre e triste de quem chega e parte. 
Trazem mem&#243;rias de cais afastados e doutros momentos 
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. 
Todo o atracar, todo o largar de navio, 
&#201; &#8212; sinto-o em mim como o meu sangue - 
Inconscientemente simb&#243;lico, terrivelmente 
Amea&#231;ador de significa&#231;&#245;es metaf&#237;sicas 
Que perturbam em mim quem eu fui... 

Ah, todo o cais &#233; uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espa&#231;o 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, n&#227;o sei porqu&#234;, uma ang&#250;stia recente, 
Uma n&#233;voa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas ang&#250;stias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recorda&#231;&#227;o duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha. 

Ah, quem sabe, quem sabe, 
Se n&#227;o parti outrora, antes de mim, 
Dum cais; se n&#227;o deixei, navio ao sol 
Obl&#237;quo da madrugada, 
Uma outra esp&#233;cie de porto? 
Quem sabe se n&#227;o deixei, antes de a hora 
Do mundo exterior como eu o vejo 
Raiar-se para mim, 
Um grande cais cheio de pouca gente, 
Duma grande cidade meio-desperta, 
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopl&#233;tica, 
Tanto quanto isso pode ser fora do Espa&#231;o e do Tempo? 

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, 
Real, vis&#237;vel como cais, cais realmente, 
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado 
Insensivelmente evocado, 
N&#243;s os homens constru&#237;mos 
Os nossos cais de pedra atual sobre &#225;gua verdadeira, 
Que depois de constru&#237;dos se anunciam de repente 
Coisas-Reais, Esp&#237;ritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, 
A certos momentos nossos de sentimento-raiz 
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta 
E, sem que nada se altere, 
Tudo se revela diverso. 

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Na&#231;&#245;es! 
O Grande Cais Anterior, eterno e divino! 
De que porto?  Em que &#225;guas?  E porque penso eu isto? 
Grandes Cais como os outros cais, mas o &#218;nico. 
Cheio como eles de sil&#234;ncios rumorosos nas antemanh&#227;s, 
E desabrochando com as manh&#227;s num ru&#237;do de guindastes 
E chegadas de comboios de mercadorias, 
E sob a nuvem negra e ocasional e leve 
Do fundo das chamin&#233;s das f&#225;bricas pr&#243;ximas 
Que lhe sombreia o ch&#227;o preto de carv&#227;o pequenino que brilha, 
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre &#225;gua sombria. 

Ah, que essencialidade de mist&#233;rio e sentido parados  
Em divino &#234;xtase revelador  
&#192;s horas cor de sil&#234;ncios e ang&#250;stias 
N&#227;o &#233; ponte entre qualquer cais e O Cais! 

Cais negramente refletido nas &#225;guas paradas,  
Bul&#237;cio a bordo dos navios, 
&#211; alma errante e inst&#225;vel da gente que anda embarcada,  
Da gente simb&#243;lica que passa e com quem nada dura,  
Que quando o navio volta ao porto 
H&#225; sempre qualquer altera&#231;&#227;o a bordo! 

&#211; fugas cont&#237;nuas, idas, ebriedade do Diverso!   
Alma eterna dos navegadores e das navega&#231;&#245;es!   
Cascos refletidos devagar nas &#225;guas, 
Quando o navio larga do porto! 
Flutuar como alma da vida, partir co(continued)</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>&#193;lvaro de Campos
 
Ode Mar&#237;tima
 
Sozinho, no cais deserto, a esta manh&#227; de Ver&#227;o, 
Olho pro...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 69 - An&#225;lise do poema Tabacaria de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>
        <![CDATA[ ]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 17:47:57 +0000</pubDate>
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      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 68 - Autopsicografia, Fernando Pessoa Ort&#243;nimo</title>
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        <![CDATA[Autopsicografia, Fernando Pessoa Ortónimo]]>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 15:07:47 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Autopsicografia, Fernando Pessoa Ort&#243;nimo</itunes:summary>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 69A - Tabacaria, de &#193;lvaro de Campos na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
      <description>
        <![CDATA[            TABACARIA 

      Não sou nada.
      Nunca serei nada.
      Não posso querer ser nada.
      À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

      Janelas do meu quarto,
      Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
      (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
      Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
      Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
      Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
      Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
      Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
      Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

      Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
      Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
      E não tivesse mais irmandade com as coisas
      Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
      A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
      De dentro da minha cabeça,
      E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

      Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
      Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
      À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
      E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

      Falhei em tudo.
      Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
      A aprendizagem que me deram,
      Desci dela pela janela das traseiras da casa.
      Fui até ao campo com grandes propósitos.
      Mas lá encontrei só ervas e árvores,
      E quando havia gente era igual à outra.
      Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

      Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
      Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
      E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
      Gênio? Neste momento
      Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
      E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
      Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
      Não, não creio em mim.
      Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
      Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
      Não, nem em mim...
      Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
      Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
      Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
      Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
      E quem sabe se realizáveis,
      Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
      O mundo é para quem nasce para o conquistar
      E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
      Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
      Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
      Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
      Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
      Ainda que não more nela;
      Serei sempre o que não nasceu para isso;
      Serei sempre só o que tinha qualidades;
      Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
      E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
      E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
      Crer em mim? Não, nem em nada.
      Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
      O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
      E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
      Escravos cardíacos das estrelas,
      Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
      Mas acordamos e ele é opaco,
      Levantamo-nos e ele é alheio,
      Saímos de casa e ele é a terra inteira,
      Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

      (Come chocolates, pequena;
      Come chocolates!
      Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
      Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
      Come, pequena suja, come!
      Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
      Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
      Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

      Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
      A caligrafia rápida destes versos,
      Pórtico partido para o Impossível.
      Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
      Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
      A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
      E fico em casa sem camisa.

      (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
      Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
      Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
      Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
      Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
      Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
      Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
      Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
      Meu coração é um balde despejado.
      Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
      A mim mesmo e não encontro nada.
      Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
      Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
      Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
      Vejo os cães que também existem,
      E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
      E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

      Vivi, estudei, amei e até cri,
      E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
      Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
      E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
      (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
      Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
      E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

      Fiz de mim o que não soube
      E o que podia fazer de mim não o fiz.
      O dominó que vesti era errado.
      Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
      Quando quis tirar a máscara,
      Estava pegada à cara.
      Quando a tirei e me vi ao espelho,
      Já tinha envelhecido.
      Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
      Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
      Como um cão tolerado pela gerência
      Por ser inofensivo
      E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

      Essência musical dos meus versos inúteis,
      Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
      E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
      Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
      Como um tapete em que um bêbado tropeça
      Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

      Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
      Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
      E com o desconforto da alma mal-entendendo.
      Ele morrerá e eu morrerei.
      Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
      A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
      Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
      E a língua em que foram escritos os versos.
      Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
      Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
      Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

      Sempre uma coisa defronte da outra,
      Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
      Sempre o impossível tão estúpido como o real,
      Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
      Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

      Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
      E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
      Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
      E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

      Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
      E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
      Sigo o fumo como uma rota própria,
      E gozo, num momento sensitivo e competente,
      A libertação de todas as especulações
      E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

      Depois deito-me para trás na cadeira
      E continuo fumando.
      Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

      (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
      Talvez fosse feliz.)
      Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
      O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
      Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
      (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
      Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
      Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
      Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

          Álvaro de Campos, 15-1-1928 

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      <comments>https://www.podomatic.com/podcasts/discursodirecto/episodes/2006-04-25T15_54_59-07_00</comments>
      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:54:59 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2019-09-11</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>            TABACARIA 

      N&#227;o sou nada.
      Nunca serei nada.
      N&#227;o posso querer ser nada.
      &#192; parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

      Janelas do meu quarto,
      Do meu quarto de um dos milh&#245;es do mundo que ningu&#233;m sabe quem &#233;
      (E se soubessem quem &#233;, o que saberiam?),
      Dais para o mist&#233;rio de uma rua cruzada constantemente por gente,
      Para uma rua inacess&#237;vel a todos os pensamentos,
      Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
      Com o mist&#233;rio das coisas por baixo das pedras e dos seres,
      Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
      Com o Destino a conduzir a carro&#231;a de tudo pela estrada de nada.

      Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
      Estou hoje l&#250;cido, como se estivesse para morrer,
      E n&#227;o tivesse mais irmandade com as coisas
      Sen&#227;o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
      A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
      De dentro da minha cabe&#231;a,
      E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

      Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
      Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
      &#192; Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
      E &#224; sensa&#231;&#227;o de que tudo &#233; sonho, como coisa real por dentro.

      Falhei em tudo.
      Como n&#227;o fiz prop&#243;sito nenhum, talvez tudo fosse nada.
      A aprendizagem que me deram,
      Desci dela pela janela das traseiras da casa.
      Fui at&#233; ao campo com grandes prop&#243;sitos.
      Mas l&#225; encontrei s&#243; ervas e &#225;rvores,
      E quando havia gente era igual &#224; outra.
      Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

      Que sei eu do que serei, eu que n&#227;o sei o que sou?
      Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
      E h&#225; tantos que pensam ser a mesma coisa que n&#227;o pode haver tantos!
      G&#234;nio? Neste momento
      Cem mil c&#233;rebros se concebem em sonho g&#234;nios como eu,
      E a hist&#243;ria n&#227;o marcar&#225;, quem sabe?, nem um,
      Nem haver&#225; sen&#227;o estrume de tantas conquistas futuras.
      N&#227;o, n&#227;o creio em mim.
      Em todos os manic&#244;mios h&#225; doidos malucos com tantas certezas!
      Eu, que n&#227;o tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
      N&#227;o, nem em mim...
      Em quantas mansardas e n&#227;o-mansardas do mundo
      N&#227;o est&#227;o nesta hora g&#234;nios-para-si-mesmos sonhando?
      Quantas aspira&#231;&#245;es altas e nobres e l&#250;cidas -
      Sim, verdadeiramente altas e nobres e l&#250;cidas -,
      E quem sabe se realiz&#225;veis,
      Nunca ver&#227;o a luz do sol real nem achar&#227;o ouvidos de gente?
      O mundo &#233; para quem nasce para o conquistar
      E n&#227;o para quem sonha que pode conquist&#225;-lo, ainda que tenha raz&#227;o.
      Tenho sonhado mais que o que Napole&#227;o fez.
      Tenho apertado ao peito hipot&#233;tico mais humanidades do que Cristo,
      Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
      Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
      Ainda que n&#227;o more nela;
      Serei sempre o que n&#227;o nasceu para isso;
      Serei sempre s&#243; o que tinha qualidades;
      Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao p&#233; de uma parede sem porta,
      E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
      E ouviu a voz de Deus num po&#231;o tapado.
      Crer em mim? N&#227;o, nem em nada.
      Derrame-me a Natureza sobre a cabe&#231;a ardente
      O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
      E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou n&#227;o venha.
      Escravos card&#237;acos das estrelas,
      Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
      Mas acordamos e ele &#233; opaco,
      Levantamo-nos e ele &#233; alheio,
      Sa&#237;mos de casa e ele &#233; a terra inteira,
      Mais o sistema solar e a Via L&#225;ctea e o Indefinido.

      (Come chocolates, pequena;
      Come chocolates!
      Olha que n&#227;o h&#225; mais metaf&#237;sica no mundo sen&#227;o chocola(continued)</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>            TABACARIA 

      N&#227;o sou nada.
      Nunca serei nada.
      N&#227;o posso querer se...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 67A - An&#225;lise do poema Lisboa Revisited de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Jais Nielsen, Saída, 1918]]>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:38:22 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2019-09-11</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Jais Nielsen, Sa&#237;da, 1918</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Pintura de Jais Nielsen, Sa&#237;da, 1918</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 67 - Lisboa Revisited , de &#193;lvaro de Campos, na voz de Jo&#227;o Grosso </title>
      <description>
        <![CDATA[Lisbon revisited (1926), de Álvaro de Campos

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!... ]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:27:40 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Lisbon revisited (1926), de &#193;lvaro de Campos

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma ang&#250;stia de fome de carne
O que n&#227;o sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necess&#225;rias.
Correram cortinas de todas as hip&#243;teses que eu poderia ver da rua.
N&#227;o h&#225; na travessa achada o n&#250;mero da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
At&#233; os meus ex&#233;rcitos sonhados sofreram derrota.
At&#233; os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
At&#233; a vida s&#243; desejada me farta - at&#233; essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansa&#231;o;
E um t&#233;dio que &#233; at&#233; do t&#233;dio arroja-me &#224; praia.
N&#227;o sei que destino ou futuro compete &#224; minha ang&#250;stia sem leme;
N&#227;o sei que ilhas do sul imposs&#237;vel aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me dar&#227;o ao menos um verso.

N&#227;o, n&#227;o sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu esp&#237;rito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos &#250;ltimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado &#233; uma n&#233;voa natural de l&#225;grimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas long&#237;nquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, &#250;ltimos restos
Da ilus&#227;o final,
Os meus ex&#233;rcitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha inf&#227;ncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma s&#233;rie de contas-entes ligados por um fio-mem&#243;ria,
Uma s&#233;rie de sonhos de mim de algu&#233;m de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o cora&#231;&#227;o mais long&#237;nquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte in&#250;til de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recorda&#231;&#245;es,
Ao ru&#237;do dos ratos e das t&#225;buas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa atrav&#233;s das sombras, e brilha
Um momento a uma luz f&#250;nebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na &#225;gua que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim n&#227;o me revejo!
Partiu-se o espelho m&#225;gico em que me revia id&#234;ntico,
E em cada fragmento fat&#237;dico vejo s&#243; um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!... </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Lisbon revisited (1926), de &#193;lvaro de Campos

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao me...</itunes:subtitle>
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      <title>Epis&#243;dio 66 - An&#225;lise do poema Ode Triunfal de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>
        <![CDATA[Ode Triunfal,  de Álvaro de Campos

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma máquina! 
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes 
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presença demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) 
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente, 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas, 
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, 
Agressões políticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regicídio 
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus 
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais, 
Artigos políticos insinceramente sinceros, 
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes - 
Duas colunas deles passando para a segunda página! 
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados! 
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca! 
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, 
Como eu vos amo de todas as maneiras, 
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto 
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) 
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! 
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! 
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência! 
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, 
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, 
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem! 
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! 
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! 
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! 
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. 
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista 
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, 
Ó coisas todas modernas, 
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima 
Do sistema imediato do Universo! 
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, 
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes - 
Na minha mente turbulenta e encandescida 
Possuo-vos como a uma mulher bela, 
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, 
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! 
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! 
Eh-lá-hô recomposições ministeriais! 
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, 
Orçamentos falsificados! 
(Um orçamento é tão natural como uma árvore 
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo 
Que era quando Platão era realmente Platão 
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, 
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor 
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. 
Atirem-me para dentro das fornalhas! 
Metam-me debaixo dos comboios! 
Espanquem-me a bordo de navios! 
Masoquismo através de maquinismos! 
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, 
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! 
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! 
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue 
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos, 
Roçai-vos por mim até ao espasmo! 
Hilla! hilla! hilla-hô! 
Dai-me gargalhadas em plena cara, 
Ó automóveis apinhados de pândegos e de..., 
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, 
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria! 
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! 
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, 
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, 
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto 
E os gestos que faz quando ninguém pode ver! 
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, 
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome 
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos 
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas 
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, 
Que emprega palavrões como palavras usuais, 
Cujos filhos roubam às portas das mercearias 
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa 
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães 
Que está abaixo de todos os sistemas morais, 
Para quem nenhuma religião foi feita, 
Nenhuma arte criada, 
Nenhuma política destinada para eles! 
Como eu vos amo a todos, porque sois assim, 
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, 
Inatingíveis por todos os progressos, 
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios! 
Eh-lá desabamentos de galerias de minas! 
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! 
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, 
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, 
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim, 
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, 
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto 
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, 
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, 
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, 
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico, 
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes 
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, 
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, 
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia! 
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! 
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! 
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! 
Eia todo o passado dentro do presente! 
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! 
Eia! eia! eia! 
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! 
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. 
Engatam-me em todos os comboios. 
Içam-me em todos os cais. 
Giro dentro das hélices de todos os navios. 
Eia! eia-hô! eia! 
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! 
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! 
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o! 
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

                        Londres, 1914 - Junho. ]]>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:15:59 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ode Triunfal,  de &#193;lvaro de Campos

&#192; dolorosa luz das grandes l&#226;mpadas el&#233;ctricas da f&#225;brica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

&#211; rodas, &#243; engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em f&#250;ria! 
Em f&#250;ria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os l&#225;bios secos, &#243; grandes ru&#237;dos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabe&#231;a de vos querer cantar com um excesso 
De express&#227;o de todas as minhas sensa&#231;&#245;es, 
Com um excesso contempor&#226;neo de v&#243;s, &#243; m&#225;quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes tr&#243;picos humanos de ferro e fogo e for&#231;a -
Canto, e canto o presente, e tamb&#233;m o passado e o futuro, 
Porque o presente &#233; todo o passado e todo o futuro
E h&#225; Plat&#227;o e Virg&#237;lio dentro das m&#225;quinas e das luzes el&#233;ctricas 
S&#243; porque houve outrora e foram humanos Virg&#237;lio e Plat&#227;o,
E peda&#231;os do Alexandre Magno do s&#233;culo talvez cinquenta,
&#193;tomos que h&#227;o-de ir ter febre para o c&#233;rebro do &#201;squilo do s&#233;culo cem,
Andam por estas correias de transmiss&#227;o e por estes &#234;mbolos e por estes volantes, 
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de car&#237;cias ao corpo numa s&#243; car&#237;cia &#224; alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma m&#225;quina! 
Poder ir na vida triunfante como um autom&#243;vel &#250;ltimo-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de &#243;leos e calores e carv&#245;es 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaci&#225;vel!

Fraternidade com todas as din&#226;micas!
Prom&#237;scua f&#250;ria de ser parte-agente
Do rodar f&#233;rreo e cosmopolita
Dos comboios estr&#233;nuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro l&#250;brico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das f&#225;bricas,
E do quase-sil&#234;ncio ciciante e mon&#243;tono das correias de transmiss&#227;o!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres &#250;teis!
Grandes cidades paradas nos caf&#233;s,
Nos caf&#233;s - o&#225;sis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do &#218;til
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas &#224;s docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatl&#226;ntica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hot&#233;is,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Op&#233;ra que entram
Pela minh'alma dentro!

H&#233;-l&#225; as ruas, h&#233;-l&#225; as pra&#231;as, h&#233;-l&#225;-h&#244; la foule!
Tudo o que passa, tudo o que p&#225;ra &#224;s montras!
Comerciantes; v&#225;rios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocr&#225;ticos;
Esqu&#225;lidas figuras d&#250;bias; chefes de fam&#237;lia vagamente felizes 
E paternais at&#233; na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presen&#231;a demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o qu&#234; por dentro?) 
Das burguesinhas, m&#227;e e filha geralmente, 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A gra&#231;a feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma l&#225; dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrup&#231;&#245;es pol&#237;ticas, 
Deliciosos esc&#226;ndalos financeiros e diplom&#225;ticos, 
Agress&#245;es pol&#237;ticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regic&#237;dio 
Que ilumina de Prod&#237;gio e Fanfarra os c&#233;us 
Usuais e l&#250;cidos da Civiliza&#231;&#227;o quotidiana!

Not&#237;cias desmentidas dos jornais, 
Artigos pol&#237;ticos insinceramente si(continued)</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ode Triunfal,  de &#193;lvaro de Campos

&#192; dolorosa luz das grandes l&#226;mpadas el&#233;ctricas da f&#225;brica ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio  65 - Manifesto do Futurismo de Filippo T. Marinetti</title>
      <description>
        <![CDATA[MANIFESTO FUTURISTA (Publicado em 20 de Fevereiro de 1909, no “Le Fígaro”)

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos glorificar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, esforço e liberdade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.

8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade omnipotente.

9. Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda a vileza oportunista e utilitária.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifónicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas lutas eléctricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as fábricas penduradas nas nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta. 

Filippo T. Marinetti]]>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 09:42:36 +0000</pubDate>
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1. N&#243;s queremos cantar o amor ao perigo, o h&#225;bito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a aud&#225;cia, a rebeli&#227;o ser&#227;o elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou at&#233; hoje a imobilidade pensativa, o &#234;xtase, o sono. N&#243;s queremos exaltar o movimento agressivo, a ins&#243;nia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofet&#227;o e o soco.

4. N&#243;s afirmamos que a magnific&#234;ncia do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um autom&#243;vel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de h&#225;lito explosivo... um autom&#243;vel rugidor, que parece correr sobre a metralha, &#233; mais bonito que a Vit&#243;ria de Samotr&#225;cia.

5. N&#243;s queremos glorificar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lan&#231;ada tamb&#233;m numa corrida sobre o circuito da sua &#243;rbita.

6. &#201; preciso que o poeta prodigalize com ardor, esfor&#231;o e liberdade, para aumentar o entusi&#225;stico fervor dos elementos primordiais.

7. N&#227;o h&#225; mais beleza, a n&#227;o ser na luta. Nenhuma obra que n&#227;o tenha um car&#225;cter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as for&#231;as desconhecidas, para obrig&#225;-las a prostrar-se diante do homem.

8. N&#243;s estamos no promont&#243;rio extremo dos s&#233;culos!... Por que haver&#237;amos de olhar para tr&#225;s, se queremos arrombar as misteriosas portas do Imposs&#237;vel? O Tempo e o Espa&#231;o morreram ontem. J&#225; estamos vivendo no absoluto, pois j&#225; criamos a eterna velocidade omnipotente.

9. Queremos glorificar a guerra &#8211; &#250;nica higiene do mundo &#8211;, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libert&#225;rios, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda a vileza oportunista e utilit&#225;ria.

11. Cantaremos as grandes multid&#245;es agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela subleva&#231;&#227;o; cantaremos as mar&#233;s multicores e polif&#243;nicas das revolu&#231;&#245;es nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas lutas el&#233;ctricas; as esta&#231;&#245;es esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as f&#225;bricas penduradas nas nuvens pelos fios contorcidos de suas fuma&#231;as; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os pir&#243;scafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de a&#231;o enleados de carros; e o voo rasante dos avi&#245;es, cuja h&#233;lice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multid&#227;o entusiasta. 

Filippo T. Marinetti</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>MANIFESTO FUTURISTA (Publicado em 20 de Fevereiro de 1909, no &#8220;Le F&#237;garo&#8221;)

1. N&#243;s queremos canta...</itunes:subtitle>
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      <title>Epis&#243;dio 64 - &#193;lvaro de Campos - Poeta sensacionista e por vezes escandaloso</title>
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        <![CDATA[]]>
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      <title>Epis&#243;dio 62 - &#193;lvaro de Campos - o filho indisciplinado da sensa&#231;&#227;o</title>
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        <![CDATA[Texto adapatado do Manual Plural 12º ano, Lisboa Editora]]>
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      <pubDate>Sat, 22 Apr 2006 00:13:02 +0000</pubDate>
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      <itunes:subtitle>Texto adapatado do Manual Plural 12&#186; ano, Lisboa Editora</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 61 - S&#237;ntese das caracter&#237;sticas da poesia de Alberto Caeiro</title>
      <description>
        <![CDATA[Objectivismo 
- apagamento do sujeito
- atitude antilírica
- atenção à "eterna novidade do mundo"
- integração e comunhão com a Natureza
- poeta da natureza
- poeta deambulatório
  
      Sensacionismo 
- poeta das sensações tais como são
- poeta do olhar
- predomínio das sensações visuais e das auditivas
- o "Argonauta das sensações verdadeiras"
 
      Antimetafísico 
- recusa do pensamento ( Pensar é estar doente dos olhos)
- recusa do mistério
- recusa do misticismo

      Painteísmo naturalista 
- tudo é Deus as coisas são divinas 
      Paganismo
 - desvalorização do tempo enquanto categoria conceptual (Não quero incluir o tempo no meu esquema)
Contradição entre a teoria e a prática 

Características estilísticas
      Verso livre, métrica irregular
      Despreocupação a nível fónico
      Pobreza lexical - linguagem simples, familiar
      Adjectivação objectivo
      Pontuação lógica
      Predomínio do presente do indicativo
      Frases simples
      Predomínio da coordenação
      Comparações simples e raras metáforas ]]>
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      <pubDate>Fri, 21 Apr 2006 23:53:38 +0000</pubDate>
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- apagamento do sujeito
- atitude antil&#237;rica
- aten&#231;&#227;o &#224; &quot;eterna novidade do mundo&quot;
- integra&#231;&#227;o e comunh&#227;o com a Natureza
- poeta da natureza
- poeta deambulat&#243;rio
  
      Sensacionismo 
- poeta das sensa&#231;&#245;es tais como s&#227;o
- poeta do olhar
- predom&#237;nio das sensa&#231;&#245;es visuais e das auditivas
- o &quot;Argonauta das sensa&#231;&#245;es verdadeiras&quot;
 
      Antimetaf&#237;sico 
- recusa do pensamento ( Pensar &#233; estar doente dos olhos)
- recusa do mist&#233;rio
- recusa do misticismo

      Painte&#237;smo naturalista 
- tudo &#233; Deus as coisas s&#227;o divinas 
      Paganismo
 - desvaloriza&#231;&#227;o do tempo enquanto categoria conceptual (N&#227;o quero incluir o tempo no meu esquema)
Contradi&#231;&#227;o entre a teoria e a pr&#225;tica 

Caracter&#237;sticas estil&#237;sticas
      Verso livre, m&#233;trica irregular
      Despreocupa&#231;&#227;o a n&#237;vel f&#243;nico
      Pobreza lexical - linguagem simples, familiar
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 60 - An&#225;lise do poema d&#233;cimo &amp;quot; Ol&#225; guardador de rebanhos&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[OLÁ, GUARDADOR DE REBANHOS

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."

Alberto Caeiro
]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 23:26:21 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>OL&#193;, GUARDADOR DE REBANHOS

&quot;Ol&#225;, guardador de rebanhos,
A&#237; &#224; beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?&quot;
&quot;Que &#233; vento, e que passa,
E que j&#225; passou antes,
E que passar&#225; depois.
E a ti o que te diz?&quot;

&quot;Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De mem&#243;rias e de saudades
E de cousas que nunca foram.&quot;

&quot;Nunca ouviste passar o vento.
O vento s&#243; fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira est&#225; em ti.&quot;

Alberto Caeiro
</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>OL&#193;, GUARDADOR DE REBANHOS

&quot;Ol&#225;, guardador de rebanhos,
A&#237; &#224; beira da estrada,
Que te diz o vent...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 59 - An&#225;lise do poema &amp;quot;Sou um guardador de rebanhos&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Publicado por João Carvalho Fernandes às]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 23:18:10 +0000</pubDate>
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Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as m&#227;os e os p&#233;s
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor &#233; v&#234;-la e cheir&#225;-la
E comer um fruto &#233; saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goz&#225;-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Publicado por Jo&#227;o Carvalho Fernandes &#224;s</itunes:summary>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 58 - An&#225;lise do Poema Segundo &amp;quot; O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[      O meu olhar é nítido como um girassol.
      Tenho o costume de andar pelas estradas
      Olhando para a direita e para a esquerda,
      E de vez em quando olhando para trás...
      E o que vejo a cada momento
      É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
      E eu sei dar por isso muito bem...
      Sei ter o pasmo essencial
      Que tem uma criança se, ao nascer,
      Reparasse que nascera deveras...
      Sinto-me nascido a cada momento
      Para a eterna novidade do Mundo...

      Creio no mundo como num malmequer,
      Porque o vejo. Mas não penso nele
      Porque pensar é não compreender...

      O Mundo não se fez para pensarmos nele
      (Pensar é estar doente dos olhos)
      Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

      Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
      Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
      Mas porque a amo, e amo-a por isso
      Porque quem ama nunca sabe o que ama
      Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

      Amar é a eterna inocência,
      E a única inocência não pensar...

          Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914 ]]>
      </description>
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      <itunes:summary>      O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol.
      Tenho o costume de andar pelas estradas
      Olhando para a direita e para a esquerda,
      E de vez em quando olhando para tr&#225;s...
      E o que vejo a cada momento
      &#201; aquilo que nunca antes eu tinha visto,
      E eu sei dar por isso muito bem...
      Sei ter o pasmo essencial
      Que tem uma crian&#231;a se, ao nascer,
      Reparasse que nascera deveras...
      Sinto-me nascido a cada momento
      Para a eterna novidade do Mundo...

      Creio no mundo como num malmequer,
      Porque o vejo. Mas n&#227;o penso nele
      Porque pensar &#233; n&#227;o compreender...

      O Mundo n&#227;o se fez para pensarmos nele
      (Pensar &#233; estar doente dos olhos)
      Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

      Eu n&#227;o tenho filosofia; tenho sentidos...
      Se falo na Natureza n&#227;o &#233; porque saiba o que ela &#233;,
      Mas porque a amo, e amo-a por isso
      Porque quem ama nunca sabe o que ama
      Nem sabe por que ama, nem o que &#233; amar...

      Amar &#233; a eterna inoc&#234;ncia,
      E a &#250;nica inoc&#234;ncia n&#227;o pensar...

          Alberto Caeiro, em &quot;O Guardador de Rebanhos&quot;, 8-3-1914 </itunes:summary>
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      ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 57 - Poema Segundo &amp;quot;O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol&amp;quot; (Ser em Portugu&#234;s 12&#186; ano)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 22:57:40 +0000</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 56 - An&#225;lise do Poema Primeiro &amp;quot; Eu nunca guardei rebanhos&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[EU NUNCA GUARDEI REBANHOS - ALBERTO CAEIRO

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 22:45:38 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>EU NUNCA GUARDEI REBANHOS - ALBERTO CAEIRO

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas &#233; como se os guardasse.
Minha alma &#233; como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela m&#227;o das Esta&#231;&#245;es
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um p&#244;r de sol
Para a nossa imagina&#231;&#227;o,
Quando esfria no fundo da plan&#237;cie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza &#233; sossego
Porque &#233; natural e justa
E &#233; o que deve estar na alma
Quando j&#225; pensa que existe
E as m&#227;os colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ru&#237;do de chocalhos
Para al&#233;m da curva da estrada,
Os meus pensamentos s&#227;o contentes.
S&#243; tenho pena de saber que eles s&#227;o contentes,
Porque, se o n&#227;o soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar &#224; chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

N&#227;o tenho ambi&#231;&#245;es nem desejos
Ser poeta n&#227;o &#233; uma ambi&#231;&#227;o minha
&#201; a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo &#224;s vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

&#201; s&#243; porque sinto o que escrevo ao p&#244;r do sol,
Ou quando uma nuvem passa a m&#227;o por cima da luz
E corre um sil&#234;ncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que est&#225; no meu pensamento,
Sinto um cajado nas m&#227;os
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas id&#233;ias,
Ou olhando para as minhas id&#233;ias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem n&#227;o compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Sa&#250;do todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chap&#233;u largo
Quando me v&#234;em &#224; minha porta
Mal a dilig&#234;ncia levanta no cimo do outeiro.
Sa&#250;do-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva &#233; precisa,
E que as suas casas tenham
Ao p&#233; duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a &#225;rvore antiga
&#192; sombra da qual quando crian&#231;as
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>EU NUNCA GUARDEI REBANHOS - ALBERTO CAEIRO

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas &#233; como se os guardasse...</itunes:subtitle>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 55 - Poema Primeiro &amp;quot;Eu nunca guardei rebanhos&amp;quot; na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
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        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 22:29:09 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 54 - Alberto Caeiro - o Mestre tranquilo da sensa&#231;&#227;o</title>
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        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 10:11:18 +0000</pubDate>
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      <title>Epis&#243;dio 53 - A G&#233;nese dos heter&#243;nimos - Carta a Adolfo Casais Monteiro</title>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:56:10 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 52 - O fen&#243;meno heteron&#237;mico - Ao espelho (Um texto de Jos&#233; Saramago)</title>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:39:41 +0000</pubDate>
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      <title>Epis&#243;dio 51 - S&#237;ntese das linhas tem&#225;ticas de Fernando Pessoa Ort&#243;nimo</title>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:28:52 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 50 - Ecos da inf&#226;ncia - An&#225;lise dos poemas &amp;quot;Eros e Psique&amp;quot; e &amp;quot; 
Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[ 1º poema

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem. 

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém. 

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia. 

Fernando Pessoa 

2º poema

Do seu longínquo reino cor-de-rosa

Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e , cobrindo
Seu  corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia  -
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.]]>
      </description>
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      <pubDate>Thu, 30 Mar 2006 20:21:40 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary> 1&#186; poema

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem s&#243; despertaria
Um Infante, que viria
De al&#233;m do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, j&#225; libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que &#224; Princesa vem. 

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esfor&#231;ado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela &#233; ignorado,
Ela para ele &#233; ningu&#233;m. 

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera,
&#192; cabe&#231;a, em maresia,
Ergue a m&#227;o, e encontra hera,
E v&#234; que ele mesmo era
A Princesa que dormia. 

Fernando Pessoa 

2&#186; poema

Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa

Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crian&#231;as vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e , cobrindo
Seu  corpo todo, a tornam misteriosa.

&#192; crian&#231;a que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a m&#227;o de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia  -
E sonhos lindos, como ningu&#233;m teve,
A sentir a crian&#231;a principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que v&#234;m, v&#227;o e tornam,
E palha&#231;os que tocam em rabecas...

E h&#225; figuras pequenas e engra&#231;adas
Que brincam e d&#227;o saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
P&#233; ante p&#233;, volta a melhor das fadas
Ao seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle> 1&#186; poema

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem s&#243; despertaria
U...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#225;odiao 49 - a nostalgia da inf&#226;ncia - An&#225;lise da Parte VI do poema &amp;quot;Chuva Obl&#237;qua&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[ Parte VI - Chuva Oblíqua

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela 
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, 
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... ]]>
      </description>
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      <pubDate>Thu, 30 Mar 2006 20:07:32 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary> Parte VI - Chuva Obl&#237;qua

O maestro sacode a batuta,
E l&#226;nguida e triste a m&#250;sica rompe...

Lembra-me a minha inf&#226;ncia, aquele dia
Em que eu brincava ao p&#233; de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum c&#227;o verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a m&#250;sica, e eis na minha inf&#226;ncia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um c&#227;o verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro &#233; o meu quintal, a minha inf&#226;ncia
Est&#225; em todos os lugares, e a bola vem a tocar m&#250;sica,
Uma m&#250;sica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de c&#227;o tornando-se jockey amarelo...
(T&#227;o r&#225;pida gira a bola entre mim e os m&#250;sicos...)

Atiro-a de encontro &#224; minha inf&#226;ncia e ela 
Atravessa o teatro todo que est&#225; aos meus p&#233;s
A brincar com um jockey amarelo e um c&#227;o verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a m&#250;sica atira com bolas
&#192; minha inf&#226;ncia... E o muro do quintal &#233; feito de gestos
De batuta e rota&#231;&#245;es confusas de c&#227;es verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro &#233; um muro branco de m&#250;sica
Por onde um c&#227;o verde corre atr&#225;s de minha saudade
Da minha inf&#226;ncia, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde h&#225; arvores e entre os ramos ao p&#233; da copa
Com orquestras a tocar m&#250;sica,
Para onde h&#225; filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as mem&#243;rias da minha inf&#226;ncia...

E a m&#250;sica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabe&#231;a, 
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... </itunes:summary>
      <itunes:subtitle> Parte VI - Chuva Obl&#237;qua

O maestro sacode a batuta,
E l&#226;nguida e triste a m&#250;sica rompe...

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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 49 - A nostalgia da inf&#226;ncia - An&#225;lise dos poemas: &amp;quot;Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?&amp;quot;/ &amp;quot;Pobre velha m&#250;sica!&amp;quot;/ &amp;quot;Quando as crian&#231;as brincam&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[1º Poema
Porque esqueci quem fui quando criança?

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembra quem então era eu?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?
                             Fernando Pessoa, Poesias Inéditas, 1932
2º Poema

Pobre velha música!

Pobre velha música!
 Não sei por que agrado, 
 Enche-se de lágrimas
 Meu olhar parado.

 Recordo outro ouvir-te,
 Não sei se te ouvi
 Nessa minha infância
 Que me lembra em ti.

 Com que ânsia tão raiva
 Quero aquele outrora!
 E eu era feliz? Não sei:
 Fui-o outrora agora. 

3º Poema

Quando as crianças brincam

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa
Cancioneiro, 1933]]>
      </description>
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      <pubDate>Thu, 30 Mar 2006 19:28:08 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>1&#186; Poema
Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?

Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?
Porque deslembra quem ent&#227;o era eu?
Porque n&#227;o h&#225; nenhuma semelhan&#231;a
Entre quem sou e fui?
A crian&#231;a que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que &#233; que flui?
Houve em mim v&#225;rias almas sucessivas
Ou sou um s&#243; inconsciente ser?
                             Fernando Pessoa, Poesias In&#233;ditas, 1932
2&#186; Poema

Pobre velha m&#250;sica!

Pobre velha m&#250;sica!
 N&#227;o sei por que agrado, 
 Enche-se de l&#225;grimas
 Meu olhar parado.

 Recordo outro ouvir-te,
 N&#227;o sei se te ouvi
 Nessa minha inf&#226;ncia
 Que me lembra em ti.

 Com que &#226;nsia t&#227;o raiva
 Quero aquele outrora!
 E eu era feliz? N&#227;o sei:
 Fui-o outrora agora. 

3&#186; Poema

Quando as crian&#231;as brincam

Quando as crian&#231;as brincam
E eu as oi&#231;o brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Come&#231;a a se alegrar.

E toda aquela inf&#226;ncia
Que n&#227;o tive me vem,
Numa onda de alegria
Que n&#227;o foi de ningu&#233;m.

Se quem fui &#233; enigma,
E quem serei vis&#227;o,
Quem sou ao menos sinta
Isto no cora&#231;&#227;o.

Fernando Pessoa
Cancioneiro, 1933</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>1&#186; Poema
Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?

Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?
Porque ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 48 - saltar o muro - sonhar- An&#225;lise do poema &amp;quot;N&#227;o sei, ama, onde era&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Cruzeiro Seixas

Não sei, ama, onde era.
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer coisa fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama                        
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 27 Mar 2006 22:32:53 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Cruzeiro Seixas

N&#227;o sei, ama, onde era.
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul t&#227;o azul tinha
Ali o azul do c&#233;u!
Se eu n&#227;o era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que n&#227;o me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos s&#227;o dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer coisa fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto &#233; morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos s&#227;o
Esse dia, e jardim e a dama                        
Que eu fui nessa solid&#227;o...

Fernando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Pintura de Cruzeiro Seixas

N&#227;o sei, ama, onde era.
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 47 - saltar o muro - sonhar- An&#225;lise do poema &amp;quot;Contemplo o que n&#227;o vejo&amp;quot; (na voz de Jo&#227;o Grosso)</title>
      <description>
        <![CDATA[Contemplo o que não vejo

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou. ]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 27 Mar 2006 22:06:37 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Contemplo o que n&#227;o vejo

Contemplo o que n&#227;o vejo.
&#201; tarde, &#233; quase escuro.
E quanto em mim desejo
Est&#225; parado ante o muro.

Por cima o c&#233;u &#233; grande;
Sinto &#225;rvores al&#233;m;
Embora o vento abrande,
H&#225; folhas em vaiv&#233;m.

Tudo &#233; do outro lado,
No que h&#225; e no que penso.
Nem h&#225; ramo agitado
Que o c&#233;u n&#227;o seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
N&#227;o sinto, n&#227;o sou triste.
Mas triste &#233; o que estou. </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Contemplo o que n&#227;o vejo

Contemplo o que n&#227;o vejo.
&#201; tarde, &#233; quase escuro.
E quanto em mim dese...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 46 - sonhar/viver - An&#225;lise do poema &amp;quot;Contemplo o lago mudo&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Magritte

Contemplo o lago mudo 
Que uma brisa estremece. 
Não sei se penso em tudo 
Ou se tudo me esquece.  

O lago nada me diz, 
Não sinto a brisa mexê-lo 
Não sei se sou feliz 
Nem se desejo sê-lo.  

Trêmulos vincos risonhos 
Na água adormecida. 
Por que fiz eu dos sonhos 
A minha única vida?   ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 26 Mar 2006 22:38:06 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte

Contemplo o lago mudo 
Que uma brisa estremece. 
N&#227;o sei se penso em tudo 
Ou se tudo me esquece.  

O lago nada me diz, 
N&#227;o sinto a brisa mex&#234;-lo 
N&#227;o sei se sou feliz 
Nem se desejo s&#234;-lo.  

Tr&#234;mulos vincos risonhos 
Na &#225;gua adormecida. 
Por que fiz eu dos sonhos 
A minha &#250;nica vida?   </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Pintura de Magritte

Contemplo o lago mudo 
Que uma brisa estremece. 
N&#227;o sei se penso em tudo 
O...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 45 - sonhar/viver - An&#225;lise do poema &amp;quot;N&#227;o sei se &#233; sonho se realidade&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Magritte

Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sol se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser.
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 26 Mar 2006 22:28:37 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte

N&#227;o sei se &#233; sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sol se olvida.
&#201; a que ansiamos. Ali, ali
A vida &#233; jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
&#193;leas long&#237;nquas sem poder ser.
Sombra ou sossego d&#234;em aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, n&#243;s? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas j&#225; sonhada se desvirtua,
S&#243; de pens&#225;-la cansou pensar,
Sob os palmares, &#224; luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra tamb&#233;m, tamb&#233;m
O mal n&#227;o cessa, n&#227;o dura o bem.

N&#227;o &#233; com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou n&#227;o,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no cora&#231;&#227;o.
&#201; em n&#243;s que &#233; tudo. &#201; ali, ali,
Que a vida &#233; jovem e o amor sorri.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Pintura de Magritte

N&#227;o sei se &#233; sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela ter...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 44 - o espelho dos pensamentos - An&#225;lise do poema &amp;quot;Tudo que fa&#231;o ou medito&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúdica e rica,
E eu sou um mar de sargaço —

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 26 Mar 2006 22:02:17 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Tudo que fa&#231;o ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada &#233; verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que fa&#231;o!
Minha alma &#233; l&#250;dica e rica,
E eu sou um mar de sarga&#231;o &#8212;

Um mar onde b&#243;iam lentos
Fragmentos de um mar de al&#233;m...
Vontades ou pensamentos?
N&#227;o o sei e sei-o bem.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Tudo que fa&#231;o ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada &#233; verdade...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 43 - O espelho dos pensamentos - An&#225;lise do poema &amp;quot; B&#243;iam leves desatentos&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Magritte


Bóiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa,
como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas,
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Fernando Pessoa]]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 25 Mar 2006 00:24:38 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte


B&#243;iam leves, desatentos
Meus pensamentos de m&#225;goa,
como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das &#225;guas.

B&#243;iam como folhas mortas,
&#192; tona de &#225;guas paradas.
S&#227;o coisas vestindo nadas,
P&#243;s remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem rem&#233;dio,
vest&#237;gio do que n&#227;o foi,
Leve m&#225;goa, breve t&#233;dio,
N&#227;o sei se p&#225;ra, se flui;
N&#227;o sei se existe ou se d&#243;i.

Fernando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Pintura de Magritte


B&#243;iam leves, desatentos
Meus pensamentos de m&#225;goa,
como no sono dos ventos,...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 42 - A dor de pensar - a solid&#227;o de ser - An&#225;lise do poema &amp;quot;Cansa sentir quando se pensa&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Cansa Sentir Quando se Pensa

 Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa 
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter  um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!) 

Ferando Pessoa]]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 25 Mar 2006 00:04:53 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Cansa Sentir Quando se Pensa

 Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
H&#225; uma solid&#227;o imensa 
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que n&#227;o sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E &#233; uma noite a ter  um fim
Um negro astral sil&#234;ncio surdo
E n&#227;o poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, sil&#234;ncio mudo -
Ah, nada &#233; isto, nada &#233; assim!) 

Ferando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Cansa Sentir Quando se Pensa

 Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
H&#225; uma sol...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 41 - A dor de pensar- a solid&#227;o de ser - An&#225;lise do poema &amp;quot;N&#227;o sei ser triste a valer&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Pintura de Magritte

Não sei ser triste a valer

NÃO SEI SER triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma 
E a mentira da emoção,
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão 
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é ter consciência.

Depois, a nós como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E ambos nos vêm calcar.

'Stá bem, enquanto não vêm
Vamos florir ou pensar.]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 24 Mar 2006 23:48:00 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
      <link>https://www.podomatic.com/podcasts/discursodirecto/episodes/2006-03-24T15_48_00-08_00</link>
      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte

N&#227;o sei ser triste a valer

N&#195;O SEI SER triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: n&#227;o sei ser.
Ser&#227;o as almas sinceras
Assim tamb&#233;m, sem saber?

Ah, ante a fic&#231;&#227;o da alma 
E a mentira da emo&#231;&#227;o,
Com que prazer me d&#225; calma
Ver uma flor sem raz&#227;o 
Florir sem ter cora&#231;&#227;o!

Mas enfim n&#227;o h&#225; diferen&#231;a.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela &#233; florescer
Em n&#243;s &#233; ter consci&#234;ncia.

Depois, a n&#243;s como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E ambos nos v&#234;m calcar.

'St&#225; bem, enquanto n&#227;o v&#234;m
Vamos florir ou pensar.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Pintura de Magritte

N&#227;o sei ser triste a valer

N&#195;O SEI SER triste a valer
Nem ser alegre devera...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 40 - N&#227;o sei ser triste a valer (Voz de Lu&#237;s Gaspar)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 24 Mar 2006 23:34:19 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <itunes:subtitle></itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 39 - A dor de pensar &amp;quot;Ela canta pobre ceifeira&amp;quot; / &amp;quot; Gato que brincas na rua&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão !
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso ! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção ! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve !
Entrai por mim dentro !  Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !
-----------------------------------------------------------------------------------
Gato que brincas na rua 

Gato que brincas na rua 
Como se fosse na cama, 
Invejo a sorte que é tua 
Porque nem sorte se chama. 

Bom servo das leis fatais 
Que regem pedras e gentes, 
Que tens instintos gerais 
E sentes só o que sentes. 

És feliz porque és assim, 
Todo o nada que és é teu. 
Eu vejo-me e estou sem mim, 
Conheço-me e não sou eu. 

Ferando Pessoa, Cancioneiro]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 24 Mar 2006 00:08:41 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e an&#244;nima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E h&#225; curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz h&#225; o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais raz&#245;es pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem raz&#227;o !
O que em mim sente 'st&#225; pensando.
Derrama no meu cora&#231;&#227;o a tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsci&#234;ncia,
E a consci&#234;ncia disso ! &#211; c&#233;u !
&#211; campo ! &#211; can&#231;&#227;o ! A ci&#234;ncia

Pesa tanto e a vida &#233; t&#227;o breve !
Entrai por mim dentro !  Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !
-----------------------------------------------------------------------------------
Gato que brincas na rua 

Gato que brincas na rua 
Como se fosse na cama, 
Invejo a sorte que &#233; tua 
Porque nem sorte se chama. 

Bom servo das leis fatais 
Que regem pedras e gentes, 
Que tens instintos gerais 
E sentes s&#243; o que sentes. 

&#201;s feliz porque &#233;s assim, 
Todo o nada que &#233;s &#233; teu. 
Eu vejo-me e estou sem mim, 
Conhe&#231;o-me e n&#227;o sou eu. 

Ferando Pessoa, Cancioneiro</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 38 - O fingimento po&#233;tico &amp;quot; Isto&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.  Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir?  Sinta quem lê! 

Fernando Pessoa
Cancioneiro]]>
      </description>
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      <pubDate>Thu, 23 Mar 2006 23:43:33 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.  N&#227;o.
Eu simplesmente sinto
Com a imagina&#231;&#227;o.
N&#227;o uso o cora&#231;&#227;o.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
&#201; como que um terra&#231;o
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa &#233; que &#233; linda.

Por isso escrevo em meio
Do que n&#227;o est&#225; ao p&#233;,
Livre do meu enleio,
S&#233;rio do que n&#227;o &#233;.
Sentir?  Sinta quem l&#234;! 

Fernando Pessoa
Cancioneiro</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.  N&#227;o.
Eu simplesmente sinto
Com a imagina&#231;&#227;o.
N&#227;...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 37 - O fingimento po&#233;tico &amp;quot; Autopsicografia&amp;quot;</title>
      <description>
        <![CDATA[Autopsicografia

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.

Fernando Pessoa
]]>
      </description>
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      <pubDate>Thu, 23 Mar 2006 17:38:54 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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    O poeta &#233; um fingidor.
    Finge t&#227;o completamente
    Que chega a fingir que &#233; dor
    A dor que deveras sente.

    E os que l&#234;em o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    N&#227;o as duas que ele teve,
    Mas s&#243; a que eles n&#227;o t&#234;m.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a raz&#227;o,
    Esse comboio de corda
    Que se chama cora&#231;&#227;o.

Fernando Pessoa
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      <itunes:subtitle>Autopsicografia

    O poeta &#233; um fingidor.
    Finge t&#227;o completamente
    Que chega a fingir qu...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 36 - O Eu fragmentado &quot;N&#227;o sei quantas almas tenho&quot; </title>
      <description>
        <![CDATA[Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu. 

Fernando Pessoa, Ortónimo]]>
      </description>
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      <pubDate>Wed, 22 Mar 2006 21:58:31 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2019-10-22</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>N&#227;o sei quantas almas tenho

N&#227;o sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, s&#243; tenho alma.
Quem tem  alma n&#227;o tem calma.
Quem v&#234; &#233; s&#243; o que v&#234;,
Quem sente n&#227;o &#233; quem &#233;,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e n&#227;o eu.
Cada meu sonho ou desejo
&#201; do que nasce e n&#227;o meu.
Sou minha pr&#243;pria paisagem;
Assisto &#224; minha passagem,
Diverso, m&#243;bil e s&#243;,
N&#227;o sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como p&#225;ginas, meu ser.
O que sogue n&#227;o prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto &#224; margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  &quot;Fui  eu ?&quot;
Deus sabe, porque o escreveu. 

Fernando Pessoa, Ort&#243;nimo</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>N&#227;o sei quantas almas tenho

N&#227;o sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente m...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Espis&#243;diao 36 - O Eu fragmentado &amp;quot;Viajar! Perder Pa&#237;ses!</title>
      <description>
        <![CDATA[Viajar! Perder países!

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente! 

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.]]>
      </description>
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      <pubDate>Wed, 22 Mar 2006 18:41:17 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <itunes:summary>Viajar! Perder pa&#237;ses!

Viajar! Perder pa&#237;ses!
Ser outro constantemente,
Por a alma n&#227;o ter ra&#237;zes
De viver de ver somente! 

N&#227;o pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A aus&#234;ncia de ter um fim,
E a &#226;nsia de o conseguir! 

Viajar assim &#233; viagem.
Mas fa&#231;o-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto &#233; s&#243; terra e c&#233;u.</itunes:summary>
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Viajar! Perder pa&#237;ses!
Ser outro constantemente,
Por a alma n&#227;o ter ra&#237;ze...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 35 - O Eu fragmentado &amp;quot; Sou um evadido&amp;quot; </title>
      <description>
        <![CDATA[Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Pessoa, Ortónimo]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 21 Mar 2006 10:29:02 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que n&#227;o se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxal&#225; que ela
Nunca me encontre.

Ser um &#233; cadeia,
Ser eu &#233; n&#227;o ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Pessoa, Ort&#243;nimo</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 34 - Recursos estil&#237;sticos (Figuras de Estilo)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Tue, 21 Mar 2006 10:14:03 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Episodio 33 - Pessoa Ort&#243;nimo -  O enigma do Ser</title>
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        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 20 Mar 2006 18:12:20 +0000</pubDate>
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      <title>Epis&#243;dio 32 - Os Lus&#237;adas e a Mensagem</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Mon, 20 Mar 2006 00:14:27 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 31 - S&#237;ntese das ideias da obra &amp;quot;Mensagem&amp;quot; de Fernando Pessoa</title>
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      <pubDate>Sun, 19 Mar 2006 23:59:11 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 30 - An&#225;lise do poema Nevoeiro</title>
      <description>
        <![CDATA[ Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.


Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


É a Hora!

Mensagem, Fernando Pessoa
]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 19 Mar 2006 02:02:37 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary> Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor ba&#231;o da terra
que &#233; Portugal a entristecer &#8211;
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-f&#225;tuo encerra.


Ningu&#233;m sabe que coisa quere.
Ningu&#233;m conhece que alma tem,
nem o que &#233; mal nem o que &#233; bem.
(Que &#226;ncia distante perto chora?)
Tudo &#233; incerto e derradeiro.
Tudo &#233; disperso, nada &#233; inteiro.
&#211; Portugal, hoje &#233;s nevoeiro...


&#201; a Hora!

Mensagem, Fernando Pessoa
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      <itunes:subtitle> Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor ba&#231;o da terra...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#225;dio 30 - An&#225;lise do poema Screvo meu livro &#224; beira-m&#225;goa</title>
      <description>
        <![CDATA[Screvo meu livro...

'Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Mensagem, Fernando Pessoa]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 19 Mar 2006 01:43:16 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Screvo meu livro...

'Screvo meu livro &#224; beira m&#225;goa.
Meu cora&#231;&#227;o n&#227;o tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de &#225;gua.
S&#243; tu, Senhor, me d&#225;s viver.

S&#243; te sentir e te pensar
Meus dias v&#225;cuos enche e doura.
Mas quando querer&#225;s voltar?
Quando &#233; o Rei? Quando &#233; a Hora?

Quando vir&#225;s a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos C&#233;us?

Quando vir&#225;s, &#243; Encoberto,
Sonho das eras portugu&#234;s,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando querer&#225;s voltando,
Fazer minha esperan&#231;a amor?
Da n&#233;voa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Screvo meu livro...

'Screvo meu livro &#224; beira m&#225;goa.
Meu cora&#231;&#227;o n&#227;o tem que ter.
Tenho meus olh...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 29 - Sebastianismo e Quinto Imp&#233;rio</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 23:59:32 +0000</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 28 - An&#225;lise do Poema O Quinto Imp&#233;rio (na voz de Jo&#227;o Grosso)</title>
      <description>
        <![CDATA[O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

  Mensagem, Fernando Pessoa]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 23:37:05 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>O Quinto Imp&#233;rio

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Fa&#231;a at&#233; mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem &#233; feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a li&#231;&#227;o da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente &#233; ser homem.
Que as for&#231;as cegas se domem
Pela vis&#227;o que a alma tem!

  Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>O Quinto Imp&#233;rio

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no ergue...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 27 - An&#225;lise do poema Prece</title>
      <description>
        <![CDATA[Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silencio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguel-a ainda.

Dá o sopro, a aragem- ou desgraça ou ancia-
Com que a chamma do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distancia-
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 

Mensagem, Fernando Pessoa]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 23:22:39 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Prece

Senhor, a noite veio e a alma &#233; vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silencio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chamma, que a vida em n&#243;s creou,
Se ainda h&#225; vida ainda n&#227;o &#233; finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A m&#227;o do vento pode erguel-a ainda.

D&#225; o sopro, a aragem- ou desgra&#231;a ou ancia-
Com que a chamma do esfor&#231;o se remo&#231;a,
E outra vez conquistemos a Distancia-
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 

Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Prece

Senhor, a noite veio e a alma &#233; vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 26 - An&#225;lise do poema O Mostrengo </title>
      <description>
        <![CDATA[O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: « Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»  


Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Mensagem, Fernando Pessoa





]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 00:55:22 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>O MOSTRENGO

O mostrengo que est&#225; no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
&#192; roda da nau voou tr&#234;s vezes,
Voou tr&#234;s vezes a chiar,
E disse: &#171; Quem &#233; que ousou entrar
Nas minhas cavernas que n&#227;o desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?&#187;
E o homem do leme disse, tremendo:
&#171;El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;


&#171;De quem s&#227;o as velas onde me ro&#231;o?
De quem as quilhas que vejo e ou&#231;o?&#187;
Disse o mostrengo, e rodou tr&#234;s vezes,
Tr&#234;s vezes rodou imundo e grosso,
&#171;Quem vem poder o que s&#243; eu posso,
Que moro onde nunca ningu&#233;m me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?&#187;
E o homem do leme tremeu, e disse:
&#171;El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;  


Tr&#234;s vezes do leme as m&#227;os ergueu,
Tr&#234;s vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer tr&#234;s vezes:
&#171;Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que &#233; teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;

Mensagem, Fernando Pessoa





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      <itunes:subtitle>O MOSTRENGO

O mostrengo que est&#225; no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
&#192; roda da nau ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 25 - An&#225;lise do poema Ascens&#227;o de Vasco da Gama</title>
      <description>
        <![CDATA[Ascensão de Vasco da Gama

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
e pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vae, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.


Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cahe-lhe, e em extase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abysmo à alma do Argonauta. 

Mensagem, Fernando Pessoa]]>
      </description>
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      <comments>https://www.podomatic.com/podcasts/discursodirecto/episodes/2006-03-15T13_59_17-08_00</comments>
      <pubDate>Wed, 15 Mar 2006 21:59:17 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ascens&#227;o de Vasco da Gama

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o &#243;dio da sua guerra
e pasmam. Pelo valle onde se ascende aos c&#233;us
Surge um sil&#234;ncio, e vae, da n&#233;voa ondeando os v&#233;us,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clar&#245;es.


Em baixo, onde a terra &#233;, o pastor gela, e a flauta
Cahe-lhe, e em extase v&#234;, &#224; luz de mil trov&#245;es,
O c&#233;u abrir o abysmo &#224; alma do Argonauta. 

Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ascens&#227;o de Vasco da Gama

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o &#243;d...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 24 - An&#225;lise do poema D. Dinis</title>
      <description>
        <![CDATA[D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro comsigo:
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
busca o oceano por achar;
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra anciando pelo mar. ]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 14 Mar 2006 23:11:06 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um sil&#234;ncio m&#250;rmuro comsigo:
&#233; o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Imp&#233;rio, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
busca o oceano por achar;
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
&#233; o som presente desse mar futuro,
&#233; a voz da terra anciando pelo mar. </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um sil&#234;ncio...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 23 - A Multiplicidade de Fernando Pessoa</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 14 Mar 2006 22:54:33 +0000</pubDate>
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      <itunes:subtitle></itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio - 22 - Um olhar sobre a obra  Mensagem</title>
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        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Tue, 14 Mar 2006 18:42:20 +0000</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 21 - An&#225;lise do poema D. Afonso Henriques </title>
      <description>
        <![CDATA[D. Afonso Henriques

Pae, foste cavalleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!


Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como benção! ]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 13 Mar 2006 23:37:14 +0000</pubDate>
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      <itunes:explicit>false</itunes:explicit>
      <itunes:summary>D. Afonso Henriques

Pae, foste cavalleiro.
Hoje a vig&#237;lia &#233; nossa.
D&#225;-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira for&#231;a!


D&#225;, contra a hora em que, errada,
Novos infi&#233;is ven&#231;am,
A b&#234;n&#231;&#227;o como espada,
A espada como ben&#231;&#227;o! </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>D. Afonso Henriques

Pae, foste cavalleiro.
Hoje a vig&#237;lia &#233; nossa.
D&#225;-nos o exemplo inteiro
E a ...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 20 - An&#225;lise do poema Ulisses (voz de Vitor Oliveira)</title>
      <description>
        <![CDATA[Ulisses 

O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.


Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.


Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 13 Mar 2006 23:18:13 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ulisses 

O mytho &#233; o nada que &#233; tudo.
O mesmo sol que abre os c&#233;us
&#201; um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.


Este, que aqui aportou,
Foi por n&#227;o ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por n&#227;o ter vindo foi vindo
E nos creou.


Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Ulisses 

O mytho &#233; o nada que &#233; tudo.
O mesmo sol que abre os c&#233;us
&#201; um mytho brilhante e mudo -...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 19 - An&#225;lise do poema O dos Castelos (1&#170; Parte - Bras&#227;o)</title>
      <description>
        <![CDATA[O dos Castelos - Brasão

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquelle diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.]]>
      </description>
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      <pubDate>Mon, 13 Mar 2006 22:54:19 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>O dos Castelos - Bras&#227;o

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe rom&#226;nticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo &#233; recuado;
O direito &#233; em &#226;ngulo disposto.
Aquelle diz It&#225;lia onde &#233; pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A m&#227;o sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita &#233; Portugal.</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>O dos Castelos - Bras&#227;o

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 17 - An&#225;lise do poema D. Fernando Infante de Portugal - Mensagem</title>
      <description>
        <![CDATA[D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua sancta guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.


Poz-me as mãos sobre os hombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.


E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma. ]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 21:58:49 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua sancta guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra&#231;a,
&#192;s horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.


Poz-me as m&#227;os sobre os hombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Al&#233;m, que me consome,
E este querer-grandeza s&#227;o Seu nome
Dentro em mim a vibrar.


E eu vou, e a luz do gl&#225;dio erguido d&#225;
Em minha face calma.
Cheio de Deus, n&#227;o temo o que vir&#225;,
Pois venha o que vier, nunca ser&#225;
Maior do que a minha alma. </itunes:summary>
      <itunes:subtitle>D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua sancta guerra.
Sag...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 16 - Poema de &#193;lvaro de Campos -Esta Velha Ang&#250;stia ( na voz de Vitor Oliveira - Das Palavras aos Actos)</title>
      <description>
        <![CDATA[Álvaro de Campos

Esta Velha

   Esta velha angústia, 
   Esta angústia que trago há séculos em mim, 
   Transbordou da vasilha, 
   Em lágrimas, em grandes imaginações, 
   Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, 
   Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. 

   Transbordou. 
   Mal sei como conduzir-me na vida 
   Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! 
   Se ao menos endoidecesse deveras! 
   Mas não: é este estar entre, 
   Este quase, 
   Este poder ser que..., 
   Isto. 

   Um internado num manicômio é, ao menos, alguém, 
   Eu sou um internado num manicômio sem manicômio. 
   Estou doido a frio, 
   Estou lúcido e louco, 
   Estou alheio a tudo e igual a todos: 
   Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura 
   Porque não são sonhos. 
   Estou assim... 

   Pobre velha casa da minha infância perdida! 
   Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! 
   Que é do teu menino?  Está maluco. 
   Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? 
   Está maluco. 
   Quem de quem fui?  Está maluco.  Hoje é quem eu sou. 

   Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! 
   Por exemplo, por aquele manipanso 
   Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. 
   Era feiíssimo, era grotesco, 
   Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê. 
   Se eu pudesse crer num manipanso qualquer — 
   Júpiter, Jeová, a Humanidade — 
   Qualquer serviria, 
   Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? 

   Estala, coração de vidro pintado!]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 11:23:54 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>&#193;lvaro de Campos

Esta Velha

   Esta velha ang&#250;stia, 
   Esta ang&#250;stia que trago h&#225; s&#233;culos em mim, 
   Transbordou da vasilha, 
   Em l&#225;grimas, em grandes imagina&#231;&#245;es, 
   Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, 
   Em grandes emo&#231;&#245;es s&#250;bitas sem sentido nenhum. 

   Transbordou. 
   Mal sei como conduzir-me na vida 
   Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! 
   Se ao menos endoidecesse deveras! 
   Mas n&#227;o: &#233; este estar entre, 
   Este quase, 
   Este poder ser que..., 
   Isto. 

   Um internado num manic&#244;mio &#233;, ao menos, algu&#233;m, 
   Eu sou um internado num manic&#244;mio sem manic&#244;mio. 
   Estou doido a frio, 
   Estou l&#250;cido e louco, 
   Estou alheio a tudo e igual a todos: 
   Estou dormindo desperto com sonhos que s&#227;o loucura 
   Porque n&#227;o s&#227;o sonhos. 
   Estou assim... 

   Pobre velha casa da minha inf&#226;ncia perdida! 
   Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! 
   Que &#233; do teu menino?  Est&#225; maluco. 
   Que &#233; de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? 
   Est&#225; maluco. 
   Quem de quem fui?  Est&#225; maluco.  Hoje &#233; quem eu sou. 

   Se ao menos eu tivesse uma religi&#227;o qualquer! 
   Por exemplo, por aquele manipanso 
   Que havia em casa, l&#225; nessa, trazido de &#193;frica. 
   Era fei&#237;ssimo, era grotesco, 
   Mas havia nele a divindade de tudo em que se cr&#234;. 
   Se eu pudesse crer num manipanso qualquer &#8212; 
   J&#250;piter, Jeov&#225;, a Humanidade &#8212; 
   Qualquer serviria, 
   Pois o que &#233; tudo sen&#227;o o que pensamos de tudo? 

   Estala, cora&#231;&#227;o de vidro pintado!</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>&#193;lvaro de Campos

Esta Velha

   Esta velha ang&#250;stia, 
   Esta ang&#250;stia que trago h&#225; s&#233;culos em m...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 15 - Texto sobre &#193;lvaro de Campos (na voz de C&#233;lia Fonseca - Das Palavras aos Actos)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 11:20:04 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:subtitle></itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 14 - Texto informativo de car&#225;cter biobibliogr&#225;fico sobre Fernando Pessoa (na Voz de C&#233;lia Fonseca - Das Palavras aos Actos)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 11:14:09 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 13 - An&#225;lise do poema Mar Portugu&#234;s</title>
      <description>
        <![CDATA[Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, Mensagem
]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 01:44:26 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:explicit>false</itunes:explicit>
      <itunes:summary>Mar Portugu&#234;s

&#211; mar salgado, quanto do teu sal
S&#227;o l&#225;grimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas m&#227;es choraram,
Quantos filhos em v&#227;o rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, &#243; mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma n&#227;o &#233; pequena.
Quem quere passar al&#233;m do Bojador
Tem que passar al&#233;m da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele &#233; que espelhou o c&#233;u.

Fernando Pessoa, Mensagem
</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Mar Portugu&#234;s

&#211; mar salgado, quanto do teu sal
S&#227;o l&#225;grimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quant...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 12 - An&#225;lise do poema D. Fernando, Infante de Portugal</title>
      <description>
        <![CDATA[

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
A esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro de mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem
]]>
      </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 01:25:15 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra&#231;a,
&#192;s horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

P&#244;s-me as m&#227;os sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
A esta febre de Al&#233;m, que me consome,
E este querer grandeza s&#227;o seu nome
Dentro de mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gl&#225;dio erguido d&#225;
Em minha face calma.
Cheio de Deus, n&#227;o temo o que vir&#225;,
Pois, venha o que vier, nunca ser&#225;
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem
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      <itunes:subtitle>

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 11 - Concep&#231;&#227;o de Arte segundo Pessoa (Excerto do Livro do Desassossego)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Sat, 11 Mar 2006 12:31:31 +0000</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 10 - Fernando Pessoa Ort&#243;nimo - Autopsicografia</title>
      <description>
        <![CDATA[ AUTOPSICOGRAFIA 
O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração. 

Fernando Pessoa, Cancioneiro]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 10 Mar 2006 15:50:22 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary> AUTOPSICOGRAFIA 
O poeta &#233; um fingidor. 
Finge t&#227;o completamente 
Que chega a fingir que &#233; dor 
A dor que deveras sente.

E os que l&#234;em o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
N&#227;o as duas que ele teve,
Mas s&#243; a que eles n&#227;o t&#234;m. 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a raz&#227;o,
Esse comboio de corda
Que se chama cora&#231;&#227;o. 

Fernando Pessoa, Cancioneiro</itunes:summary>
      <itunes:subtitle> AUTOPSICOGRAFIA 
O poeta &#233; um fingidor. 
Finge t&#227;o completamente 
Que chega a fingir que &#233; dor 
...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 9 - Mensagem/Lus&#237;adas - Intertextualidade</title>
      <description>
        <![CDATA[Mensagem - Fernando Pessoa

BENEDICTUS DOMINUS DEUS
NOSTER QUI DEDIT NOBIS
SIGNUM 

 PRIMEIRA PARTE 
    BRASÃO 
I. - OS CAMPOS
Primeiro: O dos Castellos
Segundo: O das Quinas
II. - OS CASTELLOS
Primeiro: Ulysses
Segundo: Viriato
Terceiro: O Conde D. Henrique
Quarto: D. Tareja
Quinto: D. Affonso Henriques
Sexto: D. Diniz
Sétimo (I): D. João o Primeiro
Sétimo (II): D. Philippa de Lencastre
III. - AS QUINAS
Primeira: D. Duarte, Rei de Portugal
Segunda: D. Fernando, Infante de Portugal
Terceira: D. Pedro, Regente de Portugal
Quarta: D. João, Infante de Portugal
Quinta: D. Sebastião, Rei de Portugal
IV. - A COROA
Nunalvares Pereira
V. - O TIMBRE
A Cabeça do Grypho: O Infante D. Henrique
Uma Asa do Grypho: D. João o Segundo
A outra Asa do Grypho: Afonso de Albuquerque

      SEGUNDA PARTE 
MAR PORTUGUÊS
I: O Infante
II: Horizonte
III: Padrão
IV: O Mostrengo
V: Epitaphio de Bartolomeu Dias
VI: Os Colombos
VII: Occidente
VIII: Fernão de Magalhães
IX: Ascensão de Vasco da Gama
X: Mar Portuguez
XI: A Ultima Nau
XII: Prece

      TERCEIRA PARTE 
O ENCOBERTO
I. - OS SYMBOLOS
Primeiro: D. Sebastião
Segundo: O Quinto Império
Terceiro: O Desejado
Quarto: As Ilhas Afortunadas
Quinto: O Encoberto
II. - OS AVISOS
Primeiro: O Bandarra
Segundo: António Vieira
Terceiro: (Screvo meu livro à beira-magua)
III. - OS TEMPOS
Primeiro: Noite
Segundo: Tormenta
Terceiro: Calma
Quarto: Antemanhã
Quinto: Nevoeiro]]>
      </description>
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      <pubDate>Fri, 10 Mar 2006 15:30:55 +0000</pubDate>
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      <itunes:summary>Mensagem - Fernando Pessoa

BENEDICTUS DOMINUS DEUS
NOSTER QUI DEDIT NOBIS
SIGNUM 

 PRIMEIRA PARTE 
    BRAS&#195;O 
I. - OS CAMPOS
Primeiro: O dos Castellos
Segundo: O das Quinas
II. - OS CASTELLOS
Primeiro: Ulysses
Segundo: Viriato
Terceiro: O Conde D. Henrique
Quarto: D. Tareja
Quinto: D. Affonso Henriques
Sexto: D. Diniz
S&#233;timo (I): D. Jo&#227;o o Primeiro
S&#233;timo (II): D. Philippa de Lencastre
III. - AS QUINAS
Primeira: D. Duarte, Rei de Portugal
Segunda: D. Fernando, Infante de Portugal
Terceira: D. Pedro, Regente de Portugal
Quarta: D. Jo&#227;o, Infante de Portugal
Quinta: D. Sebasti&#227;o, Rei de Portugal
IV. - A COROA
Nunalvares Pereira
V. - O TIMBRE
A Cabe&#231;a do Grypho: O Infante D. Henrique
Uma Asa do Grypho: D. Jo&#227;o o Segundo
A outra Asa do Grypho: Afonso de Albuquerque

      SEGUNDA PARTE 
MAR PORTUGU&#202;S
I: O Infante
II: Horizonte
III: Padr&#227;o
IV: O Mostrengo
V: Epitaphio de Bartolomeu Dias
VI: Os Colombos
VII: Occidente
VIII: Fern&#227;o de Magalh&#227;es
IX: Ascens&#227;o de Vasco da Gama
X: Mar Portuguez
XI: A Ultima Nau
XII: Prece

      TERCEIRA PARTE 
O ENCOBERTO
I. - OS SYMBOLOS
Primeiro: D. Sebasti&#227;o
Segundo: O Quinto Imp&#233;rio
Terceiro: O Desejado
Quarto: As Ilhas Afortunadas
Quinto: O Encoberto
II. - OS AVISOS
Primeiro: O Bandarra
Segundo: Ant&#243;nio Vieira
Terceiro: (Screvo meu livro &#224; beira-magua)
III. - OS TEMPOS
Primeiro: Noite
Segundo: Tormenta
Terceiro: Calma
Quarto: Antemanh&#227;
Quinto: Nevoeiro</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Mensagem - Fernando Pessoa

BENEDICTUS DOMINUS DEUS
NOSTER QUI DEDIT NOBIS
SIGNUM 

 PRIMEIRA PAR...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 8 - Portugal no tempo de Fernando Pessoa</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Thu, 09 Mar 2006 21:49:37 +0000</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 7 - Mensagem - A Epopeia L&#237;rica (a cria&#231;&#227;o de um Portugal m&#237;tico)</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
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      <pubDate>Thu, 09 Mar 2006 16:22:30 +0000</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 6 - An&#225;lise do poema D. Sebasti&#227;o, Rei de Portugal</title>
      <description>
        <![CDATA[Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria? 

Fernando Pessoa, Mensagem]]>
      </description>
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      <pubDate>Wed, 08 Mar 2006 00:15:04 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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Qual a Sorte a n&#227;o d&#225;.
N&#227;o coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal est&#225;
Ficou meu ser que houve, n&#227;o o que h&#225;.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que &#233; o homem
Mais que a besta sadia,
Cad&#225;ver adiado que procria? 

Fernando Pessoa, Mensagem</itunes:summary>
      <itunes:subtitle>Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza
Qual a Sorte a n&#227;o d&#225;.
N&#227;o coube em mim minha certe...</itunes:subtitle>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 5 - Tend&#234;ncias Est&#233;ticas na transi&#231;&#227;o do s&#233;c. XIX para o s&#233;c. XX</title>
      <description>
        <![CDATA[]]>
      </description>
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      <pubDate>Tue, 07 Mar 2006 23:55:44 +0000</pubDate>
      <dcterms:modified>2022-04-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2013-12-04</dcterms:created>
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      <title>Epis&#243;dio 4 - Fernando Pessoa e a sua &#233;poca (As Vanguardas e o Modernismo)</title>
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      <title>Episodio 2 - Vida e Obra de Fernando Pessoa</title>
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