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    <title>Em Discurso Directo II</title>
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    <description>A Literatura Portuguesa em &#225;udio: Modernismo (Fernando Pessoa)</description>
    <language>en-us</language>
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    <pubDate>Thu, 05 Nov 2009 18:54:33 GMT</pubDate>
    <itunes:subtitle>A Literatura Portuguesa em &#225;udio: Modernismo (Fernando Pessoa)</itunes:subtitle>
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    <itunes:author>adelina moura</itunes:author>
    <itunes:summary>&#201;pocas e Autores da Literatura Portuguesa em &#225;udio.
Fernado Pessoa e o Modernismo - Epis&#243;dio 1 a...
Ces&#225;rio Verde
Antero de Quental
Felizmente H&#225; Luar
Apari&#231;&#227;o
Memorial do Convento</itunes:summary>
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      <title>Epis&#243;dio 72 - An&#225;lise do poema Dactilografia</title>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 19:12:33 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 71 - Poema Dactilografia na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
      <description>Tra&#231;o sozinho, no meu cub&#237;culo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto at&#233; de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.
Que n&#225;usea da vida!
Que abjec&#231;&#227;o esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustra&#231;&#245;es, talvez, de qualquer livro de inf&#226;ncia),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, expl&#237;citas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que &#233; a que sonhamos na inf&#226;ncia,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de n&#233;voa;
A falsa, que &#233; a que vivemos em conviv&#234;ncia com outros,
Que &#233; a pr&#225;tica, a &#250;til,
Aquela em que acabam por nos meter num caix&#227;o.

Na outra n&#227;o h&#225; caix&#245;es, nem mortes,
H&#225; s&#243; ilustra&#231;&#245;es de inf&#226;ncia:
Grandes livros coloridos, para ver mas n&#227;o ler;
Grandes p&#225;ginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos n&#243;s,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que &#233; o que viver quer dizer;
Neste momento, pela n&#225;usea, vivo na outra&#8230;

Mas o lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.


&#193;lvaro de Campos, 19-12-1933</description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 18:56:10 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>Tra&#231;o sozinho, no meu cub&#237;culo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto at&#233; de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.
Que n&#225;usea da vida!
Que abjec&#231;&#227;o esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustra&#231;&#245;es, talvez, de qualquer livro de inf&#226;ncia),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, expl&#237;citas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que &#233; a que sonhamos na inf&#226;ncia,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de n&#233;voa;
A falsa, que &#233; a que vivemos em conviv&#234;ncia com outros,
Que &#233; a pr&#225;tica, a &#250;til,
Aquela em que acabam por nos meter num caix&#227;o.

Na outra n&#227;o h&#225; caix&#245;es, nem mortes,
H&#225; s&#243; ilustra&#231;&#245;es de inf&#226;ncia:
Grandes livros coloridos, para ver mas n&#227;o ler;
Grandes p&#225;ginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos n&#243;s,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que &#233; o que viver quer dizer;
Neste momento, pela n&#225;usea, vivo na outra&#8230;

Mas o lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.


&#193;lvaro de Campos, 19-12-1933</itunes:summary>
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      <title>Epis&#243;dio 70 - An&#225;lise do poema Ode Triunfal, de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>&#193;lvaro de Campos
 
Ode Mar&#237;tima
 
Sozinho, no cais deserto, a esta manh&#227; de Ver&#227;o, 
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,  
Olho e contenta-me ver, 
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 
Vem muito longe, n&#237;tido, cl&#225;ssico &#224; sua maneira. 
Deixa no ar distante atr&#225;s de si a orla v&#227; do seu fumo. 
Vem entrando, e a manh&#227; entra com ele, e no rio, 
Aqui, acol&#225;, acorda a vida mar&#237;tima, 
Erguem-se velas, avan&#231;am rebocadores, 
Surgem barcos pequenos de tr&#225;s dos navios que est&#227;o no porto.   
H&#225; uma vaga brisa. 
Mas a minh'alma est&#225; com o que vejo menos,  
Com o paquete que entra, 
Porque ele est&#225; com a Dist&#226;ncia, com a Manh&#227;, 
Com o sentido mar&#237;timo desta Hora, 
Com a do&#231;ura dolorosa que sobe em mim como uma n&#225;usea,  
Como um come&#231;ar a enjoar, mas no esp&#237;rito. 

Olho de longe o paquete, com uma grande independ&#234;ncia de alma,  
E dentro de mim um volante come&#231;a a girar, lentamente, 

Os paquetes que entram de manh&#227; na barra 
Trazem aos meus olhos consigo 
O mist&#233;rio alegre e triste de quem chega e parte. 
Trazem mem&#243;rias de cais afastados e doutros momentos 
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. 
Todo o atracar, todo o largar de navio, 
&#201; &#8212; sinto-o em mim como o meu sangue - 
Inconscientemente simb&#243;lico, terrivelmente 
Amea&#231;ador de significa&#231;&#245;es metaf&#237;sicas 
Que perturbam em mim quem eu fui... 

Ah, todo o cais &#233; uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espa&#231;o 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, n&#227;o sei porqu&#234;, uma ang&#250;stia recente, 
Uma n&#233;voa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas ang&#250;stias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recorda&#231;&#227;o duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha. 

Ah, quem sabe, quem sabe, 
Se n&#227;o parti outrora, antes de mim, 
Dum cais; se n&#227;o deixei, navio ao sol 
Obl&#237;quo da madrugada, 
Uma outra esp&#233;cie de porto? 
Quem sabe se n&#227;o deixei, antes de a hora 
Do mundo exterior como eu o vejo 
Raiar-se para mim, 
Um grande cais cheio de pouca gente, 
Duma grande cidade meio-desperta, 
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopl&#233;tica, 
Tanto quanto isso pode ser fora do Espa&#231;o e do Tempo? 

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, 
Real, vis&#237;vel como cais, cais realmente, 
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado 
Insensivelmente evocado, 
N&#243;s os homens constru&#237;mos 
Os nossos cais de pedra atual sobre &#225;gua verdadeira, 
Que depois de constru&#237;dos se anunciam de repente 
Coisas-Reais, Esp&#237;ritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, 
A certos momentos nossos de sentimento-raiz 
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta 
E, sem que nada se altere, 
Tudo se revela diverso. 

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Na&#231;&#245;es! 
O Grande Cais Anterior, eterno e divino! 
De que porto?  Em que &#225;guas?  E porque penso eu isto? 
Grandes Cais como os outros cais, mas o &#218;nico. 
Cheio como eles de sil&#234;ncios rumorosos nas antemanh&#227;s, 
E desabrochando com as manh&#227;s num ru&#237;do de guindastes 
E chegadas de comboios de mercadorias, 
E sob a nuvem negra e ocasional e leve 
Do fundo das chamin&#233;s das f&#225;bricas pr&#243;ximas 
Que lhe sombreia o ch&#227;o preto de carv&#227;o pequenino que brilha, 
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre &#225;gua sombria. 

Ah, que essencialidade de mist&#233;rio e sentido parados  
Em divino &#234;xtase revelador  
&#192;s horas cor de sil&#234;ncios e ang&#250;stias 
N&#227;o &#233; ponte entre qualquer cais e O Cais! 

Cais negramente refletido nas &#225;guas paradas,  
Bul&#237;cio a bordo dos navios, 
&#211; alma errante e inst&#225;vel da gente que anda embarcada,  
Da gente simb&#243;lica que passa e com quem nada dura,  
Que quando o navio volta ao porto 
H&#225; sempre qualquer altera&#231;&#227;o a bordo! 

&#211; fugas cont&#237;nuas, idas, ebriedade do Diverso!   
Alma eterna dos navegadores e das navega&#231;&#245;es!   
Cascos refletidos devagar nas &#225;guas, 
Quando o navio larga do porto! 
Flutuar como alma da vida, partir como voz, 
Viver o momento tremulamente sobre &#225;guas eternas. 
Acordar para dias mais diretos que os dias da Europa, 
Ver portos misteriosos sobre a solid&#227;o do mar, 
Virar cabos long&#237;nquos para s&#250;bitas vastas paisagens 
Por inumer&#225;veis encostas at&#244;nitas... 

Ah, as praias long&#237;nquas, os cais vistos de longe, 
E depois as praias pr&#243;ximas, os cais vistos de perto. 
O mist&#233;rio de cada ida e de cada chegada, 
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade 
Deste imposs&#237;vel universo 
A cada hora mar&#237;tima mais na pr&#243;pria pele sentido!   
O solu&#231;o absurdo que as nossas almas derramaram  
Sobre as extens&#245;es de mares diferentes com ilhas ao longe,  
Sobre as ilhas long&#237;nquas das costas deixadas passar,  
Sobre o crescer n&#237;tido dos portos, com as suas casas e a sua gente,  
Para o navio que se aproxima. 

Ah, a frescura das manh&#227;s em que se chega, 
E a palidez das manh&#227;s em que se parte, 
Quando as nossas entranhas se arrepanham 
E uma vaga sensa&#231;&#227;o parecida com um medo 
- O medo ancestral de se afastar e partir, 
O misterioso receio ancestral &#224; Chegada e ao Novo - 
Encolhe-nos a pele e agonia-nos, 
E todo o nosso corpo angustiado sente, 
Como se fosse a nossa alma,  
Uma inexplic&#225;vel vontade de poder sentir isto doutra maneira:  
Uma saudade a qualquer coisa, 
Uma perturba&#231;&#227;o de afei&#231;&#245;es a que vaga p&#225;tria? 
A que costa? a que navio? a que cais? 
Que se adoece em n&#243;s o pensamento, 
E s&#243; fica um grande v&#225;cuo dentro de n&#243;s, 
Uma oca saciedade de minutos mar&#237;timos, 
E uma ansiedade vaga que seria t&#233;dio ou dor 
Se soubesse como s&#234;-lo... 

A manh&#227; de Ver&#227;o est&#225;, ainda assim, um pouco fresca.   
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.   
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.   
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem d&#250;vida,  
E n&#227;o porque eu o veja mover-se na sua dist&#226;ncia excessiva. 

Na minha imagina&#231;&#227;o ele est&#225; j&#225; perto e &#233; vis&#237;vel  
Em toda a extens&#227;o das linhas das suas vigias.   
E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele,  
Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco  
E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado obl&#237;quo. 
Os navios que entram a barra, 
Os navios que saem dos portos, 
Os navios que passam ao longe  
(Suponho-me vendo-os duma praia deserta)  - 
Todos estes navios abstratos quase na sua ida,  
Todos estes navios assim comovem-me como se fossem outra coisa  
E n&#227;o apenas navios, navios indo e vindo. 

E os navios vistos de perto, mesmo que se n&#227;o v&#225; embarcar neles, 
Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas,  
Vistos dentro, atrav&#233;s das c&#226;maras, das salas, das despensas,  
Olhando de perto os mastros, afilando-se l&#225; pr&#243; alto,  
Ro&#231;ando pelas cordas, descendo as escadas inc&#244;modas,  
Cheirando a untada mistura met&#225;lica e mar&#237;tima de tudo aquilo  - 
Os navios vistos de perto s&#227;o outra coisa e a mesma coisa,  
D&#227;o a mesma saudade e a mesma &#226;nsia doutra maneira. 

Toda a vida mar&#237;tima! tudo na vida mar&#237;tima! 
Insinua-se no meu sangue toda essa sedu&#231;&#227;o fina 
E eu cismo indeterminadamente as viagens. 
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!   
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! 
As solid&#245;es mar&#237;timas, como certos momentos no Pac&#237;fico  
Em que n&#227;o sei por que sugest&#227;o aprendida na escola  
Se sente pesar sobre os nervos o fato de que aquele &#233; o maior dos oceanos  
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de n&#243;s! 
A extens&#227;o mais humana, mais salpicada, do Atl&#226;ntico!  
O indico, o mais misterioso dos oceanos todos! 
O Mediterr&#226;neo, doce, sem mist&#233;rio nenhum, cl&#225;ssico, um mar para bater 
De encontro a esplanadas olhadas de jardins pr&#243;ximos por est&#225;tuas brancas!   
Todos os mares, todos os estreitos, todas as ba&#237;as, todos os golfos, 
Queria apert&#225;-los ao peito, senti-los bem e morrer! 

E v&#243;s, &#243; coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho! 
Componde fora de mim a minha vida interior! 
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, 
Chamin&#233;s de vapores, h&#233;lices, g&#225;veas, fl&#226;mulas, 
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, v&#225;lvulas; 
Ca&#237; por mim dentro em mont&#227;o, em monte, 
Como o conte&#250;do confuso de uma gaveta despejada no ch&#227;o! 
Sede v&#243;s o tesouro da minha avareza febril, 
Sede v&#243;s os frutos da &#225;rvore da minha imagina&#231;&#227;o, 
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha intelig&#234;ncia,  
Vosso seja o la&#231;o que me une ao exterior pela est&#233;tica, 
Fornecei-me met&#225;foras imagens, literatura, 
Porque em real verdade, a s&#233;rio, literalmente, 
Minhas sensa&#231;&#245;es s&#227;o um barco de quilha pro ar, 
Minha imagina&#231;&#227;o uma ancora meio submersa, 
Minha &#226;nsia um remo partido, 
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia! 

Soa no acaso do rio um apito, s&#243; um. 
Treme j&#225; todo o ch&#227;o do meu psiquismo. 
Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim. 

Ah, os paquetes, as viagens, o n&#227;o-se-saber-o-paradeiro 
De Fulano-de-tal, mar&#237;timo, nosso conhecido! 
Ah, a gl&#243;ria de se saber que um homem que andava conosco 
Morreu afogado ao p&#233; duma ilha do Pac&#237;fico! 
N&#243;s que andamos com ele vamos falar nisso a todos, 
Com um orgulho leg&#237;timo, com uma confian&#231;a invis&#237;vel 
Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto 
Que apenas o ter-se perdido o barco onde ele ia 
E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado &#225;gua pros pulm&#245;es! 

Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!   
V&#227;o rareando - ai de mim! - os navios de vela nos mares! 
E eu, que amo a civiliza&#231;&#227;o moderna, eu que beijo com a alma as m&#225;quinas, 
Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro, 
Gostaria de ter outra vez ao p&#233; da minha vista s&#243; veleiros e barcos de madeira, 
De n&#227;o saber doutra vida mar&#237;tima que a antiga vida dos mares! 
Porque os mares antigos s&#227;o a Dist&#226;ncia Absoluta, 
O Puro Longe, liberto do peso do Atual... 
E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor, 
Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar. 
Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles. 

Todo o vapor ao longe &#233; um barco de vela perto.   
Todo o navio distante visto agora &#233; um navio no passado visto pr&#243;ximo. 
Todos os marinheiros invis&#237;veis a bordo dos navios no horizonte 
S&#227;o os marinheiros vis&#237;veis do tempo dos velhos navios, 
Da &#233;poca lenta e veleira das navega&#231;&#245;es perigosas, 
Da &#233;poca de madeira e lona das viagens que duravam meses. 

Toma-me pouco a pouco o del&#237;rio das coisas mar&#237;timas, 
Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera, 
O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos, 
E come&#231;o a sonhar, come&#231;o a envolver-me do sonho das &#225;guas, 
Come&#231;am a pegar bem as correias-de-transmiss&#227;o na minh'alma 
E a acelera&#231;&#227;o do volante sacode-me nitidamente. 

Chamam por mim as &#225;guas, 
Chamam por mim os mares, 
Chamam por mim, levantando uma voz corp&#243;rea, os longes, 
As &#233;pocas mar&#237;timas todas sentidas no passado, a chamar. 

Tu, marinheiro ingl&#234;s, Jim Barns meu amigo, foste tu 
Que me ensinaste esse grito antiqu&#237;ssimo, ingl&#234;s, 
Que t&#227;o venenosamente resume 
Para as almas complexas como a minha 
O chamamento confuso das &#225;guas, 
A voz in&#233;dita e impl&#237;cita de todas as coisas do mar, 
Dos naufr&#225;gios, das viagens long&#237;nquas, das travessias perigosas. 
Esse teu grito ingl&#234;s, tornado universal no meu sangue, 
Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz, 
Esse grito tremendo que parece soar 
De dentro duma caverna cuja ab&#243;bada &#233; o c&#233;u  
E parece narrar todas as sinistras coisas 
Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite...  
(Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas,  
E dizias assim, pondo uma m&#227;o de cada lado da boca, 
Fazendo porta-voz das grandes m&#227;os curtidas e escuras: 

Ah&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242; - yyy... 
Schooner ah&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-o&#242; -yyy...)  

Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa. 
Estremece o vento.  Sobe a manh&#227;.  O calor abre. 
Sinto corarem-me as faces. 
Meus olhos conscientes dilatam-se. 
O &#234;xtase em mim levanta-se, cresce, avan&#231;a,  
E com um ru&#237;do cego de arrua&#231;a acentua-se  
O giro vivo do volante. 

&#211; clamoroso chamamento 
A cujo calor, a cuja f&#250;ria fervem em mim 
Numa unidade explosiva todas as minhas &#226;nsias, 
Meus pr&#243;prios t&#233;dios tornados din&#226;micos, todos!... 
Apelo lan&#231;ado ao meu sangue 
Dum amor passado, n&#227;o sei onde, que volve 
E ainda tem for&#231;a para me atrair e puxar, 
Que ainda tem for&#231;a para me fazer odiar esta vida 
Que passo entre a impenetrabilidade f&#237;sica e ps&#237;quica 
Da gente real com que vivo! 

Ah seja como for, seja por onde for, partir! 
Largar por a&#237;  fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar. 
Ir para Longe, ir para Fora, para a Dist&#226;ncia Abstrata, 
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, 
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! 
Ir, ir, ir, ir de vez! 

Todo o meu sangue raiva por asas! 
Todo o meu corpo atira-se pra frente! 
Galgo pla minha imagina&#231;&#227;o fora em torrentes! 
Atropelo-me, rujo, precipito-me 
Estoiram em espuma as minhas &#226;nsias 
E a minha carne &#233; uma onda dando de encontro a rochedos! 

Pensando nisto - &#243; raiva! pensando nisto - &#243; f&#250;ria! 
Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de &#226;nsias, 
Subitamente, tremulamente extraorbitadamente, 
Com uma oscila&#231;&#227;o viciosa, vasta, violenta, 
Do volante vivo da minha imagina&#231;&#227;o. 
Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando, 
O cio sombrio e s&#225;dico da estr&#237;dula vida mar&#237;tima. 

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!   
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!   
Eh capit&#227;es de navios! homens ao leme e em mastros!   
Homens que dormem em beliches rudes!   
Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias!   
Homens que dormem co'a Morte por travesseiro!   
Homens que t&#234;m tombadilhos, que t&#234;m pontes donde olhar  
A imensidade imensa do mar imenso! 
Eh manipuladores dos guindastes de carga! 
Eh amainadores de velas, fagueiros, criados de bordo! 
Homens que metem a carga nos por&#245;es! 
Homens que enrolam cabos no conv&#233;s! 
Homens que limpam os metais das escotilhas! 
Homens do leme! homens das m&#225;quinas! homens dos mastros!   
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Gente de bon&#233; de pala!  Gente de camisola de malha! 
Gente de &#226;ncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito! 
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada! 
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva, 
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles, 
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer! 

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Homens que vistes a Patag&#244;nia! 
Homens que passasses pela Austr&#225;lia! 
Que enchesses o vosso olhar de costas que nunca verei! 
Que fostes a terra em terras onde nunca descerei! 
Que comprastes artigos toscos em col&#244;nias &#224; proa de sert&#245;es! 
E fizestes tudo isso como se n&#227;o fosse nada, 
Como se isso fosse natural, 
Como se a vida fosse isso, 
Como nem sequer cumprindo um destino!   
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Homens do mar atual! homens do mar passado! 
Comiss&#225;rios de bordo! escravos das gal&#233;s! combatentes de Lepanto! 
Piratas do tempo de Roma!  Navegadores da Gr&#233;cia! 
Fen&#237;cios!  Cartagineses!  Portugueses atirados de Sagres 
Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Imposs&#237;vel! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Homens que erguestes padr&#245;es, que destes nomes a cabos!   
Homens que negociastes pela primeira vez com pretos! 
Que primeiro vendesses escravos de novas terras! 
Que destes o primeiro espasmo europeu &#224;s negras at&#244;nitas  
Que trouxesses ouro, mi&#231;anga, madeiras cheirosas, setas, 
De encostas explodindo em verde vegeta&#231;&#227;o!   
Homens que saqueasses tranq&#252;ilas povoa&#231;&#245;es africanas  
Que fizestes fugir com o ru&#237;do de canh&#245;es essas ra&#231;as  
Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes  
Os pr&#234;mios de Novidade de quem, de cabe&#231;a baixa  
Arremete contra o mist&#233;rio de novos mares!  Eh-eh-eh eh-eh!  
A v&#243;s todos num, a v&#243;s todos em v&#243;s todos como um, 
A v&#243;s todos misturados, entrecruzados. 
A v&#243;s todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados,  
Eu vos sa&#250;do, eu vos sa&#250;do, eu vos sa&#250;do! 
Eh-eh-eh-eh eh!  Eh eh-eh-eh eh!  Eh-eh-eh eh-eh-eh eh! 
Eh lah&#244;-lah&#244; laHO-lah&#225;-&#225;-&#225;-&#224;-&#224;! 

Quero ir convosco, quero ir convosco, 

Ao mesmo tempo com v&#243;s todos 
Pra toda a parte pr'onde fostes! 
Quero encontrar vossos perigos frente a frente, 
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossa 
Cuspir dos l&#225;bios o sal dos mares que beijaram os vossos 
Ter bra&#231;os na vossa faina, partilhar das vossas tormentas 
Chegar como v&#243;s, enfim, a extraordin&#225;rios portos! 
Fugir convosco &#224; civiliza&#231;&#227;o! 
Perder convosco a no&#231;&#227;o da moral! 
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade! 
Beber convosco em mares do Sul 
Novas selvajarias, novas balb&#250;rdias da alma, 
Novos fogos centrais no meu vulc&#226;nico esp&#237;rito! 
Ir convosco, despir de mim - ah! p&#245;e-te daqui pra fora! - 
O meu traje de civilizado, a minha brandura de a&#231;&#245;es, 
Meu medo inato das cadeias, 
Minha pac&#237;fica vida, 
A minha vida sentada, est&#225;tica, regrada e revista! 

No mar, no mar, no mar, no mar, 
Eh! p&#244;r no mar, ao vento, &#224;s vagas, 
A minha vida! 
Salgar de espuma arremessada pelos ventos 
Meu paladar das grandes viagens. 
Fustigar de &#225;gua chicoteante as carnes da minha aventura, 
Repassar de frios oce&#226;nicos os ossos da minha exist&#234;ncia, 
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de s&#243;is, 
Meu ser cicl&#244;nico e atl&#226;ntico, 
Meus nervos postos como enx&#225;rcias, 
Lira nas m&#227;os dos ventos! 

Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navega&#231;&#245;es 
E as minhas esp&#225;duas gozar&#227;o a minha cruz! 
Atai-me &#224;s viagens como a postes 
E a sensa&#231;&#227;o dos postes entrar&#225; pela minha espinha 
E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo! 
Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares, 
Sobre conveses, ao som de vagas, 
Que me rasgueis, mateis, fira-os! 
O que quero &#233; levar pra Morte 
Uma alma a transbordar de Mar,  
&#201;bria a cair das coisas mar&#237;timas, 
Tanto dos marujos como das &#226;ncoras, dos cabos, 
Tanto das costas long&#237;nquas como do ru&#237;do dos ventos, 
Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufr&#225;gios 
Como dos tranq&#252;ilos com&#233;rcios, 
Tanto dos mastros como das vagas, 
Levar pra Morte com dor, voluptuosamente, 
Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar, 
De estranhas verdes absurdas sanguessugas mar&#237;timas! 

Fa&#231;am enx&#225;rcias das minhas veias! 
Amarras dos meus m&#250;sculos! 
Atranquem-me a pele, preguem-na &#224;s quilhas. 
E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir! 
Fa&#231;am do meu cora&#231;&#227;o uma fl&#226;mula de almirante 
Na hora de guerra aos velhos navios! 
Calquem aos p&#233;s nos conveses meus olhos arrancados! 
Quebrem-me os ossos de encontro &#224;s amuradas! 
Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me! 
A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes 
Derramem meu sangue sobre as &#225;guas arremessadas 
Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado, 
Nas vascas bravas das tormentas! 

Ter a aud&#225;cia ao vento dos panos das velas! 
Ser, como as g&#225;veas altas, o assobio dos ventos! 
A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos, 
Can&#231;&#227;o para os navegadores ouvirem e n&#227;o repetirem! 

Os marinheiros que se sublevaram 
Enforcaram o capit&#227;o numa verga. 
Desembarcaram um outro numa ilha deserta. 
Morooned! 
O sol dos tr&#243;picos p&#244;s a febre da pirataria antiga 
Nas minhas veias intensivas. 
Os ventos da Patag&#244;nia tatuaram a minha imagina&#231;&#227;o 
De imagens tr&#225;gicas e obscenas. 
Fogo, fogo, fogo, dentro de mim! 
Sangue! sangue! sangue! sangue! 
Explode todo o meu c&#233;rebro! 
Parte-se-me o mundo em vermelho! 
Estoiram-me com o som de amarras as veias! 
E estala em mim, feroz, voraz, 
A can&#231;&#227;o do Grande Pirata, 
A morte berrada do Grande Pirata a cantar 
At&#233; meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo. 
L&#225; da r&#233; a morrer, e a berrar, a cantar: 

                Fifteen men on the Dead Man's Chest. 
                Yo-ho ho and a bottle of rum I 

E depois a gritar, numa voz j&#225; irreal, a estoirar no ar: 

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw! 
Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw! 
Fetch a-a-aft th ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby, 

Eia,, que vida essa! essa era a vida, eia! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Eh-lah&#244;-lah&#244;-laFIO-Iah&#225;-&#225;-&#225;-&#224;-&#224;! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!   

Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares 
Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos! 
Dedos decepados sobre amuradas! 
Cabe&#231;as de crian&#231;as, aqui, acol&#225;! 
Gente de olhos fora, a gritar, a uivar! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio! 
Ro&#231;o-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro! 
Rujo como um le&#227;o faminto para tudo isto! 
Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto! 
Cravo unhas, parto garras, sangro dos dentes sobre isto! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 

De repente estala-me sobre os ouvidos 
Como um clarim a meu lado, 
O velho grito, mas agora irado, met&#225;lico, 
Chamando a presa que se avista, 
A escuna que vai ser tomada: 

Ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243; - yyyy.. 
Schooner ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243; - yyyy... 

O mundo inteiro n&#227;o existe para mim!  Ardo vermelho! 
Rujo na f&#250;ria da abordagem! 
Pirata-m&#243;r!  C&#233;sar-Pirata! 
Pilho, mato, esfacelo, rasgo! 
S&#243; sinto o mar, a presa, o saque! 
S&#243; sinto em mim bater, baterem-me 
As veias das minhas fontes! 
Escorre sangue quente a minha sensa&#231;&#227;o dos meus olhos! 
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 

Ah piratas, piratas, piratas! 
Piratas, amai-me e odiai-me! 
Misturai-me convosco, piratas! 

Vossa f&#250;ria, vossa crueldade corno falam ao sangue  
Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive! 

Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos,  
Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas  
Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatr&#227;o nos conveses,  
Trincasse velas, remos, cordame e poleame, 
Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! 

E h&#225; uma sinfonia de sensa&#231;&#245;es incompat&#237;veis e an&#225;logas, 
H&#225; uma orquestrar&#227;o no meu sangue de balb&#250;rdias de crimes,   
De estr&#233;pitos espasmados de orgias de sangue nos mares,  
Furlbundamente, como um vendaval de calor pelo esp&#237;rito,  
Nuvem de poeira quente anuviando a minha lucidez  
E fazendo-me ver e sonhar isto tudo s&#243; com a pele e as veias! 

Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora, 
Aquela hora mar&#237;tima em que as presas s&#227;o assaltadas,  
E o terror dos apresados foge pra loucura - essa hora,  
No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, c&#233;u, nuvens,  
Brisa, latitude, longitude, vozearia, 
Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo, 
Que fosse meu corpo e meu sangue, compusesse meu ser em vermelho, 
Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma! 

Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes 
Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das viola&#231;&#245;es!   
Ser quanto foi no lugar dos saques! 
Ser quanto viveu ou jazeu no local das trag&#233;dias de sangue!   
Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge,  
E a v&#237;tima-s&#237;ntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! 
Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres  
Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!   
Ser no meu ser subjugado a f&#234;mea que tem de ser deles  
E sentir tudo isso -- todas estas coisas duma s&#243; vez - pela espinha! 

&#211; meus peludos e rudes her&#243;is da aventura e do crime!   
Minhas mar&#237;timas feras, maridos da minha imagina&#231;&#227;o!   
Amantes casuais da obliq&#252;idade das minhas sensa&#231;&#245;es!   
Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos, 
A v&#243;s, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos! 
Porque ela teria convosco, mas s&#243; em esp&#237;rito, raivado 
Sobre os cad&#225;veres nus das v&#237;timas que fazeis no mar! 
Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oce&#226;nica  
Seu esp&#237;rito de bruxa dan&#231;aria invis&#237;vel em volta dos gestos  
Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas m&#227;os estranguladores! 
E ela em terra, esperando-vos, quando vi&#233;sseis, se acaso vi&#233;sseis, 
Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto, 
Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vit&#243;rias,  
E atrav&#233;s dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo! 

A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo! 
Agora, no auge conciso de sonhar o que v&#243;s faz&#237;eis,  
Perco-me todo de mim, j&#225; n&#227;o vos perten&#231;o, sou v&#243;s,  
A minha feminilidade que vos acompanha &#233; ser as vossas almas! 
Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a pratic&#225;veis! 
Sugar por dentro a vossa consci&#234;ncia das vossas sensa&#231;&#245;es  
Quando ting&#237;eis de sangue os mares altos, 
Quando de vez em quando atir&#225;veis aos tubar&#245;es 
Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das crian&#231;as 
E lev&#225;veis as m&#227;es &#224;s amuradas para verem o que lhes acontecia! 

Estar convosco na carnagem, na pilhagem! 
Estar orquestrado convosco na sinfonia dos saques!   
Ah, n&#227;o sei qu&#234;, n&#227;o sei quanto queria eu ser de v&#243;s!   
N&#227;o era s&#243; ser-vos a f&#234;mea, ser-vos as f&#234;meas, ser-vos as v&#237;timas, 
Ser-vos as v&#237;timas - homens, mulheres, crian&#231;as, navios -, 
N&#227;o era s&#243; ser a hora e os barcos e as ondas, 
N&#227;o era s&#243; ser vossas almas, vossos corpos, vossa f&#250;ria, vossa posse, 
N&#227;o era s&#243; ser concretamente vosso ato abstrato de orgia,  
N&#227;o era s&#243; isto que eu queria ser - era mais que isto o Deus-isto! 
Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contr&#225;rio, 
Um Deus monstruoso e sat&#226;nico, um Deus dum pante&#237;smo de sangue, 
Para poder encher toda a medida da minha f&#250;ria imaginativa,  
Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade  
Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vit&#243;rias! 

Ah, torturai-me para me curardes! 
Minha carne - fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam  
Antes de ca&#237;rem sobre as cabe&#231;as e os ombros!   
Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam!   
Minha imagina&#231;&#227;o o corpo das mulheres que violais!   
Minha intelig&#234;ncia o conv&#233;s onde estais de p&#233; matando!   
Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, hist&#233;rico, absurdo,  
O grande organismo de que cada ato de pirataria que se cometeu  
Fosse uma c&#233;lula consciente - e todo eu turbilhonasse  
Como uma imensa podrid&#227;o ondeando, e fosse aquilo tudo!   

Com tal velocidade desmedida, pavorosa, 
A m&#225;quina de febre das minhas vis&#245;es transbordantes  
Gira agora que a minha consci&#234;ncia, volante, 
E apenas um nevoento c&#237;rculo assobiando no ar. 

Fifteen men on tbe Dead Man's Chest. 
Yo-ho-ho and a bottle of rum! 

Eh-lah&#244;-lah&#244;-laHO - lah&#225;-&#225;-&#225;&#225;&#225; - &#224;&#224;&#224;... 

Ah! a selvajaria desta selvajaria!  Merda 
Pra toda a vida como a nossa, que n&#227;o &#233; nada disto! 
Eu pr'&#224;qui engenheiro, pratico &#224; for&#231;a, sens&#237;vel a tudo, 
Pr'&#224;qui parado, em rela&#231;&#227;o a v&#243;s, mesmo quando ando; 
Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, d&#233;bil;  
Est&#225;tico, quebrado, dissidente cobarde da vossa Gl&#243;ria,  
Da vossa grande din&#226;mica estridente, quente e sangrenta! 

Arre! por n&#227;o poder agir de acordo com o meu del&#237;rio!   
Arre! por andar sempre agarrado &#224;s saias da civiliza&#231;&#227;o!   
Por andar com a douceur des moeurs &#224;s costas, como um fardo de rendas!   
Mo&#231;os de esquina - todos n&#243;s o somos - do humanitarismo moderno! 
Estupores de t&#237;sicos, de neurast&#234;nicos, de linf&#225;ticos, 
Sem coragem para ser gente com viol&#234;ncia e aud&#225;cia, 
Com a alma como uma galinha presa por uma perna! 

Ah, os piratas! os piratas!. 
A &#226;nsia do ilegal unido ao feroz, 
A &#226;nsia das coisas absolutamente cru&#233;is e abomin&#225;veis, 
Que r&#243;i como um cio abstrato os nossos corpos franzimos, 
Os nossos nervos femininos e delicados, 
E p&#245;e grandes febres loucas nos nossos olhares vazios! 

Obrigai-me a ajoelhar diante de v&#243;s! 
Humilhai-me e batei-me! 
Fazei de mim o vosso escravo e a vossa coisa! 
E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone, 
&#211; meus senhores! &#243; meus senhores! 

Tomar sempre gloriosamente a parte submissa 
Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas!   
Desabai sobre mim, como grandes muros pesados,  
&#211; b&#225;rbaros do antigo mar! 
Rasgai-me e feri-me! 
De leste a oeste do meu corpo 
Riscai de sangue a minha carne! 
Beijai com cutelos de bordo e a&#231;oites e raiva 
O meu alegre terror carnal de vos pertencer. 
A minha &#226;nsia masoquista em me dar &#224; vossa f&#250;ria, 
Em ser objeto inerte e sentiente da vossa omn&#237;vora crueldade, 
Dominadores, senhores, imperadores, corc&#233;is! 
Ah, torturai-me, 
Rasgai-me e abri-me! 
Desfeito em peda&#231;os conscientes 
Entornai-me sobre os conveses, 
Espalhal-me nos mares, deixai-me 
Nas praias &#225;vidas das ilhas! 

Cevai sobre mim todo o meu misticismo de v&#243;s! 
Cinzelai a sangue a minh'alma 
Cortai, riscai! 
&#211; tatuadores da minha imagina&#231;&#227;o corp&#243;rea! 
Esfoladores amados da minha cama submiss&#227;o! 
Submetei-me como quem mata um c&#227;o a pontap&#233;s! 
Fazei de mim o po&#231;o para o vosso desprezo de dom&#237;nio! 

Fazei de mim as vossas v&#237;timas todas! 
Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer  
Por todas as vossas v&#237;timas &#224;s vossas m&#227;os,  
&#192;s vossas m&#227;os calosas, sangrentas e de dedos decepados  
Nos assaltos bruscos de amuradas! 

Fazei de mim qualquer, cousa como se eu fosse 
Arrastado - &#243; prazer, o beijada dor! - 
Arrastado &#224; cauda de cavalos chicoteados por v&#243;s... 
Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR!   
Eh-eh-eh-eh-eh!  Eh--.h-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EHEH-EH-EH-EH!  No MA-A-A-A-AR! 

Yeh eh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eheh-eh-eh-eh-eh'  
Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos,  
Mar&#233;s, g&#225;veas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar!   
Eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar! 

FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. 
YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM! 

Eh-eh eh-eh -eh-eh-eh!  Eh-eh-eh-eh-eheh-eh!  Eh eheh eh-eh-eh-eh!   
Eh-lah&#244;-lah&#244;-laHO-O-O-&#244;&#244;-lah&#225;-&#225; &#224; - &#224;&#224;&#224;! 

AH&#211;-&#211;-&#211; &#211; &#211; &#211;-&#211; &#211; &#211; &#211; &#211; - yyyj... 
SCHOONER AH&#211;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-o-o-o - yyyy! ... 

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw! 
DA.RBY M'GRAW-AW AW-AW-AW-AW-AW! 
FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY! 

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh! 
EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!   
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!   
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EFI-EH-EH-EH-EHI 
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! 

Parte-se em mim qualquer coisa.  O vermelho anoiteceu. 
Senti demais para poder continuar a sentir. 
Esgotou-se-me a alma, ficou s&#243; um eco dentro de mim. 
Decresce sensivelmente a velocidade do volante. 
Tiram-me um pouco as m&#227;os dos olhos os meus sonhos. 
Dentro de mim h&#225; um s&#243; v&#225;cuo, um deserto, um mar noturno. 
E logo que sinto que h&#225; um mar noturno dentro de mim, 
Sabe dos longes dele, nasce do seu sil&#234;ncio, 
Outra vez, outra vez o vasto grito antiqu&#237;ssimo. 
De repente, como um rel&#226;mpago de som, que n&#227;o faz barulho mas ternura, 

Subitamente abrangendo todo o horizonte mar&#237;timo 
&#218;mido e sombrio marulho humano noturno, 
Voz de sereia long&#237;nqua chorando, chamando, 
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, 
E &#224; tona dele, como algas, b&#243;iam meus sonhos desfeitos... 

Ah&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242; - yy... 
Schooner a Ah&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242;-&#242; - yy... 

Ah, o orvalho sobre a minha excita&#231;&#227;o! 
O frescor noturno no meu oceano interior! 
Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar 
Cheia de enorme mist&#233;rio human&#237;ssimo das ondas noturnas 
A lua sobe no horizonte 
E a minha inf&#226;ncia feliz acorda, como uma l&#225;grima, em mim. 
O meu passado ressurge, como se esse grito mar&#237;timo 
Fosse um aroma, uma voz, o eco duma can&#231;&#227;o 
Que fosse chamar ao meu passado 
Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter. 

Era na velha casa sossegada ao p&#233; do rio 
(As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar tamb&#233;m,  
Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio pr&#243;ximo,  
Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo 
Se eu agora chegasse &#224;s mesmas janelas n&#227;o chegava &#224;s mesmas janelas. 
Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto... ) 

Unia inexplic&#225;vel ternura, 
Um remorso comovido e lacrimoso, 
Por todas aquelas v&#237;timas - principalmente as crian&#231;as - 
Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo, 
Emo&#231;&#227;o comovida, porque elas foram minhas v&#237;timas; 
Terna e suave, porque n&#227;o o foram realmente; 
Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada, 
Canta velhas can&#231;&#245;es na minha pobre alma dolorida. 

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas? 
Que longe estou do que fui h&#225; uns momentos! 
Histeria das sensa&#231;&#245;es - ora estas, ora as opostas! 
Na loura manh&#227; que se ergue, como o meu ouvido s&#243; escolhe 
As cousas de acordo com esta emo&#231;&#227;o - o marulho das &#225;guas. 
O marulho leve das &#225;guas do rio de encontro ao cais.... 
A vela passando perto do outro lado do rio, 
Os montes long&#237;nquos, dum azul japon&#234;s, 
As casas de Almada, 
E o que h&#225; de suavidade e de inf&#226;ncia na hora matutina!... 

Uma gaivota que passa, 
E a minha ternura &#233; maior. 

Mas todo este tempo n&#227;o estive a reparar para nada.   
Tudo isto foi uma impress&#227;o s&#243; da pele, com uma car&#237;cia  
Todo este tempo n&#227;o tirei os olhos do meu sonho long&#237;nquo,  
Da minha casa ao p&#233; do rio, 
Da minha inf&#226;ncia ao p&#233; do rio, 
Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,  
E a paz do luar esparso nas &#225;guas! ... 

Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu..., 
Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me 
(Se bem que eu fosse j&#225; crescido demais para isso)... 
Lembro-me e as l&#225;grimas caem sobre o meu cora&#231;&#227;o e lavam-no da vida, 
E ergue-me uma leve brisa mar&#237;tima dentro de mim. 
As vezes ela cantava a "Nau Catrineta": 

                L&#225; vai a Nau Catrineta 
                Por sobre as &#225;guas do mar ... 

E outras vezes, numa melodia muito saudosa e t&#227;o medieval,  
Era a "Bela Infanta"... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim 
E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto! 
Como fui ingrato para ela - e afinal que fiz eu da vida? 
Era a "Bela Infanta"...  Eu fechava os olhos, e ela cantava: 

                Estando a Bela Infanta 
                No seu Jardim assentada... 

Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar  
E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz. 

                Estando a Bela Infanta 
                No seu jardim assentada, 
                Seu pente de ouro na m&#227;o, 
                Seus cabelos penteava 

&#211; meu passado de inf&#226;ncia, boneco que me partiram! 
N&#227;o poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afei&#231;&#227;o, 
E ficar l&#225; sempre, sempre crian&#231;a e sempre contente! 

Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha. 
Pensar isto faz frio, faz fome duma cousa que se n&#227;o pode obter. 
D&#225;-me n&#227;o sei que remorso absurdo pensar nisto. 
Oh turbilh&#227;o lento de sensa&#231;&#245;es desencontradas! 
Vertigem t&#234;nue de confusas coisas na alma! 
F&#250;rias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crian&#231;as brincam, 
Grandes desabamentos de imagina&#231;&#227;o sobre os olhos dos sentidos,  
L&#225;grimas, l&#225;grimas in&#250;teis, 
Leves brisas de contradi&#231;&#227;o ro&#231;ando pela face a alma... 

Evoco, por um esfor&#231;o volunt&#225;rio, para sair desta emo&#231;&#227;o, 
Evoco, com um esfor&#231;o desesperado, seco, nulo, 
A can&#231;&#227;o do Grande Pirata, quando estava a morrer: 

                Fifteen men on the Dead Man's Chest. 
                Yo-ho-ho and a bottle of rum! 

Mas a can&#231;&#227;o &#233; uma linha reta mal tra&#231;ada dentro de mim... 
Esfor&#231;o-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma, 
Outra vez, mas atrav&#233;s duma imagina&#231;&#227;o quase liter&#225;ria,  
A f&#250;ria da pirataria, da chacina, o apetite, quase do paladar, do saque, 
Da chacina in&#250;til de mulheres e de crian&#231;as,  
Da tortura f&#250;til, e s&#243; para nos distrairmos, dos passageiros pobres  
E a sensualidade de escangalhar e partir as coisas mais queridas dos outros,  
Mas sonho isto tudo com um medo de qualquer coisa a respirar-me sobre a nuca. 

Lembro-me de que seria interessante  
Enforcar os filhos &#224; vista das m&#227;es  
(Mas sinto-me sem querer as m&#227;es deles), 
Enterrar vivas nas ilhas desertas as crian&#231;as de quatro anos 
Levando os pais em barcos at&#233; l&#225; para verem 
(Mas estreme&#231;o, lembrando-me dum filho que n&#227;o tenho 
e est&#225; dormindo tranq&#252;ilo em casa). 

Aguilh&#244;o uma &#226;nsia fria dos crimes mar&#237;timos,  
Duma inquisi&#231;&#227;o sem a desculpa da F&#233;, 
Crimes nem sequer com raz&#227;o de ser de maldade e de f&#250;ria, 
Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal, 
Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo,  
Como quem faz paci&#234;ncias a uma mesa de jantar de prov&#237;ncia com a toalha  
Atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar,  
S&#243; pelo suave gosto de cometer crimes abomin&#225;veis e n&#227;o os achar grande coisa,  
De ver sofrer at&#233; ao ponto da loucura e da morte-pela-dor mas nunca deixar chegar l&#225;... 
Mas a minha imagina&#231;&#227;o recusa-se a acompanhar-me.   
Um calafrio arrepia-me. 
E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo, 
De repente - oh pavor por todas as minhas veias! -,  
Oh frio repentino da porta para o Mist&#233;rio 
que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar! 
Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente  
A velha voz do marinheiro ingl&#234;s Jim Barris com quem eu falava,  
Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim,  
das pequenas coisas de rega&#231;o de m&#227;e e de fita de cabelo de irm&#227;, 
Mas estupendamente vinda de al&#233;m da apar&#234;ncia das coisas, 
A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca, 
Vinda de sobre e de dentro da solid&#227;o noturna dos mares,  

Chama por mim, chama por mim, chama por mim ... 

Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse,  
Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui n&#227;o se pudesse ouvir,  
Como um solu&#231;o abafado, uma luz que se apaga, um h&#225;lito silencioso.   
De nenhum lado do espa&#231;o, de nenhum local no tempo,  
O grito eterno e noturno, o sopro fundo e confuso: 

Ah&#244;-&#244;-&#245;-&#245;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244; - yyy...... 
Ah&#244;-&#244;-&#245;-&#245;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244; - yyy...... 
Schooner ah-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244; &#244; - - yy..... 

Tremo com frio da alma repassando-me o corpo 
E abro de repente os olhos, que n&#227;o tinha fechado.   
Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez!   
Eis outra vez o mundo real, t&#227;o bondoso para os nervos!   
Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo. 

J&#225; n&#227;o me importa o paquete que entrava.  Ainda est&#225; longe.   
S&#243; o que est&#225; perto agora me lava a alma. 
A minha imagina&#231;&#227;o higi&#234;nica, forte, pratica, 
Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e &#250;teis,  
Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, 
Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras. 
Abranda o seu giro dentro de mim o volante. 

Maravilhosa vida mar&#237;tima moderna, 
Toda limpeza, m&#225;quinas e sa&#250;de! 
Tudo t&#227;o bem arranjado, t&#227;o espontaneamente ajustado,  
Todas as pe&#231;as das m&#225;quinas, todos os navios pelos mares,  
Todos os elementos da atividade comercial de exporta&#231;&#227;o e importa&#231;&#227;o  
T&#227;o maravilhosamente combinando-se 
Que corre tudo como se fosse por leis naturais,  
Nenhuma coisa esbarrando com outra! 

Nada perdeu a poesia.  E agora h&#225; a mais as m&#225;quinas  
Com a sua poesia tamb&#233;m, e todo o novo g&#234;nero de vida  
Comercial, mundana, intelectual, sentimental,  
Que a era das m&#225;quinas veio trazer para as almas.   
As viagens agora s&#227;o t&#227;o belas como eram dantes  
E um navio ser&#225; sempre belo, s&#243; porque &#233; um navio.   
Viajar ainda &#233; viajar e o longe est&#225; sempre onde esteve  
Em parte nenhuma, gra&#231;as a Deus! 

Os portos cheios de vapores de muitas esp&#233;cies!   
Pequenos, grandes, de v&#225;rias cores, com v&#225;rias disposi&#231;&#245;es de vigias,  
De t&#227;o deliciosamente tantas companhias de navega&#231;&#227;o!   
Vapores nos portos, t&#227;o individuais na separa&#231;&#227;o destacada dos ancoramentos!   
T&#227;o prazenteiro o seu garbo quieto de cousas comerciais que andam no mar, 
No velho mar sempre o hom&#233;rico, &#243; Ulisses! 

O olhar humanit&#225;rio dos far&#243;is na dist&#226;ncia da noite,  
Ou o s&#250;bito farol pr&#243;ximo na noite muito escura  
("Que perto da terra que est&#225;vamos passando!"   
E o som da &#225;gua canta-nos ao ouvido)! ... 

Tudo isto hoje &#233; como sempre foi, mas h&#225; o com&#233;rcio; 
E o destino comercial dos grandes vapores 
Envaidece-me da minha &#233;poca! 
A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros  
D&#225;-me o orgulho moderno de viver numa &#233;poca onde &#233; t&#227;o f&#225;cil  
Misturarem-se as ra&#231;as, transporem-se os espa&#231;os, ver com facilidade todas as coisas,  
E gozar a vida realizando um grande n&#250;mero de sonhos. 

Limpos, regulares, modernos como um escrit&#243;rio com guichets em redes de arame amarelo! 
Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como , gentlemen, 
S&#227;o pr&#225;ticos, longe de desvairamentos, enchem de ar mar&#237;timo os pulm&#245;es, 
Como gente perfeitamente consciente de como &#233; higi&#234;nico respirar o ar do mar. 

O dia &#233; perfeitamente j&#225; de horas de trabalho. 
Come&#231;a tudo a movimentar-se, a regularizar-se. 

Com um grande prazer natural e direto percorro a alma 
Todas as opera&#231;&#245;es comerciais necess&#225;rias a um embarque de mercadorias. 
A minha &#233;poca &#233; o carimbo que levam todas as faturas 
E sinto que todas as cartas de todos os escrit&#243;rios 
Deviam ser endere&#231;adas a mim. 

Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade, 
E uma assinatura de comandante de navio &#233; t&#227;o bela  e moderna! 
Rigor comercial do princ&#237;pio e do fim das cartas: 
Dear Sirs - Messieurs - Amigos e Srs., 
Yours faithfully - ...nos salutations empress&#233;es... 
Tudo isto n&#227;o &#233; s&#243; humano e limpo, mas tamb&#233;m belo, 
E tem ao fim um destino mar&#237;timo, um vapor onde embarquem 
As mercadorias de que as cartas e as faturas tratam. 

Complexidade da vida!  As faturas s&#227;o feitas por gente 
Que tem amores, &#243;dios, paix&#245;es pol&#237;ticas, &#224;s vezes crimes - 
E s&#227;o t&#227;o bem escritas, t&#227;o alinhadas, t&#227;o independentes de tudo isso!   
H&#225; quem olhe para uma fatura e n&#227;o sinta isto.   
Com certeza que tu, Ces&#225;rio Verde, o sentias.   
Eu &#233; at&#233; &#224;s l&#225;grimas que o sinto humanissimamente.   
Venham dizer-me que n&#227;o h&#225; poesia no com&#233;rcio, nos escrit&#243;rios! 
Ora, ela entra por todos os poros... Neste ar mar&#237;timo respiro-a,  
Por tudo isto vem a prop&#243;sito dos vapores, da navega&#231;&#227;o moderna,  
Porque as faturas e as cartas comerciais s&#227;o o princ&#237;pio da hist&#243;ria 
E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno s&#227;o o fim. 

Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras,  
As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros 
Duma maneira especial, como se um mist&#233;rio mar&#237;timo  
Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento  
Patriotas transit&#243;rios duma mesma p&#225;tria incerta,  
Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das &#225;gua,,  
Grandes hot&#233;is do Infinito, oh transatl&#226;nticos meus!  
Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto  
E conterem todas as esp&#233;cies de trajes, de caras, de ra&#231;as! 

As viagens, os viajantes - tantas esp&#233;cies deles!   
Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profiss&#227;o! tanta gente! 
Tanto destino diverso que se pode dar &#224; vida, 
&#192; vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!   
Tantas caras curiosas!  Todas as caras s&#227;o curiosas  
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente. 
A fraternidade afinal n&#227;o &#233; uma id&#233;ia revolucion&#225;ria.  
&#201; uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,  
E passa a achar gra&#231;a ao que tem que tolerar, 
E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou! 

Ah, tudo isto &#233; belo, tudo isto &#233; humano e anda ligado  
Aos sentimentos humanos, t&#227;o conviventes e burgueses.   
T&#227;o complicadamente simples, t&#227;o metafisicamente tristes!   
A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano.   
Pobre gente! pobre gente toda a gente! 

Despe&#231;o-me desta hora no corpo deste outro navio 
Que vai agora saindo. &#201; um tramp-steamer ingl&#234;s, 
Muito sujo, como se fosse um navio franc&#234;s, 
Com um ar simp&#225;tico de prolet&#225;rio dos mares, 
E sem d&#250;vida anunciado ontem na &#250;ltima p&#225;gina das gazetas. 

Enternece-me o pobre vapor, t&#227;o humilde vai ele e t&#227;o natural. 
Parece ter um certo escr&#250;pulo n&#227;o sei em qu&#234;, ser pessoa honesta, 
Curnpridora duma qualquer esp&#233;cie de deveres. 
L&#225; vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.   
L&#225; vai ele tranq&#252;ilamente, passando por onde as naus estiveram 
Outrora, outrora... 
Para Cardiff?  Para Liverpool?  Para Londres?  N&#227;o tem import&#226;ncia. 
Ele faz o seu dever.  Assim fa&#231;amos n&#243;s o nosso.  Bela vida! 
Boa viagem!  Boa viagem!  
Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor 
De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,  
E restituir-me &#224; vida para olhar para ti e te ver passar.   
Boa viagem!  Boa viagem!  A vida &#233; isto... 

Que aprumo t&#227;o natural, t&#227;o inevitavelmente matutino  
Na tua sa&#237;da do porto de Lisboa, hoje! 
Tenho-te uma afei&#231;&#227;o curiosa e grata por isso... 
Por isso qu&#234;?  Sei l&#225; o que &#233;!... Vai... Passa... 
Com um ligeiro estremecimento, 
(T-t--t --- r ---- t----- r ... ) 
O volante dentro de mim p&#225;ra. 

Passa, lento vapor, passa e n&#227;o fiques... 
Passa de mim, passa da minha vista, 
Vai-te de dentro do meu cora&#231;&#227;o, 
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, 
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... 
Eu quem sou para que chore e interrogue? 
Eu quem sou para que te fale e te ame? 
Eu quem sou para que me perturbe ver-te? 
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, 
Luzem os telhados dos edif&#237;cios do cais, 
Todo o lado de c&#225; da cidade brilha... 
Parte, deixa-me, torna-te 
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e n&#237;tido, 
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto 
Depois ponto vago no horizonte (&#243; minha ang&#250;stia!), 
Ponto cada vez mais vago no horizonte.... 
Nada depois, e s&#243; eu e a minha tristeza, 
E a grande cidade agora cheia de sol 
E a hora real e nua como um cais j&#225; sem navios, 
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira, 
Tra&#231;a um semic&#237;rculo de n&#227;o sei que emo&#231;&#227;o 
No sil&#234;ncio comovido da minh'alma...</description>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 18:45:35 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-05-01</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>&#193;lvaro de Campos
 
Ode Mar&#237;tima
 
Sozinho, no cais deserto, a esta manh&#227; de Ver&#227;o, 
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,  
Olho e contenta-me ver, 
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 
Vem muito longe, n&#237;tido, cl&#225;ssico &#224; sua maneira. 
Deixa no ar distante atr&#225;s de si a orla v&#227; do seu fumo. 
Vem entrando, e a manh&#227; entra com ele, e no rio, 
Aqui, acol&#225;, acorda a vida mar&#237;tima, 
Erguem-se velas, avan&#231;am rebocadores, 
Surgem barcos pequenos de tr&#225;s dos navios que est&#227;o no porto.   
H&#225; uma vaga brisa. 
Mas a minh'alma est&#225; com o que vejo menos,  
Com o paquete que entra, 
Porque ele est&#225; com a Dist&#226;ncia, com a Manh&#227;, 
Com o sentido mar&#237;timo desta Hora, 
Com a do&#231;ura dolorosa que sobe em mim como uma n&#225;usea,  
Como um come&#231;ar a enjoar, mas no esp&#237;rito. 

Olho de longe o paquete, com uma grande independ&#234;ncia de alma,  
E dentro de mim um volante come&#231;a a girar, lentamente, 

Os paquetes que entram de manh&#227; na barra 
Trazem aos meus olhos consigo 
O mist&#233;rio alegre e triste de quem chega e parte. 
Trazem mem&#243;rias de cais afastados e doutros momentos 
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. 
Todo o atracar, todo o largar de navio, 
&#201; &#8212; sinto-o em mim como o meu sangue - 
Inconscientemente simb&#243;lico, terrivelmente 
Amea&#231;ador de significa&#231;&#245;es metaf&#237;sicas 
Que perturbam em mim quem eu fui... 

Ah, todo o cais &#233; uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espa&#231;o 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, n&#227;o sei porqu&#234;, uma ang&#250;stia recente, 
Uma n&#233;voa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas ang&#250;stias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recorda&#231;&#227;o duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha. 

Ah, quem sabe, quem sabe, 
Se n&#227;o parti outrora, antes de mim, 
Dum cais; se n&#227;o deixei, navio ao sol 
Obl&#237;quo da madrugada, 
Uma outra esp&#233;cie de porto? 
Quem sabe se n&#227;o deixei, antes de a hora 
Do mundo exterior como eu o vejo 
Raiar-se para mim, 
Um grande cais cheio de pouca gente, 
Duma grande cidade meio-desperta, 
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopl&#233;tica, 
Tanto quanto isso pode ser fora do Espa&#231;o e do Tempo? 

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, 
Real, vis&#237;vel como cais, cais realmente, 
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado 
Insensivelmente evocado, 
N&#243;s os homens constru&#237;mos 
Os nossos cais de pedra atual sobre &#225;gua verdadeira, 
Que depois de constru&#237;dos se anunciam de repente 
Coisas-Reais, Esp&#237;ritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, 
A certos momentos nossos de sentimento-raiz 
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta 
E, sem que nada se altere, 
Tudo se revela diverso. 

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Na&#231;&#245;es! 
O Grande Cais Anterior, eterno e divino! 
De que porto?  Em que &#225;guas?  E porque penso eu isto? 
Grandes Cais como os outros cais, mas o &#218;nico. 
Cheio como eles de sil&#234;ncios rumorosos nas antemanh&#227;s, 
E desabrochando com as manh&#227;s num ru&#237;do de guindastes 
E chegadas de comboios de mercadorias, 
E sob a nuvem negra e ocasional e leve 
Do fundo das chamin&#233;s das f&#225;bricas pr&#243;ximas 
Que lhe sombreia o ch&#227;o preto de carv&#227;o pequenino que brilha, 
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre &#225;gua sombria. 

Ah, que essencialidade de mist&#233;rio e sentido parados  
Em divino &#234;xtase revelador  
&#192;s horas cor de sil&#234;ncios e ang&#250;stias 
N&#227;o &#233; ponte entre qualquer cais e O Cais! 

Cais negramente refletido nas &#225;guas paradas,  
Bul&#237;cio a bordo dos navios, 
&#211; alma errante e inst&#225;vel da gente que anda embarcada,  
Da gente simb&#243;lica que passa e com quem nada dura,  
Que quando o navio volta ao porto 
H&#225; sempre qualquer altera&#231;&#227;o a bordo! 

&#211; fugas cont&#237;nuas, idas, ebriedade do Diverso!   
Alma eterna dos navegadores e das navega&#231;&#245;es!   
Cascos refletidos devagar nas &#225;guas, 
Quando o navio larga do porto! 
Flutuar como alma da vida, partir como voz, 
V</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 69 - An&#225;lise do poema Tabacaria de &#193;lvaro de Campos</title>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 17:47:57 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <title></title>
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      <pubDate>Mon, 01 May 2006 15:07:47 GMT</pubDate>
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      <title>Epis&#243;dio 68 - Tabacaria, de &#193;lvaro de Campos na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
      <description>            TABACARIA 

      N&#227;o sou nada.
      Nunca serei nada.
      N&#227;o posso querer ser nada.
      &#192; parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

      Janelas do meu quarto,
      Do meu quarto de um dos milh&#245;es do mundo que ningu&#233;m sabe quem &#233;
      (E se soubessem quem &#233;, o que saberiam?),
      Dais para o mist&#233;rio de uma rua cruzada constantemente por gente,
      Para uma rua inacess&#237;vel a todos os pensamentos,
      Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
      Com o mist&#233;rio das coisas por baixo das pedras e dos seres,
      Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
      Com o Destino a conduzir a carro&#231;a de tudo pela estrada de nada.

      Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
      Estou hoje l&#250;cido, como se estivesse para morrer,
      E n&#227;o tivesse mais irmandade com as coisas
      Sen&#227;o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
      A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
      De dentro da minha cabe&#231;a,
      E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

      Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
      Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
      &#192; Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
      E &#224; sensa&#231;&#227;o de que tudo &#233; sonho, como coisa real por dentro.

      Falhei em tudo.
      Como n&#227;o fiz prop&#243;sito nenhum, talvez tudo fosse nada.
      A aprendizagem que me deram,
      Desci dela pela janela das traseiras da casa.
      Fui at&#233; ao campo com grandes prop&#243;sitos.
      Mas l&#225; encontrei s&#243; ervas e &#225;rvores,
      E quando havia gente era igual &#224; outra.
      Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

      Que sei eu do que serei, eu que n&#227;o sei o que sou?
      Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
      E h&#225; tantos que pensam ser a mesma coisa que n&#227;o pode haver tantos!
      G&#234;nio? Neste momento
      Cem mil c&#233;rebros se concebem em sonho g&#234;nios como eu,
      E a hist&#243;ria n&#227;o marcar&#225;, quem sabe?, nem um,
      Nem haver&#225; sen&#227;o estrume de tantas conquistas futuras.
      N&#227;o, n&#227;o creio em mim.
      Em todos os manic&#244;mios h&#225; doidos malucos com tantas certezas!
      Eu, que n&#227;o tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
      N&#227;o, nem em mim...
      Em quantas mansardas e n&#227;o-mansardas do mundo
      N&#227;o est&#227;o nesta hora g&#234;nios-para-si-mesmos sonhando?
      Quantas aspira&#231;&#245;es altas e nobres e l&#250;cidas -
      Sim, verdadeiramente altas e nobres e l&#250;cidas -,
      E quem sabe se realiz&#225;veis,
      Nunca ver&#227;o a luz do sol real nem achar&#227;o ouvidos de gente?
      O mundo &#233; para quem nasce para o conquistar
      E n&#227;o para quem sonha que pode conquist&#225;-lo, ainda que tenha raz&#227;o.
      Tenho sonhado mais que o que Napole&#227;o fez.
      Tenho apertado ao peito hipot&#233;tico mais humanidades do que Cristo,
      Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
      Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
      Ainda que n&#227;o more nela;
      Serei sempre o que n&#227;o nasceu para isso;
      Serei sempre s&#243; o que tinha qualidades;
      Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao p&#233; de uma parede sem porta,
      E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
      E ouviu a voz de Deus num po&#231;o tapado.
      Crer em mim? N&#227;o, nem em nada.
      Derrame-me a Natureza sobre a cabe&#231;a ardente
      O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
      E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou n&#227;o venha.
      Escravos card&#237;acos das estrelas,
      Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
      Mas acordamos e ele &#233; opaco,
      Levantamo-nos e ele &#233; alheio,
      Sa&#237;mos de casa e ele &#233; a terra inteira,
      Mais o sistema solar e a Via L&#225;ctea e o Indefinido.

      (Come chocolates, pequena;
      Come chocolates!
      Olha que n&#227;o h&#225; mais metaf&#237;sica no mundo sen&#227;o chocolates.
      Olha que as religi&#245;es todas n&#227;o ensinam mais que a confeitaria.
      Come, pequena suja, come!
      Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
      Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que &#233; de folha de estanho,
      Deito tudo para o ch&#227;o, como tenho deitado a vida.)

      Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
      A caligrafia r&#225;pida destes versos,
      P&#243;rtico partido para o Imposs&#237;vel.
      Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem l&#225;grimas,
      Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
      A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
      E fico em casa sem camisa.

      (Tu que consolas, que n&#227;o existes e por isso consolas,
      Ou deusa grega, concebida como est&#225;tua que fosse viva,
      Ou patr&#237;cia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
      Ou princesa de trovadores, gentil&#237;ssima e colorida,
      Ou marquesa do s&#233;culo dezoito, decotada e long&#237;nqua,
      Ou cocote c&#233;lebre do tempo dos nossos pais,
      Ou n&#227;o sei qu&#234; moderno - n&#227;o concebo bem o qu&#234; -
      Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
      Meu cora&#231;&#227;o &#233; um balde despejado.
      Como os que invocam esp&#237;ritos invocam esp&#237;ritos invoco
      A mim mesmo e n&#227;o encontro nada.
      Chego &#224; janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
      Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
      Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
      Vejo os c&#227;es que tamb&#233;m existem,
      E tudo isto me pesa como uma condena&#231;&#227;o ao degredo,
      E tudo isto &#233; estrangeiro, como tudo.)

      Vivi, estudei, amei e at&#233; cri,
      E hoje n&#227;o h&#225; mendigo que eu n&#227;o inveje s&#243; por n&#227;o ser eu.
      Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
      E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
      (Porque &#233; poss&#237;vel fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
      Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
      E que &#233; rabo para aqu&#233;m do lagarto remexidamente

      Fiz de mim o que n&#227;o soube
      E o que podia fazer de mim n&#227;o o fiz.
      O domin&#243; que vesti era errado.
      Conheceram-me logo por quem n&#227;o era e n&#227;o desmenti, e perdi-me.
      Quando quis tirar a m&#225;scara,
      Estava pegada &#224; cara.
      Quando a tirei e me vi ao espelho,
      J&#225; tinha envelhecido.
      Estava b&#234;bado, j&#225; n&#227;o sabia vestir o domin&#243; que n&#227;o tinha tirado.
      Deitei fora a m&#225;scara e dormi no vesti&#225;rio
      Como um c&#227;o tolerado pela ger&#234;ncia
      Por ser inofensivo
      E vou escrever esta hist&#243;ria para provar que sou sublime.

      Ess&#234;ncia musical dos meus versos in&#250;teis,
      Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
      E n&#227;o ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
      Calcando aos p&#233;s a consci&#234;ncia de estar existindo,
      Como um tapete em que um b&#234;bado trope&#231;a
      Ou um capacho que os ciganos roubaram e n&#227;o valia nada.

      Mas o Dono da Tabacaria chegou &#224; porta e ficou &#224; porta.
      Olho-o com o deconforto da cabe&#231;a mal voltada
      E com o desconforto da alma mal-entendendo.
      Ele morrer&#225; e eu morrerei.
      Ele deixar&#225; a tabuleta, eu deixarei os versos.
      A certa altura morrer&#225; a tabuleta tamb&#233;m, os versos tamb&#233;m.
      Depois de certa altura morrer&#225; a rua onde esteve a tabuleta,
      E a l&#237;ngua em que foram escritos os versos.
      Morrer&#225; depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
      Em outros sat&#233;lites de outros sistemas qualquer coisa como gente
      Continuar&#225; fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

      Sempre uma coisa defronte da outra,
      Sempre uma coisa t&#227;o in&#250;til como a outra,
      Sempre o imposs&#237;vel t&#227;o est&#250;pido como o real,
      Sempre o mist&#233;rio do fundo t&#227;o certo como o sono de mist&#233;rio da superf&#237;cie,
      Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

      Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
      E a realidade plaus&#237;vel cai de repente em cima de mim.
      Semiergo-me en&#233;rgico, convencido, humano,
      E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contr&#225;rio.

      Acendo um cigarro ao pensar em escrev&#234;-los
      E saboreio no cigarro a liberta&#231;&#227;o de todos os pensamentos.
      Sigo o fumo como uma rota pr&#243;pria,
      E gozo, num momento sensitivo e competente,
      A liberta&#231;&#227;o de todas as especula&#231;&#245;es
      E a consci&#234;ncia de que a metaf&#237;sica &#233; uma consequ&#234;ncia de estar mal disposto.

      Depois deito-me para tr&#225;s na cadeira
      E continuo fumando.
      Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

      (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
      Talvez fosse feliz.)
      Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou &#224; janela.
      O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das cal&#231;as?).
      Ah, conhe&#231;o-o; &#233; o Esteves sem metaf&#237;sica.
      (O Dono da Tabacaria chegou &#224; porta.)
      Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
      Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus &#243; Esteves!, e o universo
      Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperan&#231;a, e o Dono da Tabacaria sorriu.

          &#193;lvaro de Campos, 15-1-1928 

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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:54:59 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>            TABACARIA 

      N&#227;o sou nada.
      Nunca serei nada.
      N&#227;o posso querer ser nada.
      &#192; parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

      Janelas do meu quarto,
      Do meu quarto de um dos milh&#245;es do mundo que ningu&#233;m sabe quem &#233;
      (E se soubessem quem &#233;, o que saberiam?),
      Dais para o mist&#233;rio de uma rua cruzada constantemente por gente,
      Para uma rua inacess&#237;vel a todos os pensamentos,
      Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
      Com o mist&#233;rio das coisas por baixo das pedras e dos seres,
      Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
      Com o Destino a conduzir a carro&#231;a de tudo pela estrada de nada.

      Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
      Estou hoje l&#250;cido, como se estivesse para morrer,
      E n&#227;o tivesse mais irmandade com as coisas
      Sen&#227;o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
      A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
      De dentro da minha cabe&#231;a,
      E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

      Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
      Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
      &#192; Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
      E &#224; sensa&#231;&#227;o de que tudo &#233; sonho, como coisa real por dentro.

      Falhei em tudo.
      Como n&#227;o fiz prop&#243;sito nenhum, talvez tudo fosse nada.
      A aprendizagem que me deram,
      Desci dela pela janela das traseiras da casa.
      Fui at&#233; ao campo com grandes prop&#243;sitos.
      Mas l&#225; encontrei s&#243; ervas e &#225;rvores,
      E quando havia gente era igual &#224; outra.
      Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

      Que sei eu do que serei, eu que n&#227;o sei o que sou?
      Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
      E h&#225; tantos que pensam ser a mesma coisa que n&#227;o pode haver tantos!
      G&#234;nio? Neste momento
      Cem mil c&#233;rebros se concebem em sonho g&#234;nios como eu,
      E a hist&#243;ria n&#227;o marcar&#225;, quem sabe?, nem um,
      Nem haver&#225; sen&#227;o estrume de tantas conquistas futuras.
      N&#227;o, n&#227;o creio em mim.
      Em todos os manic&#244;mios h&#225; doidos malucos com tantas certezas!
      Eu, que n&#227;o tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
      N&#227;o, nem em mim...
      Em quantas mansardas e n&#227;o-mansardas do mundo
      N&#227;o est&#227;o nesta hora g&#234;nios-para-si-mesmos sonhando?
      Quantas aspira&#231;&#245;es altas e nobres e l&#250;cidas -
      Sim, verdadeiramente altas e nobres e l&#250;cidas -,
      E quem sabe se realiz&#225;veis,
      Nunca ver&#227;o a luz do sol real nem achar&#227;o ouvidos de gente?
      O mundo &#233; para quem nasce para o conquistar
      E n&#227;o para quem sonha que pode conquist&#225;-lo, ainda que tenha raz&#227;o.
      Tenho sonhado mais que o que Napole&#227;o fez.
      Tenho apertado ao peito hipot&#233;tico mais humanidades do que Cristo,
      Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
      Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
      Ainda que n&#227;o more nela;
      Serei sempre o que n&#227;o nasceu para isso;
      Serei sempre s&#243; o que tinha qualidades;
      Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao p&#233; de uma parede sem porta,
      E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
      E ouviu a voz de Deus num po&#231;o tapado.
      Crer em mim? N&#227;o, nem em nada.
      Derrame-me a Natureza sobre a cabe&#231;a ardente
      O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
      E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou n&#227;o venha.
      Escravos card&#237;acos das estrelas,
      Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
      Mas acordamos e ele &#233; opaco,
      Levantamo-nos e ele &#233; alheio,
      Sa&#237;mos de casa e ele &#233; a terra inteira,
      Mais o sistema solar e a Via L&#225;ctea e o Indefinido.

      (Come chocolates, pequena;
      Come chocolates!
      Olha que n&#227;o h&#225; mais metaf&#237;sica no mundo sen&#227;o chocolates.
      Olha que as religi&#245;es todas n&#227;o ensinam mais que a confeitaria.
      Come, peque</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 68 - An&#225;lise do poema Lisboa Revisited de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632505.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Pintura de Jais Nielsen, Sa&#237;da, 1918</description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:38:22 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-17</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-25</dcterms:created>
      <link>http://discursodirecto.podOmatic.com</link>
      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 67 - Lisboa Revisited , de &#193;lvaro de Campos, na voz de Jo&#227;o Grosso </title>
      <description>Lisbon revisited (1926), de &#193;lvaro de Campos

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma ang&#250;stia de fome de carne
O que n&#227;o sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necess&#225;rias.
Correram cortinas de todas as hip&#243;teses que eu poderia ver da rua.
N&#227;o h&#225; na travessa achada o n&#250;mero da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
At&#233; os meus ex&#233;rcitos sonhados sofreram derrota.
At&#233; os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
At&#233; a vida s&#243; desejada me farta - at&#233; essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansa&#231;o;
E um t&#233;dio que &#233; at&#233; do t&#233;dio arroja-me &#224; praia.
N&#227;o sei que destino ou futuro compete &#224; minha ang&#250;stia sem leme;
N&#227;o sei que ilhas do sul imposs&#237;vel aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me dar&#227;o ao menos um verso.

N&#227;o, n&#227;o sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu esp&#237;rito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos &#250;ltimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado &#233; uma n&#233;voa natural de l&#225;grimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas long&#237;nquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, &#250;ltimos restos
Da ilus&#227;o final,
Os meus ex&#233;rcitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha inf&#227;ncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma s&#233;rie de contas-entes ligados por um fio-mem&#243;ria,
Uma s&#233;rie de sonhos de mim de algu&#233;m de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o cora&#231;&#227;o mais long&#237;nquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte in&#250;til de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recorda&#231;&#245;es,
Ao ru&#237;do dos ratos e das t&#225;buas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa atrav&#233;s das sombras, e brilha
Um momento a uma luz f&#250;nebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na &#225;gua que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim n&#227;o me revejo!
Partiu-se o espelho m&#225;gico em que me revia id&#234;ntico,
E em cada fragmento fat&#237;dico vejo s&#243; um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!... </description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:27:40 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
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      <link>http://discursodirecto.podOmatic.com</link>
      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Lisbon revisited (1926), de &#193;lvaro de Campos

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma ang&#250;stia de fome de carne
O que n&#227;o sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necess&#225;rias.
Correram cortinas de todas as hip&#243;teses que eu poderia ver da rua.
N&#227;o h&#225; na travessa achada o n&#250;mero da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
At&#233; os meus ex&#233;rcitos sonhados sofreram derrota.
At&#233; os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
At&#233; a vida s&#243; desejada me farta - at&#233; essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansa&#231;o;
E um t&#233;dio que &#233; at&#233; do t&#233;dio arroja-me &#224; praia.
N&#227;o sei que destino ou futuro compete &#224; minha ang&#250;stia sem leme;
N&#227;o sei que ilhas do sul imposs&#237;vel aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me dar&#227;o ao menos um verso.

N&#227;o, n&#227;o sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu esp&#237;rito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos &#250;ltimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado &#233; uma n&#233;voa natural de l&#225;grimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas long&#237;nquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, &#250;ltimos restos
Da ilus&#227;o final,
Os meus ex&#233;rcitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha inf&#227;ncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma s&#233;rie de contas-entes ligados por um fio-mem&#243;ria,
Uma s&#233;rie de sonhos de mim de algu&#233;m de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o cora&#231;&#227;o mais long&#237;nquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte in&#250;til de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recorda&#231;&#245;es,
Ao ru&#237;do dos ratos e das t&#225;buas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa atrav&#233;s das sombras, e brilha
Um momento a uma luz f&#250;nebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na &#225;gua que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim n&#227;o me revejo!
Partiu-se o espelho m&#225;gico em que me revia id&#234;ntico,
E em cada fragmento fat&#237;dico vejo s&#243; um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!... </itunes:summary>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 66 - An&#225;lise do poema Ode Triunfal de &#193;lvaro de Campos</title>
      <description>Ode Triunfal,  de &#193;lvaro de Campos

&#192; dolorosa luz das grandes l&#226;mpadas el&#233;ctricas da f&#225;brica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

&#211; rodas, &#243; engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em f&#250;ria! 
Em f&#250;ria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os l&#225;bios secos, &#243; grandes ru&#237;dos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabe&#231;a de vos querer cantar com um excesso 
De express&#227;o de todas as minhas sensa&#231;&#245;es, 
Com um excesso contempor&#226;neo de v&#243;s, &#243; m&#225;quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes tr&#243;picos humanos de ferro e fogo e for&#231;a -
Canto, e canto o presente, e tamb&#233;m o passado e o futuro, 
Porque o presente &#233; todo o passado e todo o futuro
E h&#225; Plat&#227;o e Virg&#237;lio dentro das m&#225;quinas e das luzes el&#233;ctricas 
S&#243; porque houve outrora e foram humanos Virg&#237;lio e Plat&#227;o,
E peda&#231;os do Alexandre Magno do s&#233;culo talvez cinquenta,
&#193;tomos que h&#227;o-de ir ter febre para o c&#233;rebro do &#201;squilo do s&#233;culo cem,
Andam por estas correias de transmiss&#227;o e por estes &#234;mbolos e por estes volantes, 
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de car&#237;cias ao corpo numa s&#243; car&#237;cia &#224; alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma m&#225;quina! 
Poder ir na vida triunfante como um autom&#243;vel &#250;ltimo-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de &#243;leos e calores e carv&#245;es 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaci&#225;vel!

Fraternidade com todas as din&#226;micas!
Prom&#237;scua f&#250;ria de ser parte-agente
Do rodar f&#233;rreo e cosmopolita
Dos comboios estr&#233;nuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro l&#250;brico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das f&#225;bricas,
E do quase-sil&#234;ncio ciciante e mon&#243;tono das correias de transmiss&#227;o!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres &#250;teis!
Grandes cidades paradas nos caf&#233;s,
Nos caf&#233;s - o&#225;sis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do &#218;til
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas &#224;s docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatl&#226;ntica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hot&#233;is,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Op&#233;ra que entram
Pela minh'alma dentro!

H&#233;-l&#225; as ruas, h&#233;-l&#225; as pra&#231;as, h&#233;-l&#225;-h&#244; la foule!
Tudo o que passa, tudo o que p&#225;ra &#224;s montras!
Comerciantes; v&#225;rios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocr&#225;ticos;
Esqu&#225;lidas figuras d&#250;bias; chefes de fam&#237;lia vagamente felizes 
E paternais at&#233; na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presen&#231;a demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o qu&#234; por dentro?) 
Das burguesinhas, m&#227;e e filha geralmente, 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A gra&#231;a feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma l&#225; dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrup&#231;&#245;es pol&#237;ticas, 
Deliciosos esc&#226;ndalos financeiros e diplom&#225;ticos, 
Agress&#245;es pol&#237;ticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regic&#237;dio 
Que ilumina de Prod&#237;gio e Fanfarra os c&#233;us 
Usuais e l&#250;cidos da Civiliza&#231;&#227;o quotidiana!

Not&#237;cias desmentidas dos jornais, 
Artigos pol&#237;ticos insinceramente sinceros, 
Not&#237;cias passez &#224;-la-caisse, grandes crimes - 
Duas colunas deles passando para a segunda p&#225;gina! 
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos h&#225; pouco, molhados! 
Vients-de-para&#238;tre amarelos como uma cinta branca! 
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, 
Como eu vos amo de todas as maneiras, 
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto 
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) 
E com a intelig&#234;ncia como uma antena que fazeis vibrar! 
Ah, como todos os meus sentidos t&#234;m cio de v&#243;s!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! 
Qu&#237;mica agr&#237;cola, e o com&#233;rcio quase uma ci&#234;ncia! 
&#211; mostru&#225;rios dos caixeiros-viajantes, 
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Ind&#250;stria, 
Prolongamentos humanos das f&#225;bricas e dos calmos escrit&#243;rios!

&#211; fazendas nas montras! &#211; manequins! &#211; &#250;ltimos figurinos!
&#211; artigos in&#250;teis que toda a gente quer comprar!
Ol&#225; grandes armaz&#233;ns com v&#225;rias sec&#231;&#245;es!
Ol&#225; an&#250;ncios el&#233;ctricos que v&#234;m e est&#227;o e desaparecem!
Ol&#225; tudo com que hoje se constr&#243;i, com que hoje se &#233; diferente de ontem! 
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! 
Progressos dos armamentos gloriosamente mort&#237;feros! 
Coura&#231;as, canh&#245;es, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! 
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. 
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista 
Em v&#243;s, &#243; coisas grandes, banais, &#250;teis, in&#250;teis, 
&#211; coisas todas modernas, 
&#211; minhas contempor&#226;neas, forma actual e pr&#243;xima 
Do sistema imediato do Universo! 
Nova Revela&#231;&#227;o met&#225;lica e din&#226;mica de Deus!

&#211; f&#225;bricas, &#243; laborat&#243;rios, &#243; music-halls, &#243; Luna-Parks, 
&#211; coura&#231;ados, &#243; pontes, &#243; docas flutuantes - 
Na minha mente turbulenta e encandescida 
Possuo-vos como a uma mulher bela, 
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que n&#227;o se ama, 
Que se encontra casualmente e se acha interessant&#237;ssima.

Eh-l&#225;-h&#244; fachadas das grandes lojas! 
Eh-l&#225;-h&#244; elevadores dos grandes edif&#237;cios! 
Eh-l&#225;-h&#244; recomposi&#231;&#245;es ministeriais! 
Parlamentos, pol&#237;ticas, relatores de or&#231;amentos, 
Or&#231;amentos falsificados! 
(Um or&#231;amento &#233; t&#227;o natural como uma &#225;rvore 
E um parlamento t&#227;o belo como uma borboleta).

Eh-l&#225; o interesse por tudo na vida,
Porque tudo &#233; a vida, desde os brilhantes nas montras
At&#233; &#224; noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo 
Que era quando Plat&#227;o era realmente Plat&#227;o 
Na sua presen&#231;a real e na sua carne com a alma dentro, 
E falava com Arist&#243;teles, que havia de n&#227;o ser disc&#237;pulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor 
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possu&#237;da. 
Atirem-me para dentro das fornalhas! 
Metam-me debaixo dos comboios! 
Espanquem-me a bordo de navios! 
Masoquismo atrav&#233;s de maquinismos! 
Sadismo de n&#227;o sei qu&#234; moderno e eu e barulho!

Up-l&#225; h&#244; jockey que ganhaste o Derby, 
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser t&#227;o alto que n&#227;o pudesse entrar por nenhuma porta! 
Ah, olhar &#233; em mim uma pervers&#227;o sexual!)

Eh-l&#225;, eh-l&#225;, eh-l&#225;, catedrais! 
Deixai-me partir a cabe&#231;a de encontro &#224;s vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue 
Sem ningu&#233;m saber quem eu sou!

&#211; tramways, funiculares, metropolitanos, 
Ro&#231;ai-vos por mim at&#233; ao espasmo! 
Hilla! hilla! hilla-h&#244;! 
Dai-me gargalhadas em plena cara, 
&#211; autom&#243;veis apinhados de p&#226;ndegos e de..., 
&#211; multid&#245;es quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, 
Rio multicolor an&#243;nimo e onde eu me posso banhar como quereria! 
Ah, que vidas complexas, que coisas l&#225; pelas casas de tudo isto! 
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, 
As dissens&#245;es dom&#233;sticas, os deboches que n&#227;o se suspeitam, 
Os pensamentos que cada um tem a s&#243;s consigo no seu quarto 
E os gestos que faz quando ningu&#233;m pode ver! 
N&#227;o saber tudo isto &#233; ignorar tudo, &#243; raiva, 
&#211; raiva que como uma febre e um cio e uma fome 
Me p&#245;e a magro o rosto e me agita &#224;s vezes as m&#227;os 
Em crispa&#231;&#245;es absurdas em pleno meio das turbas 
Nas ruas cheias de encontr&#245;es!

Ah, e a gente ordin&#225;ria e suja, que parece sempre a mesma, 
Que emprega palavr&#245;es como palavras usuais, 
Cujos filhos roubam &#224;s portas das mercearias 
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos v&#227;os de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa 
Por vielas quase irreais de estreiteza e podrid&#227;o.
Maravilhosamente gente humana que vive como os c&#227;es 
Que est&#225; abaixo de todos os sistemas morais, 
Para quem nenhuma religi&#227;o foi feita, 
Nenhuma arte criada, 
Nenhuma pol&#237;tica destinada para eles! 
Como eu vos amo a todos, porque sois assim, 
Nem imorais de t&#227;o baixos que sois, nem bons nem maus, 
Inating&#237;veis por todos os progressos, 
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda &#224; roda, anda &#224; roda,
E o mist&#233;rio do mundo &#233; do tamanho disto.
Limpa o suor com o bra&#231;o, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o sil&#234;ncio das esferas
E havemos todos de morrer,
&#211; pinheirais sombrios ao crep&#250;sculo,
Pinheirais onde a minha inf&#226;ncia era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mec&#226;nica constante!
Outra vez a obsess&#227;o movimentada dos &#243;nibus.
E outra vez a f&#250;ria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas est&#227;o levantando ferro ou afastando-se das docas. 
&#211; ferro, &#243; a&#231;o, &#243; alum&#237;nio, &#243; chapas de ferro ondulado! 
&#211; cais, &#243; portos, &#243; comboios, &#243; guindastes, &#243; rebocadores!

Eh-l&#225; grandes desastres de comboios! 
Eh-l&#225; desabamentos de galerias de minas! 
Eh-l&#225; naufr&#225;gios deliciosos dos grandes transatl&#226;nticos! 
Eh-l&#225;-h&#244; revolu&#231;&#245;es aqui, ali, acol&#225;, 
Altera&#231;&#245;es de constitui&#231;&#245;es, guerras, tratados, invas&#245;es, 
Ru&#237;do, injusti&#231;as, viol&#234;ncias, e talvez para breve o fim, 
A grande invas&#227;o dos b&#225;rbaros amarelos pela Europa, 
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto 
Ao f&#250;lgido e rubro ru&#237;do contempor&#226;neo, 
Ao ru&#237;do cruel e delicioso da civiliza&#231;&#227;o de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, 
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, 
O Momento estridentemente ruidoso e mec&#226;nico, 
O Momento din&#226;mico passagem de todas as bacantes 
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hot&#233;is &#224; hora do jantar, 
Eia aparelhos de todas as esp&#233;cies, f&#233;rreos, brutos, m&#237;nimos, 
Instrumentos de precis&#227;o, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, m&#225;quinas rotativas!

Eia! eia! eia! 
Eia electricidade, nervos doentes da Mat&#233;ria! 
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia met&#225;lica do Inconsciente! 
Eia t&#250;neis, eia canais, Panam&#225;, Kiel, Suez! 
Eia todo o passado dentro do presente! 
Eia todo o futuro j&#225; dentro de n&#243;s! eia! 
Eia! eia! eia! 
Frutos de ferro e &#250;til da &#225;rvore-f&#225;brica cosmopolita! 
Eia! eia! eia! eia-h&#244;-&#244;-&#244;! 
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. 
Engatam-me em todos os comboios. 
I&#231;am-me em todos os cais. 
Giro dentro das h&#233;lices de todos os navios. 
Eia! eia-h&#244;! eia! 
Eia! sou o calor mec&#226;nico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de m&#225;quinas e a Europa! 
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, m&#225;quinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-l&#225;!

Hup-l&#225;, hup-l&#225;, hup-l&#225;-h&#244;, hup-l&#225;! 
H&#233;-la! He-h&#244;! H-o-o-o-o! 
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah n&#227;o ser eu toda a gente e toda a parte!

                        Londres, 1914 - Junho. </description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 22:15:59 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ode Triunfal,  de &#193;lvaro de Campos

&#192; dolorosa luz das grandes l&#226;mpadas el&#233;ctricas da f&#225;brica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

&#211; rodas, &#243; engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em f&#250;ria! 
Em f&#250;ria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os l&#225;bios secos, &#243; grandes ru&#237;dos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabe&#231;a de vos querer cantar com um excesso 
De express&#227;o de todas as minhas sensa&#231;&#245;es, 
Com um excesso contempor&#226;neo de v&#243;s, &#243; m&#225;quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes tr&#243;picos humanos de ferro e fogo e for&#231;a -
Canto, e canto o presente, e tamb&#233;m o passado e o futuro, 
Porque o presente &#233; todo o passado e todo o futuro
E h&#225; Plat&#227;o e Virg&#237;lio dentro das m&#225;quinas e das luzes el&#233;ctricas 
S&#243; porque houve outrora e foram humanos Virg&#237;lio e Plat&#227;o,
E peda&#231;os do Alexandre Magno do s&#233;culo talvez cinquenta,
&#193;tomos que h&#227;o-de ir ter febre para o c&#233;rebro do &#201;squilo do s&#233;culo cem,
Andam por estas correias de transmiss&#227;o e por estes &#234;mbolos e por estes volantes, 
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de car&#237;cias ao corpo numa s&#243; car&#237;cia &#224; alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma m&#225;quina! 
Poder ir na vida triunfante como um autom&#243;vel &#250;ltimo-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de &#243;leos e calores e carv&#245;es 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaci&#225;vel!

Fraternidade com todas as din&#226;micas!
Prom&#237;scua f&#250;ria de ser parte-agente
Do rodar f&#233;rreo e cosmopolita
Dos comboios estr&#233;nuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro l&#250;brico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das f&#225;bricas,
E do quase-sil&#234;ncio ciciante e mon&#243;tono das correias de transmiss&#227;o!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres &#250;teis!
Grandes cidades paradas nos caf&#233;s,
Nos caf&#233;s - o&#225;sis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do &#218;til
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas &#224;s docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatl&#226;ntica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hot&#233;is,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Op&#233;ra que entram
Pela minh'alma dentro!

H&#233;-l&#225; as ruas, h&#233;-l&#225; as pra&#231;as, h&#233;-l&#225;-h&#244; la foule!
Tudo o que passa, tudo o que p&#225;ra &#224;s montras!
Comerciantes; v&#225;rios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocr&#225;ticos;
Esqu&#225;lidas figuras d&#250;bias; chefes de fam&#237;lia vagamente felizes 
E paternais at&#233; na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presen&#231;a demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o qu&#234; por dentro?) 
Das burguesinhas, m&#227;e e filha geralmente, 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A gra&#231;a feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma l&#225; dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrup&#231;&#245;es pol&#237;ticas, 
Deliciosos esc&#226;ndalos financeiros e diplom&#225;ticos, 
Agress&#245;es pol&#237;ticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regic&#237;dio 
Que ilumina de Prod&#237;gio e Fanfarra os c&#233;us 
Usuais e l&#250;cidos da Civiliza&#231;&#227;o quotidiana!

Not&#237;cias desmentidas dos jornais, 
Artigos pol&#237;ticos insinceramente sinceros, 
N</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio  65 - Manifesto do Futurismo de Filippo T. Marinetti</title>
      <description>MANIFESTO FUTURISTA (Publicado em 20 de Fevereiro de 1909, no &#8220;Le F&#237;garo&#8221;)

1. N&#243;s queremos cantar o amor ao perigo, o h&#225;bito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a aud&#225;cia, a rebeli&#227;o ser&#227;o elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou at&#233; hoje a imobilidade pensativa, o &#234;xtase, o sono. N&#243;s queremos exaltar o movimento agressivo, a ins&#243;nia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofet&#227;o e o soco.

4. N&#243;s afirmamos que a magnific&#234;ncia do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um autom&#243;vel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de h&#225;lito explosivo... um autom&#243;vel rugidor, que parece correr sobre a metralha, &#233; mais bonito que a Vit&#243;ria de Samotr&#225;cia.

5. N&#243;s queremos glorificar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lan&#231;ada tamb&#233;m numa corrida sobre o circuito da sua &#243;rbita.

6. &#201; preciso que o poeta prodigalize com ardor, esfor&#231;o e liberdade, para aumentar o entusi&#225;stico fervor dos elementos primordiais.

7. N&#227;o h&#225; mais beleza, a n&#227;o ser na luta. Nenhuma obra que n&#227;o tenha um car&#225;cter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as for&#231;as desconhecidas, para obrig&#225;-las a prostrar-se diante do homem.

8. N&#243;s estamos no promont&#243;rio extremo dos s&#233;culos!... Por que haver&#237;amos de olhar para tr&#225;s, se queremos arrombar as misteriosas portas do Imposs&#237;vel? O Tempo e o Espa&#231;o morreram ontem. J&#225; estamos vivendo no absoluto, pois j&#225; criamos a eterna velocidade omnipotente.

9. Queremos glorificar a guerra &#8211; &#250;nica higiene do mundo &#8211;, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libert&#225;rios, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda a vileza oportunista e utilit&#225;ria.

11. Cantaremos as grandes multid&#245;es agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela subleva&#231;&#227;o; cantaremos as mar&#233;s multicores e polif&#243;nicas das revolu&#231;&#245;es nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas lutas el&#233;ctricas; as esta&#231;&#245;es esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as f&#225;bricas penduradas nas nuvens pelos fios contorcidos de suas fuma&#231;as; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os pir&#243;scafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de a&#231;o enleados de carros; e o voo rasante dos avi&#245;es, cuja h&#233;lice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multid&#227;o entusiasta. 

Filippo T. Marinetti</description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 09:42:36 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>MANIFESTO FUTURISTA (Publicado em 20 de Fevereiro de 1909, no &#8220;Le F&#237;garo&#8221;)

1. N&#243;s queremos cantar o amor ao perigo, o h&#225;bito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a aud&#225;cia, a rebeli&#227;o ser&#227;o elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou at&#233; hoje a imobilidade pensativa, o &#234;xtase, o sono. N&#243;s queremos exaltar o movimento agressivo, a ins&#243;nia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofet&#227;o e o soco.

4. N&#243;s afirmamos que a magnific&#234;ncia do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um autom&#243;vel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de h&#225;lito explosivo... um autom&#243;vel rugidor, que parece correr sobre a metralha, &#233; mais bonito que a Vit&#243;ria de Samotr&#225;cia.

5. N&#243;s queremos glorificar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lan&#231;ada tamb&#233;m numa corrida sobre o circuito da sua &#243;rbita.

6. &#201; preciso que o poeta prodigalize com ardor, esfor&#231;o e liberdade, para aumentar o entusi&#225;stico fervor dos elementos primordiais.

7. N&#227;o h&#225; mais beleza, a n&#227;o ser na luta. Nenhuma obra que n&#227;o tenha um car&#225;cter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as for&#231;as desconhecidas, para obrig&#225;-las a prostrar-se diante do homem.

8. N&#243;s estamos no promont&#243;rio extremo dos s&#233;culos!... Por que haver&#237;amos de olhar para tr&#225;s, se queremos arrombar as misteriosas portas do Imposs&#237;vel? O Tempo e o Espa&#231;o morreram ontem. J&#225; estamos vivendo no absoluto, pois j&#225; criamos a eterna velocidade omnipotente.

9. Queremos glorificar a guerra &#8211; &#250;nica higiene do mundo &#8211;, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libert&#225;rios, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda a vileza oportunista e utilit&#225;ria.

11. Cantaremos as grandes multid&#245;es agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela subleva&#231;&#227;o; cantaremos as mar&#233;s multicores e polif&#243;nicas das revolu&#231;&#245;es nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas lutas el&#233;ctricas; as esta&#231;&#245;es esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as f&#225;bricas penduradas nas nuvens pelos fios contorcidos de suas fuma&#231;as; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os pir&#243;scafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de a&#231;o enleados de carros; e o voo rasante dos avi&#245;es, cuja h&#233;lice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multid&#227;o entusiasta. 

Filippo T. Marinetti</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 64 - &#193;lvaro de Campos - Poeta sensacionista e por vezes escandaloso</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632506.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 09:33:59 GMT</pubDate>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 63 - An&#225;lise do poema &amp;quot;Padr&#227;o&amp;quot; inserido na 3&#170; Parte da Mensagem de Fernando Pessoa</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_793555.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Padr&#227;o

O esfor&#231;o &#233; grande e o homem &#233; pequeno
Eu, Diogo C&#227;o, navegador, deixei
este padr&#227;o ao p&#233; do areal moreno
e para deante naveguei.

 
A alma &#233; divina e a obra &#233; imperfeita.
Este padr&#227;o signala ao vento e aos c&#233;us
Que, da obra ousada, &#233; minha a parte feita:
O por fazer &#233; s&#243; com Deus.

 
E ao immenso e poss&#237;vel oceano
Ensinam estas quinas, que aqui v&#234;s,
Que o mar com fim ser&#225; grego ou romano:
O mar sem fim &#233; portuguez.
 
E a Cruz ao alto diz que o que me h&#225; na alma
E faz a febre em mim de navegar
S&#243; encontrar&#225; de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar. 

in Mensagem, Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Tue, 25 Apr 2006 08:50:37 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-18</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Padr&#227;o

O esfor&#231;o &#233; grande e o homem &#233; pequeno
Eu, Diogo C&#227;o, navegador, deixei
este padr&#227;o ao p&#233; do areal moreno
e para deante naveguei.

 
A alma &#233; divina e a obra &#233; imperfeita.
Este padr&#227;o signala ao vento e aos c&#233;us
Que, da obra ousada, &#233; minha a parte feita:
O por fazer &#233; s&#243; com Deus.

 
E ao immenso e poss&#237;vel oceano
Ensinam estas quinas, que aqui v&#234;s,
Que o mar com fim ser&#225; grego ou romano:
O mar sem fim &#233; portuguez.
 
E a Cruz ao alto diz que o que me h&#225; na alma
E faz a febre em mim de navegar
S&#243; encontrar&#225; de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar. 

in Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 62 - &#193;lvaro de Campos - o filho indisciplinado da sensa&#231;&#227;o</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632508.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Texto adapatado do Manual Plural 12&#186; ano, Lisboa Editora</description>
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      <pubDate>Sat, 22 Apr 2006 00:13:02 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-22</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Texto adapatado do Manual Plural 12&#186; ano, Lisboa Editora</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 61 - S&#237;ntese das caracter&#237;sticas da poesia de Alberto Caeiro</title>
      <description>Objectivismo 
- apagamento do sujeito
- atitude antil&#237;rica
- aten&#231;&#227;o &#224; "eterna novidade do mundo"
- integra&#231;&#227;o e comunh&#227;o com a Natureza
- poeta da natureza
- poeta deambulat&#243;rio
  
      Sensacionismo 
- poeta das sensa&#231;&#245;es tais como s&#227;o
- poeta do olhar
- predom&#237;nio das sensa&#231;&#245;es visuais e das auditivas
- o "Argonauta das sensa&#231;&#245;es verdadeiras"
 
      Antimetaf&#237;sico 
- recusa do pensamento ( Pensar &#233; estar doente dos olhos)
- recusa do mist&#233;rio
- recusa do misticismo

      Painte&#237;smo naturalista 
- tudo &#233; Deus as coisas s&#227;o divinas 
      Paganismo
 - desvaloriza&#231;&#227;o do tempo enquanto categoria conceptual (N&#227;o quero incluir o tempo no meu esquema)
Contradi&#231;&#227;o entre a teoria e a pr&#225;tica 

Caracter&#237;sticas estil&#237;sticas
      Verso livre, m&#233;trica irregular
      Despreocupa&#231;&#227;o a n&#237;vel f&#243;nico
      Pobreza lexical - linguagem simples, familiar
      Adjectiva&#231;&#227;o objectivo
      Pontua&#231;&#227;o l&#243;gica
      Predom&#237;nio do presente do indicativo
      Frases simples
      Predom&#237;nio da coordena&#231;&#227;o
      Compara&#231;&#245;es simples e raras met&#225;foras </description>
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      <pubDate>Fri, 21 Apr 2006 23:53:38 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-21</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Objectivismo 
- apagamento do sujeito
- atitude antil&#237;rica
- aten&#231;&#227;o &#224; "eterna novidade do mundo"
- integra&#231;&#227;o e comunh&#227;o com a Natureza
- poeta da natureza
- poeta deambulat&#243;rio
  
      Sensacionismo 
- poeta das sensa&#231;&#245;es tais como s&#227;o
- poeta do olhar
- predom&#237;nio das sensa&#231;&#245;es visuais e das auditivas
- o "Argonauta das sensa&#231;&#245;es verdadeiras"
 
      Antimetaf&#237;sico 
- recusa do pensamento ( Pensar &#233; estar doente dos olhos)
- recusa do mist&#233;rio
- recusa do misticismo

      Painte&#237;smo naturalista 
- tudo &#233; Deus as coisas s&#227;o divinas 
      Paganismo
 - desvaloriza&#231;&#227;o do tempo enquanto categoria conceptual (N&#227;o quero incluir o tempo no meu esquema)
Contradi&#231;&#227;o entre a teoria e a pr&#225;tica 

Caracter&#237;sticas estil&#237;sticas
      Verso livre, m&#233;trica irregular
      Despreocupa&#231;&#227;o a n&#237;vel f&#243;nico
      Pobreza lexical - linguagem simples, familiar
      Adjectiva&#231;&#227;o objectivo
      Pontua&#231;&#227;o l&#243;gica
      Predom&#237;nio do presente do indicativo
      Frases simples
      Predom&#237;nio da coordena&#231;&#227;o
      Compara&#231;&#245;es simples e raras met&#225;foras </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 60 - An&#225;lise do poema d&#233;cimo &amp;quot; Ol&#225; guardador de rebanhos&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632509.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;OL&#193;, GUARDADOR DE REBANHOS

"Ol&#225;, guardador de rebanhos,
A&#237; &#224; beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que &#233; vento, e que passa,
E que j&#225; passou antes,
E que passar&#225; depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De mem&#243;rias e de saudades
E de cousas que nunca foram."

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento s&#243; fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira est&#225; em ti."

Alberto Caeiro
</description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 23:26:21 GMT</pubDate>
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      <dcterms:created>2006-04-17</dcterms:created>
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      <itunes:summary>OL&#193;, GUARDADOR DE REBANHOS

"Ol&#225;, guardador de rebanhos,
A&#237; &#224; beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que &#233; vento, e que passa,
E que j&#225; passou antes,
E que passar&#225; depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De mem&#243;rias e de saudades
E de cousas que nunca foram."

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento s&#243; fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira est&#225; em ti."

Alberto Caeiro
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 59 - An&#225;lise do poema &amp;quot;Sou um guardador de rebanhos&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632510.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho &#233; os meus pensamentos
E os meus pensamentos s&#227;o todos sensa&#231;&#245;es.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as m&#227;os e os p&#233;s
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor &#233; v&#234;-la e cheir&#225;-la
E comer um fruto &#233; saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goz&#225;-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Publicado por Jo&#227;o Carvalho Fernandes &#224;s</description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 23:18:10 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-17</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho &#233; os meus pensamentos
E os meus pensamentos s&#227;o todos sensa&#231;&#245;es.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as m&#227;os e os p&#233;s
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor &#233; v&#234;-la e cheir&#225;-la
E comer um fruto &#233; saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goz&#225;-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Publicado por Jo&#227;o Carvalho Fernandes &#224;s</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 58 - An&#225;lise do Poema Segundo &amp;quot; O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632511.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;      O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol.
      Tenho o costume de andar pelas estradas
      Olhando para a direita e para a esquerda,
      E de vez em quando olhando para tr&#225;s...
      E o que vejo a cada momento
      &#201; aquilo que nunca antes eu tinha visto,
      E eu sei dar por isso muito bem...
      Sei ter o pasmo essencial
      Que tem uma crian&#231;a se, ao nascer,
      Reparasse que nascera deveras...
      Sinto-me nascido a cada momento
      Para a eterna novidade do Mundo...

      Creio no mundo como num malmequer,
      Porque o vejo. Mas n&#227;o penso nele
      Porque pensar &#233; n&#227;o compreender...

      O Mundo n&#227;o se fez para pensarmos nele
      (Pensar &#233; estar doente dos olhos)
      Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

      Eu n&#227;o tenho filosofia; tenho sentidos...
      Se falo na Natureza n&#227;o &#233; porque saiba o que ela &#233;,
      Mas porque a amo, e amo-a por isso
      Porque quem ama nunca sabe o que ama
      Nem sabe por que ama, nem o que &#233; amar...

      Amar &#233; a eterna inoc&#234;ncia,
      E a &#250;nica inoc&#234;ncia n&#227;o pensar...

          Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914 </description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 23:08:23 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-17</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>      O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol.
      Tenho o costume de andar pelas estradas
      Olhando para a direita e para a esquerda,
      E de vez em quando olhando para tr&#225;s...
      E o que vejo a cada momento
      &#201; aquilo que nunca antes eu tinha visto,
      E eu sei dar por isso muito bem...
      Sei ter o pasmo essencial
      Que tem uma crian&#231;a se, ao nascer,
      Reparasse que nascera deveras...
      Sinto-me nascido a cada momento
      Para a eterna novidade do Mundo...

      Creio no mundo como num malmequer,
      Porque o vejo. Mas n&#227;o penso nele
      Porque pensar &#233; n&#227;o compreender...

      O Mundo n&#227;o se fez para pensarmos nele
      (Pensar &#233; estar doente dos olhos)
      Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

      Eu n&#227;o tenho filosofia; tenho sentidos...
      Se falo na Natureza n&#227;o &#233; porque saiba o que ela &#233;,
      Mas porque a amo, e amo-a por isso
      Porque quem ama nunca sabe o que ama
      Nem sabe por que ama, nem o que &#233; amar...

      Amar &#233; a eterna inoc&#234;ncia,
      E a &#250;nica inoc&#234;ncia n&#227;o pensar...

          Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914 </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 57 - Poema Segundo &amp;quot;O meu olhar &#233; n&#237;tido como um girassol&amp;quot; (Ser em Portugu&#234;s 12&#186; ano)</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 22:57:40 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-18</dcterms:modified>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 56 - An&#225;lise do Poema Primeiro &amp;quot; Eu nunca guardei rebanhos&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632512.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;EU NUNCA GUARDEI REBANHOS - ALBERTO CAEIRO

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas &#233; como se os guardasse.
Minha alma &#233; como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela m&#227;o das Esta&#231;&#245;es
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um p&#244;r de sol
Para a nossa imagina&#231;&#227;o,
Quando esfria no fundo da plan&#237;cie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza &#233; sossego
Porque &#233; natural e justa
E &#233; o que deve estar na alma
Quando j&#225; pensa que existe
E as m&#227;os colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ru&#237;do de chocalhos
Para al&#233;m da curva da estrada,
Os meus pensamentos s&#227;o contentes.
S&#243; tenho pena de saber que eles s&#227;o contentes,
Porque, se o n&#227;o soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar &#224; chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

N&#227;o tenho ambi&#231;&#245;es nem desejos
Ser poeta n&#227;o &#233; uma ambi&#231;&#227;o minha
&#201; a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo &#224;s vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

&#201; s&#243; porque sinto o que escrevo ao p&#244;r do sol,
Ou quando uma nuvem passa a m&#227;o por cima da luz
E corre um sil&#234;ncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que est&#225; no meu pensamento,
Sinto um cajado nas m&#227;os
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas id&#233;ias,
Ou olhando para as minhas id&#233;ias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem n&#227;o compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Sa&#250;do todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chap&#233;u largo
Quando me v&#234;em &#224; minha porta
Mal a dilig&#234;ncia levanta no cimo do outeiro.
Sa&#250;do-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva &#233; precisa,
E que as suas casas tenham
Ao p&#233; duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a &#225;rvore antiga
&#192; sombra da qual quando crian&#231;as
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro</description>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 22:45:38 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-19</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-17</dcterms:created>
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      <itunes:summary>EU NUNCA GUARDEI REBANHOS - ALBERTO CAEIRO

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas &#233; como se os guardasse.
Minha alma &#233; como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela m&#227;o das Esta&#231;&#245;es
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um p&#244;r de sol
Para a nossa imagina&#231;&#227;o,
Quando esfria no fundo da plan&#237;cie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza &#233; sossego
Porque &#233; natural e justa
E &#233; o que deve estar na alma
Quando j&#225; pensa que existe
E as m&#227;os colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ru&#237;do de chocalhos
Para al&#233;m da curva da estrada,
Os meus pensamentos s&#227;o contentes.
S&#243; tenho pena de saber que eles s&#227;o contentes,
Porque, se o n&#227;o soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar &#224; chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

N&#227;o tenho ambi&#231;&#245;es nem desejos
Ser poeta n&#227;o &#233; uma ambi&#231;&#227;o minha
&#201; a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo &#224;s vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

&#201; s&#243; porque sinto o que escrevo ao p&#244;r do sol,
Ou quando uma nuvem passa a m&#227;o por cima da luz
E corre um sil&#234;ncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que est&#225; no meu pensamento,
Sinto um cajado nas m&#227;os
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas id&#233;ias,
Ou olhando para as minhas id&#233;ias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem n&#227;o compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Sa&#250;do todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chap&#233;u largo
Quando me v&#234;em &#224; minha porta
Mal a dilig&#234;ncia levanta no cimo do outeiro.
Sa&#250;do-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva &#233; precisa,
E que as suas casas tenham
Ao p&#233; duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a &#225;rvore antiga
&#192; sombra da qual quando crian&#231;as
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 55 - Poema Primeiro &amp;quot;Eu nunca guardei rebanhos&amp;quot; na voz de Jo&#227;o Grosso</title>
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      <pubDate>Mon, 17 Apr 2006 22:29:09 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-14</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-04-17</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 54 - Alberto Caeiro - o Mestre tranquilo da sensa&#231;&#227;o</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632513.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 10:11:18 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 53 - A G&#233;nese dos heter&#243;nimos - Carta a Adolfo Casais Monteiro</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:56:10 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 52 - O fen&#243;meno heteron&#237;mico - Ao espelho (Um texto de Jos&#233; Saramago)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632514.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:39:41 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 51 - S&#237;ntese das linhas tem&#225;ticas de Fernando Pessoa Ort&#243;nimo</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:28:52 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 50 - Ecos da inf&#226;ncia - An&#225;lise dos poemas &amp;quot;Eros e Psique&amp;quot; e &amp;quot; 
Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa&amp;quot;</title>
      <description> 1&#186; poema

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem s&#243; despertaria
Um Infante, que viria
De al&#233;m do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, j&#225; libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que &#224; Princesa vem. 

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esfor&#231;ado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela &#233; ignorado,
Ela para ele &#233; ningu&#233;m. 

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera,
&#192; cabe&#231;a, em maresia,
Ergue a m&#227;o, e encontra hera,
E v&#234; que ele mesmo era
A Princesa que dormia. 

Fernando Pessoa 

2&#186; poema

Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa

Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crian&#231;as vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e , cobrindo
Seu  corpo todo, a tornam misteriosa.

&#192; crian&#231;a que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a m&#227;o de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia  -
E sonhos lindos, como ningu&#233;m teve,
A sentir a crian&#231;a principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que v&#234;m, v&#227;o e tornam,
E palha&#231;os que tocam em rabecas...

E h&#225; figuras pequenas e engra&#231;adas
Que brincam e d&#227;o saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
P&#233; ante p&#233;, volta a melhor das fadas
Ao seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa.</description>
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      <pubDate>Thu, 30 Mar 2006 20:21:40 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
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      <itunes:summary> 1&#186; poema

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem s&#243; despertaria
Um Infante, que viria
De al&#233;m do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, j&#225; libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que &#224; Princesa vem. 

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esfor&#231;ado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela &#233; ignorado,
Ela para ele &#233; ningu&#233;m. 

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera,
&#192; cabe&#231;a, em maresia,
Ergue a m&#227;o, e encontra hera,
E v&#234; que ele mesmo era
A Princesa que dormia. 

Fernando Pessoa 

2&#186; poema

Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa

Do seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crian&#231;as vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e , cobrindo
Seu  corpo todo, a tornam misteriosa.

&#192; crian&#231;a que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a m&#227;o de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia  -
E sonhos lindos, como ningu&#233;m teve,
A sentir a crian&#231;a principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que v&#234;m, v&#227;o e tornam,
E palha&#231;os que tocam em rabecas...

E h&#225; figuras pequenas e engra&#231;adas
Que brincam e d&#227;o saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
P&#233; ante p&#233;, volta a melhor das fadas
Ao seu long&#237;nquo reino cor-de-rosa.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#225;odiao 49 - a nostalgia da inf&#226;ncia - An&#225;lise da Parte VI do poema &amp;quot;Chuva Obl&#237;qua&amp;quot;</title>
      <description> Parte VI - Chuva Obl&#237;qua

O maestro sacode a batuta,
E l&#226;nguida e triste a m&#250;sica rompe...

Lembra-me a minha inf&#226;ncia, aquele dia
Em que eu brincava ao p&#233; de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum c&#227;o verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a m&#250;sica, e eis na minha inf&#226;ncia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um c&#227;o verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro &#233; o meu quintal, a minha inf&#226;ncia
Est&#225; em todos os lugares, e a bola vem a tocar m&#250;sica,
Uma m&#250;sica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de c&#227;o tornando-se jockey amarelo...
(T&#227;o r&#225;pida gira a bola entre mim e os m&#250;sicos...)

Atiro-a de encontro &#224; minha inf&#226;ncia e ela 
Atravessa o teatro todo que est&#225; aos meus p&#233;s
A brincar com um jockey amarelo e um c&#227;o verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a m&#250;sica atira com bolas
&#192; minha inf&#226;ncia... E o muro do quintal &#233; feito de gestos
De batuta e rota&#231;&#245;es confusas de c&#227;es verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro &#233; um muro branco de m&#250;sica
Por onde um c&#227;o verde corre atr&#225;s de minha saudade
Da minha inf&#226;ncia, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde h&#225; arvores e entre os ramos ao p&#233; da copa
Com orquestras a tocar m&#250;sica,
Para onde h&#225; filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as mem&#243;rias da minha inf&#226;ncia...

E a m&#250;sica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabe&#231;a, 
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... </description>
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      <pubDate>Thu, 30 Mar 2006 20:07:32 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-14</dcterms:modified>
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      <itunes:summary> Parte VI - Chuva Obl&#237;qua

O maestro sacode a batuta,
E l&#226;nguida e triste a m&#250;sica rompe...

Lembra-me a minha inf&#226;ncia, aquele dia
Em que eu brincava ao p&#233; de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum c&#227;o verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a m&#250;sica, e eis na minha inf&#226;ncia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um c&#227;o verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro &#233; o meu quintal, a minha inf&#226;ncia
Est&#225; em todos os lugares, e a bola vem a tocar m&#250;sica,
Uma m&#250;sica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de c&#227;o tornando-se jockey amarelo...
(T&#227;o r&#225;pida gira a bola entre mim e os m&#250;sicos...)

Atiro-a de encontro &#224; minha inf&#226;ncia e ela 
Atravessa o teatro todo que est&#225; aos meus p&#233;s
A brincar com um jockey amarelo e um c&#227;o verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a m&#250;sica atira com bolas
&#192; minha inf&#226;ncia... E o muro do quintal &#233; feito de gestos
De batuta e rota&#231;&#245;es confusas de c&#227;es verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro &#233; um muro branco de m&#250;sica
Por onde um c&#227;o verde corre atr&#225;s de minha saudade
Da minha inf&#226;ncia, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde h&#225; arvores e entre os ramos ao p&#233; da copa
Com orquestras a tocar m&#250;sica,
Para onde h&#225; filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as mem&#243;rias da minha inf&#226;ncia...

E a m&#250;sica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabe&#231;a, 
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 49 - A nostalgia da inf&#226;ncia - An&#225;lise dos poemas: &amp;quot;Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?&amp;quot;/ &amp;quot;Pobre velha m&#250;sica!&amp;quot;/ &amp;quot;Quando as crian&#231;as brincam&amp;quot;</title>
      <description>1&#186; Poema
Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?

Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?
Porque deslembra quem ent&#227;o era eu?
Porque n&#227;o h&#225; nenhuma semelhan&#231;a
Entre quem sou e fui?
A crian&#231;a que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que &#233; que flui?
Houve em mim v&#225;rias almas sucessivas
Ou sou um s&#243; inconsciente ser?
                             Fernando Pessoa, Poesias In&#233;ditas, 1932
2&#186; Poema

Pobre velha m&#250;sica!

Pobre velha m&#250;sica!
 N&#227;o sei por que agrado, 
 Enche-se de l&#225;grimas
 Meu olhar parado.

 Recordo outro ouvir-te,
 N&#227;o sei se te ouvi
 Nessa minha inf&#226;ncia
 Que me lembra em ti.

 Com que &#226;nsia t&#227;o raiva
 Quero aquele outrora!
 E eu era feliz? N&#227;o sei:
 Fui-o outrora agora. 

3&#186; Poema

Quando as crian&#231;as brincam

Quando as crian&#231;as brincam
E eu as oi&#231;o brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Come&#231;a a se alegrar.

E toda aquela inf&#226;ncia
Que n&#227;o tive me vem,
Numa onda de alegria
Que n&#227;o foi de ningu&#233;m.

Se quem fui &#233; enigma,
E quem serei vis&#227;o,
Quem sou ao menos sinta
Isto no cora&#231;&#227;o.

Fernando Pessoa
Cancioneiro, 1933</description>
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      <pubDate>Thu, 30 Mar 2006 19:28:08 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>1&#186; Poema
Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?

Porque esqueci quem fui quando crian&#231;a?
Porque deslembra quem ent&#227;o era eu?
Porque n&#227;o h&#225; nenhuma semelhan&#231;a
Entre quem sou e fui?
A crian&#231;a que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que &#233; que flui?
Houve em mim v&#225;rias almas sucessivas
Ou sou um s&#243; inconsciente ser?
                             Fernando Pessoa, Poesias In&#233;ditas, 1932
2&#186; Poema

Pobre velha m&#250;sica!

Pobre velha m&#250;sica!
 N&#227;o sei por que agrado, 
 Enche-se de l&#225;grimas
 Meu olhar parado.

 Recordo outro ouvir-te,
 N&#227;o sei se te ouvi
 Nessa minha inf&#226;ncia
 Que me lembra em ti.

 Com que &#226;nsia t&#227;o raiva
 Quero aquele outrora!
 E eu era feliz? N&#227;o sei:
 Fui-o outrora agora. 

3&#186; Poema

Quando as crian&#231;as brincam

Quando as crian&#231;as brincam
E eu as oi&#231;o brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Come&#231;a a se alegrar.

E toda aquela inf&#226;ncia
Que n&#227;o tive me vem,
Numa onda de alegria
Que n&#227;o foi de ningu&#233;m.

Se quem fui &#233; enigma,
E quem serei vis&#227;o,
Quem sou ao menos sinta
Isto no cora&#231;&#227;o.

Fernando Pessoa
Cancioneiro, 1933</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 48 - saltar o muro - sonhar- An&#225;lise do poema &amp;quot;N&#227;o sei, ama, onde era&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632515.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Pintura de Cruzeiro Seixas

N&#227;o sei, ama, onde era.
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul t&#227;o azul tinha
Ali o azul do c&#233;u!
Se eu n&#227;o era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que n&#227;o me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos s&#227;o dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer coisa fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto &#233; morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos s&#227;o
Esse dia, e jardim e a dama                        
Que eu fui nessa solid&#227;o...

Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Mon, 27 Mar 2006 22:32:53 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-13</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Cruzeiro Seixas

N&#227;o sei, ama, onde era.
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul t&#227;o azul tinha
Ali o azul do c&#233;u!
Se eu n&#227;o era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que n&#227;o me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos s&#227;o dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer coisa fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto &#233; morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos s&#227;o
Esse dia, e jardim e a dama                        
Que eu fui nessa solid&#227;o...

Fernando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 47 - saltar o muro - sonhar- An&#225;lise do poema &amp;quot;Contemplo o que n&#227;o vejo&amp;quot; (na voz de Jo&#227;o Grosso)</title>
      <description>Contemplo o que n&#227;o vejo

Contemplo o que n&#227;o vejo.
&#201; tarde, &#233; quase escuro.
E quanto em mim desejo
Est&#225; parado ante o muro.

Por cima o c&#233;u &#233; grande;
Sinto &#225;rvores al&#233;m;
Embora o vento abrande,
H&#225; folhas em vaiv&#233;m.

Tudo &#233; do outro lado,
No que h&#225; e no que penso.
Nem h&#225; ramo agitado
Que o c&#233;u n&#227;o seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
N&#227;o sinto, n&#227;o sou triste.
Mas triste &#233; o que estou. </description>
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      <pubDate>Mon, 27 Mar 2006 22:06:37 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>Contemplo o que n&#227;o vejo

Contemplo o que n&#227;o vejo.
&#201; tarde, &#233; quase escuro.
E quanto em mim desejo
Est&#225; parado ante o muro.

Por cima o c&#233;u &#233; grande;
Sinto &#225;rvores al&#233;m;
Embora o vento abrande,
H&#225; folhas em vaiv&#233;m.

Tudo &#233; do outro lado,
No que h&#225; e no que penso.
Nem h&#225; ramo agitado
Que o c&#233;u n&#227;o seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
N&#227;o sinto, n&#227;o sou triste.
Mas triste &#233; o que estou. </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 46 - sonhar/viver - An&#225;lise do poema &amp;quot;Contemplo o lago mudo&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632516.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Pintura de Magritte

Contemplo o lago mudo 
Que uma brisa estremece. 
N&#227;o sei se penso em tudo 
Ou se tudo me esquece.  

O lago nada me diz, 
N&#227;o sinto a brisa mex&#234;-lo 
N&#227;o sei se sou feliz 
Nem se desejo s&#234;-lo.  

Tr&#234;mulos vincos risonhos 
Na &#225;gua adormecida. 
Por que fiz eu dos sonhos 
A minha &#250;nica vida?   </description>
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      <pubDate>Sun, 26 Mar 2006 22:38:06 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte

Contemplo o lago mudo 
Que uma brisa estremece. 
N&#227;o sei se penso em tudo 
Ou se tudo me esquece.  

O lago nada me diz, 
N&#227;o sinto a brisa mex&#234;-lo 
N&#227;o sei se sou feliz 
Nem se desejo s&#234;-lo.  

Tr&#234;mulos vincos risonhos 
Na &#225;gua adormecida. 
Por que fiz eu dos sonhos 
A minha &#250;nica vida?   </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 45 - sonhar/viver - An&#225;lise do poema &amp;quot;N&#227;o sei se &#233; sonho se realidade&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632517.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Pintura de Magritte

N&#227;o sei se &#233; sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sol se olvida.
&#201; a que ansiamos. Ali, ali
A vida &#233; jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
&#193;leas long&#237;nquas sem poder ser.
Sombra ou sossego d&#234;em aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, n&#243;s? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas j&#225; sonhada se desvirtua,
S&#243; de pens&#225;-la cansou pensar,
Sob os palmares, &#224; luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra tamb&#233;m, tamb&#233;m
O mal n&#227;o cessa, n&#227;o dura o bem.

N&#227;o &#233; com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou n&#227;o,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no cora&#231;&#227;o.
&#201; em n&#243;s que &#233; tudo. &#201; ali, ali,
Que a vida &#233; jovem e o amor sorri.</description>
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      <pubDate>Sun, 26 Mar 2006 22:28:37 GMT</pubDate>
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      <dcterms:created>2006-03-26</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte

N&#227;o sei se &#233; sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sol se olvida.
&#201; a que ansiamos. Ali, ali
A vida &#233; jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
&#193;leas long&#237;nquas sem poder ser.
Sombra ou sossego d&#234;em aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, n&#243;s? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas j&#225; sonhada se desvirtua,
S&#243; de pens&#225;-la cansou pensar,
Sob os palmares, &#224; luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra tamb&#233;m, tamb&#233;m
O mal n&#227;o cessa, n&#227;o dura o bem.

N&#227;o &#233; com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou n&#227;o,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no cora&#231;&#227;o.
&#201; em n&#243;s que &#233; tudo. &#201; ali, ali,
Que a vida &#233; jovem e o amor sorri.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 44 - o espelho dos pensamentos - An&#225;lise do poema &amp;quot;Tudo que fa&#231;o ou medito&amp;quot;</title>
      <description>Tudo que fa&#231;o ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada &#233; verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que fa&#231;o!
Minha alma &#233; l&#250;dica e rica,
E eu sou um mar de sarga&#231;o &#8212;

Um mar onde b&#243;iam lentos
Fragmentos de um mar de al&#233;m...
Vontades ou pensamentos?
N&#227;o o sei e sei-o bem.</description>
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      <pubDate>Sun, 26 Mar 2006 22:02:17 GMT</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Tudo que fa&#231;o ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada &#233; verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que fa&#231;o!
Minha alma &#233; l&#250;dica e rica,
E eu sou um mar de sarga&#231;o &#8212;

Um mar onde b&#243;iam lentos
Fragmentos de um mar de al&#233;m...
Vontades ou pensamentos?
N&#227;o o sei e sei-o bem.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 43 - O espelho dos pensamentos - An&#225;lise do poema &amp;quot; B&#243;iam leves desatentos&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632518.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Pintura de Magritte


B&#243;iam leves, desatentos
Meus pensamentos de m&#225;goa,
como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das &#225;guas.

B&#243;iam como folhas mortas,
&#192; tona de &#225;guas paradas.
S&#227;o coisas vestindo nadas,
P&#243;s remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem rem&#233;dio,
vest&#237;gio do que n&#227;o foi,
Leve m&#225;goa, breve t&#233;dio,
N&#227;o sei se p&#225;ra, se flui;
N&#227;o sei se existe ou se d&#243;i.

Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Sat, 25 Mar 2006 00:24:38 GMT</pubDate>
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      <dcterms:created>2006-03-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte


B&#243;iam leves, desatentos
Meus pensamentos de m&#225;goa,
como no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das &#225;guas.

B&#243;iam como folhas mortas,
&#192; tona de &#225;guas paradas.
S&#227;o coisas vestindo nadas,
P&#243;s remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem rem&#233;dio,
vest&#237;gio do que n&#227;o foi,
Leve m&#225;goa, breve t&#233;dio,
N&#227;o sei se p&#225;ra, se flui;
N&#227;o sei se existe ou se d&#243;i.

Fernando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 42 - A dor de pensar - a solid&#227;o de ser - An&#225;lise do poema &amp;quot;Cansa sentir quando se pensa&amp;quot;</title>
      <description>Cansa Sentir Quando se Pensa

 Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
H&#225; uma solid&#227;o imensa 
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que n&#227;o sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E &#233; uma noite a ter  um fim
Um negro astral sil&#234;ncio surdo
E n&#227;o poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, sil&#234;ncio mudo -
Ah, nada &#233; isto, nada &#233; assim!) 

Ferando Pessoa</description>
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      <pubDate>Sat, 25 Mar 2006 00:04:53 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-14</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-25</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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 Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
H&#225; uma solid&#227;o imensa 
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que n&#227;o sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E &#233; uma noite a ter  um fim
Um negro astral sil&#234;ncio surdo
E n&#227;o poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, sil&#234;ncio mudo -
Ah, nada &#233; isto, nada &#233; assim!) 

Ferando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 41 - A dor de pensar- a solid&#227;o de ser - An&#225;lise do poema &amp;quot;N&#227;o sei ser triste a valer&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632519.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Pintura de Magritte

N&#227;o sei ser triste a valer

N&#195;O SEI SER triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: n&#227;o sei ser.
Ser&#227;o as almas sinceras
Assim tamb&#233;m, sem saber?

Ah, ante a fic&#231;&#227;o da alma 
E a mentira da emo&#231;&#227;o,
Com que prazer me d&#225; calma
Ver uma flor sem raz&#227;o 
Florir sem ter cora&#231;&#227;o!

Mas enfim n&#227;o h&#225; diferen&#231;a.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela &#233; florescer
Em n&#243;s &#233; ter consci&#234;ncia.

Depois, a n&#243;s como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E ambos nos v&#234;m calcar.

'St&#225; bem, enquanto n&#227;o v&#234;m
Vamos florir ou pensar.</description>
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      <pubDate>Fri, 24 Mar 2006 23:48:00 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Pintura de Magritte

N&#227;o sei ser triste a valer

N&#195;O SEI SER triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: n&#227;o sei ser.
Ser&#227;o as almas sinceras
Assim tamb&#233;m, sem saber?

Ah, ante a fic&#231;&#227;o da alma 
E a mentira da emo&#231;&#227;o,
Com que prazer me d&#225; calma
Ver uma flor sem raz&#227;o 
Florir sem ter cora&#231;&#227;o!

Mas enfim n&#227;o h&#225; diferen&#231;a.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela &#233; florescer
Em n&#243;s &#233; ter consci&#234;ncia.

Depois, a n&#243;s como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E ambos nos v&#234;m calcar.

'St&#225; bem, enquanto n&#227;o v&#234;m
Vamos florir ou pensar.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 40 - N&#227;o sei ser triste a valer (Voz de Lu&#237;s Gaspar)</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Fri, 24 Mar 2006 23:34:19 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-13</dcterms:modified>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 39 - A dor de pensar &amp;quot;Ela canta pobre ceifeira&amp;quot; / &amp;quot; Gato que brincas na rua&amp;quot;</title>
      <description>Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e an&#244;nima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E h&#225; curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz h&#225; o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais raz&#245;es pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem raz&#227;o !
O que em mim sente 'st&#225; pensando.
Derrama no meu cora&#231;&#227;o a tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsci&#234;ncia,
E a consci&#234;ncia disso ! &#211; c&#233;u !
&#211; campo ! &#211; can&#231;&#227;o ! A ci&#234;ncia

Pesa tanto e a vida &#233; t&#227;o breve !
Entrai por mim dentro !  Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !
-----------------------------------------------------------------------------------
Gato que brincas na rua 

Gato que brincas na rua 
Como se fosse na cama, 
Invejo a sorte que &#233; tua 
Porque nem sorte se chama. 

Bom servo das leis fatais 
Que regem pedras e gentes, 
Que tens instintos gerais 
E sentes s&#243; o que sentes. 

&#201;s feliz porque &#233;s assim, 
Todo o nada que &#233;s &#233; teu. 
Eu vejo-me e estou sem mim, 
Conhe&#231;o-me e n&#227;o sou eu. 

Ferando Pessoa, Cancioneiro</description>
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      <pubDate>Fri, 24 Mar 2006 00:08:41 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-18</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e an&#244;nima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E h&#225; curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz h&#225; o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais raz&#245;es pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem raz&#227;o !
O que em mim sente 'st&#225; pensando.
Derrama no meu cora&#231;&#227;o a tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsci&#234;ncia,
E a consci&#234;ncia disso ! &#211; c&#233;u !
&#211; campo ! &#211; can&#231;&#227;o ! A ci&#234;ncia

Pesa tanto e a vida &#233; t&#227;o breve !
Entrai por mim dentro !  Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !
-----------------------------------------------------------------------------------
Gato que brincas na rua 

Gato que brincas na rua 
Como se fosse na cama, 
Invejo a sorte que &#233; tua 
Porque nem sorte se chama. 

Bom servo das leis fatais 
Que regem pedras e gentes, 
Que tens instintos gerais 
E sentes s&#243; o que sentes. 

&#201;s feliz porque &#233;s assim, 
Todo o nada que &#233;s &#233; teu. 
Eu vejo-me e estou sem mim, 
Conhe&#231;o-me e n&#227;o sou eu. 

Ferando Pessoa, Cancioneiro</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 38 - O fingimento po&#233;tico &amp;quot; Isto&amp;quot;</title>
      <description>Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.  N&#227;o.
Eu simplesmente sinto
Com a imagina&#231;&#227;o.
N&#227;o uso o cora&#231;&#227;o.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
&#201; como que um terra&#231;o
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa &#233; que &#233; linda.

Por isso escrevo em meio
Do que n&#227;o est&#225; ao p&#233;,
Livre do meu enleio,
S&#233;rio do que n&#227;o &#233;.
Sentir?  Sinta quem l&#234;! 

Fernando Pessoa
Cancioneiro</description>
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      <pubDate>Thu, 23 Mar 2006 23:43:33 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-10</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.  N&#227;o.
Eu simplesmente sinto
Com a imagina&#231;&#227;o.
N&#227;o uso o cora&#231;&#227;o.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
&#201; como que um terra&#231;o
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa &#233; que &#233; linda.

Por isso escrevo em meio
Do que n&#227;o est&#225; ao p&#233;,
Livre do meu enleio,
S&#233;rio do que n&#227;o &#233;.
Sentir?  Sinta quem l&#234;! 

Fernando Pessoa
Cancioneiro</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 37 - O fingimento po&#233;tico &amp;quot; Autopsicografia&amp;quot;</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632520.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Autopsicografia

    O poeta &#233; um fingidor.
    Finge t&#227;o completamente
    Que chega a fingir que &#233; dor
    A dor que deveras sente.

    E os que l&#234;em o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    N&#227;o as duas que ele teve,
    Mas s&#243; a que eles n&#227;o t&#234;m.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a raz&#227;o,
    Esse comboio de corda
    Que se chama cora&#231;&#227;o.

Fernando Pessoa
</description>
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      <pubDate>Thu, 23 Mar 2006 17:38:54 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-23</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Autopsicografia

    O poeta &#233; um fingidor.
    Finge t&#227;o completamente
    Que chega a fingir que &#233; dor
    A dor que deveras sente.

    E os que l&#234;em o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    N&#227;o as duas que ele teve,
    Mas s&#243; a que eles n&#227;o t&#234;m.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a raz&#227;o,
    Esse comboio de corda
    Que se chama cora&#231;&#227;o.

Fernando Pessoa
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 36 - O Eu fragmentado &amp;quot;N&#227;o sei quantas almas tenho&amp;quot; t&#243;nimo</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632521.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;N&#227;o sei quantas almas tenho

N&#227;o sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, s&#243; tenho alma.
Quem tem  alma n&#227;o tem calma.
Quem v&#234; &#233; s&#243; o que v&#234;,
Quem sente n&#227;o &#233; quem &#233;,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e n&#227;o eu.
Cada meu sonho ou desejo
&#201; do que nasce e n&#227;o meu.
Sou minha pr&#243;pria paisagem;
Assisto &#224; minha passagem,
Diverso, m&#243;bil e s&#243;,
N&#227;o sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como p&#225;ginas, meu ser.
O que sogue n&#227;o prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto &#224; margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu. 

Fernando Pessoa, Ort&#243;nimo</description>
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      <pubDate>Wed, 22 Mar 2006 21:58:31 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-09</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-22</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>N&#227;o sei quantas almas tenho

N&#227;o sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, s&#243; tenho alma.
Quem tem  alma n&#227;o tem calma.
Quem v&#234; &#233; s&#243; o que v&#234;,
Quem sente n&#227;o &#233; quem &#233;,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e n&#227;o eu.
Cada meu sonho ou desejo
&#201; do que nasce e n&#227;o meu.
Sou minha pr&#243;pria paisagem;
Assisto &#224; minha passagem,
Diverso, m&#243;bil e s&#243;,
N&#227;o sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como p&#225;ginas, meu ser.
O que sogue n&#227;o prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto &#224; margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu. 

Fernando Pessoa, Ort&#243;nimo</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Espis&#243;diao 36 - O Eu fragmentado &amp;quot;Viajar! Perder Pa&#237;ses!</title>
      <description>Viajar! Perder pa&#237;ses!

Viajar! Perder pa&#237;ses!
Ser outro constantemente,
Por a alma n&#227;o ter ra&#237;zes
De viver de ver somente! 

N&#227;o pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A aus&#234;ncia de ter um fim,
E a &#226;nsia de o conseguir! 

Viajar assim &#233; viagem.
Mas fa&#231;o-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto &#233; s&#243; terra e c&#233;u.</description>
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      <pubDate>Wed, 22 Mar 2006 18:41:17 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-10</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-22</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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Viajar! Perder pa&#237;ses!
Ser outro constantemente,
Por a alma n&#227;o ter ra&#237;zes
De viver de ver somente! 

N&#227;o pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A aus&#234;ncia de ter um fim,
E a &#226;nsia de o conseguir! 

Viajar assim &#233; viagem.
Mas fa&#231;o-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto &#233; s&#243; terra e c&#233;u.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 35 - O Eu fragmentado &amp;quot; Sou um evadido&amp;quot; </title>
      <description>Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que n&#227;o se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxal&#225; que ela
Nunca me encontre.

Ser um &#233; cadeia,
Ser eu &#233; n&#227;o ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Pessoa, Ort&#243;nimo</description>
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      <pubDate>Tue, 21 Mar 2006 10:29:02 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-21</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que n&#227;o se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxal&#225; que ela
Nunca me encontre.

Ser um &#233; cadeia,
Ser eu &#233; n&#227;o ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Pessoa, Ort&#243;nimo</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 34 - Recursos estil&#237;sticos (Figuras de Estilo)</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Tue, 21 Mar 2006 10:14:03 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-09</dcterms:modified>
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    <item>
      <title>Episodio 33 - Pessoa Ort&#243;nimo -  O enigma do Ser</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632522.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Mon, 20 Mar 2006 18:12:20 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-11</dcterms:modified>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 32 - Os Lus&#237;adas e a Mensagem</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Mon, 20 Mar 2006 00:14:27 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 31 - S&#237;ntese das ideias da obra &amp;quot;Mensagem&amp;quot; de Fernando Pessoa</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632523.gif" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Sun, 19 Mar 2006 23:59:11 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 30 - An&#225;lise do poema Nevoeiro</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632524.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt; Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor ba&#231;o da terra
que &#233; Portugal a entristecer &#8211;
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-f&#225;tuo encerra.


Ningu&#233;m sabe que coisa quere.
Ningu&#233;m conhece que alma tem,
nem o que &#233; mal nem o que &#233; bem.
(Que &#226;ncia distante perto chora?)
Tudo &#233; incerto e derradeiro.
Tudo &#233; disperso, nada &#233; inteiro.
&#211; Portugal, hoje &#233;s nevoeiro...


&#201; a Hora!

Mensagem, Fernando Pessoa
</description>
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      <pubDate>Sun, 19 Mar 2006 02:02:37 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary> Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor ba&#231;o da terra
que &#233; Portugal a entristecer &#8211;
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-f&#225;tuo encerra.


Ningu&#233;m sabe que coisa quere.
Ningu&#233;m conhece que alma tem,
nem o que &#233; mal nem o que &#233; bem.
(Que &#226;ncia distante perto chora?)
Tudo &#233; incerto e derradeiro.
Tudo &#233; disperso, nada &#233; inteiro.
&#211; Portugal, hoje &#233;s nevoeiro...


&#201; a Hora!

Mensagem, Fernando Pessoa
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#225;dio 30 - An&#225;lise do poema Screvo meu livro &#224; beira-m&#225;goa</title>
      <description>Screvo meu livro...

'Screvo meu livro &#224; beira m&#225;goa.
Meu cora&#231;&#227;o n&#227;o tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de &#225;gua.
S&#243; tu, Senhor, me d&#225;s viver.

S&#243; te sentir e te pensar
Meus dias v&#225;cuos enche e doura.
Mas quando querer&#225;s voltar?
Quando &#233; o Rei? Quando &#233; a Hora?

Quando vir&#225;s a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos C&#233;us?

Quando vir&#225;s, &#243; Encoberto,
Sonho das eras portugu&#234;s,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando querer&#225;s voltando,
Fazer minha esperan&#231;a amor?
Da n&#233;voa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Mensagem, Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Sun, 19 Mar 2006 01:43:16 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-19</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Screvo meu livro...

'Screvo meu livro &#224; beira m&#225;goa.
Meu cora&#231;&#227;o n&#227;o tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de &#225;gua.
S&#243; tu, Senhor, me d&#225;s viver.

S&#243; te sentir e te pensar
Meus dias v&#225;cuos enche e doura.
Mas quando querer&#225;s voltar?
Quando &#233; o Rei? Quando &#233; a Hora?

Quando vir&#225;s a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos C&#233;us?

Quando vir&#225;s, &#243; Encoberto,
Sonho das eras portugu&#234;s,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando querer&#225;s voltando,
Fazer minha esperan&#231;a amor?
Da n&#233;voa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 29 - Sebastianismo e Quinto Imp&#233;rio</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632525.gif" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 23:59:32 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 28 - An&#225;lise do Poema O Quinto Imp&#233;rio (na voz de Jo&#227;o Grosso)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632526.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;O Quinto Imp&#233;rio

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Fa&#231;a at&#233; mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem &#233; feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a li&#231;&#227;o da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente &#233; ser homem.
Que as for&#231;as cegas se domem
Pela vis&#227;o que a alma tem!

  Mensagem, Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 23:37:05 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-18</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>O Quinto Imp&#233;rio

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Fa&#231;a at&#233; mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem &#233; feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a li&#231;&#227;o da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente &#233; ser homem.
Que as for&#231;as cegas se domem
Pela vis&#227;o que a alma tem!

  Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 27 - An&#225;lise do poema Prece</title>
      <description>Prece

Senhor, a noite veio e a alma &#233; vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silencio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chamma, que a vida em n&#243;s creou,
Se ainda h&#225; vida ainda n&#227;o &#233; finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A m&#227;o do vento pode erguel-a ainda.

D&#225; o sopro, a aragem- ou desgra&#231;a ou ancia-
Com que a chamma do esfor&#231;o se remo&#231;a,
E outra vez conquistemos a Distancia-
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 

Mensagem, Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 23:22:39 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>Prece

Senhor, a noite veio e a alma &#233; vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silencio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chamma, que a vida em n&#243;s creou,
Se ainda h&#225; vida ainda n&#227;o &#233; finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A m&#227;o do vento pode erguel-a ainda.

D&#225; o sopro, a aragem- ou desgra&#231;a ou ancia-
Com que a chamma do esfor&#231;o se remo&#231;a,
E outra vez conquistemos a Distancia-
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 

Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 26 - An&#225;lise do poema O Mostrengo </title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_762725.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;O MOSTRENGO

O mostrengo que est&#225; no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
&#192; roda da nau voou tr&#234;s vezes,
Voou tr&#234;s vezes a chiar,
E disse: &#171; Quem &#233; que ousou entrar
Nas minhas cavernas que n&#227;o desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?&#187;
E o homem do leme disse, tremendo:
&#171;El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;


&#171;De quem s&#227;o as velas onde me ro&#231;o?
De quem as quilhas que vejo e ou&#231;o?&#187;
Disse o mostrengo, e rodou tr&#234;s vezes,
Tr&#234;s vezes rodou imundo e grosso,
&#171;Quem vem poder o que s&#243; eu posso,
Que moro onde nunca ningu&#233;m me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?&#187;
E o homem do leme tremeu, e disse:
&#171;El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;  


Tr&#234;s vezes do leme as m&#227;os ergueu,
Tr&#234;s vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer tr&#234;s vezes:
&#171;Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que &#233; teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;

Mensagem, Fernando Pessoa





</description>
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      <pubDate>Fri, 17 Mar 2006 00:55:22 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-19</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>O MOSTRENGO

O mostrengo que est&#225; no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
&#192; roda da nau voou tr&#234;s vezes,
Voou tr&#234;s vezes a chiar,
E disse: &#171; Quem &#233; que ousou entrar
Nas minhas cavernas que n&#227;o desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?&#187;
E o homem do leme disse, tremendo:
&#171;El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;


&#171;De quem s&#227;o as velas onde me ro&#231;o?
De quem as quilhas que vejo e ou&#231;o?&#187;
Disse o mostrengo, e rodou tr&#234;s vezes,
Tr&#234;s vezes rodou imundo e grosso,
&#171;Quem vem poder o que s&#243; eu posso,
Que moro onde nunca ningu&#233;m me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?&#187;
E o homem do leme tremeu, e disse:
&#171;El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;  


Tr&#234;s vezes do leme as m&#227;os ergueu,
Tr&#234;s vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer tr&#234;s vezes:
&#171;Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que &#233; teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. Jo&#227;o Segundo!&#187;

Mensagem, Fernando Pessoa





</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 25 - An&#225;lise do poema Ascens&#227;o de Vasco da Gama</title>
      <description>Ascens&#227;o de Vasco da Gama

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o &#243;dio da sua guerra
e pasmam. Pelo valle onde se ascende aos c&#233;us
Surge um sil&#234;ncio, e vae, da n&#233;voa ondeando os v&#233;us,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clar&#245;es.


Em baixo, onde a terra &#233;, o pastor gela, e a flauta
Cahe-lhe, e em extase v&#234;, &#224; luz de mil trov&#245;es,
O c&#233;u abrir o abysmo &#224; alma do Argonauta. 

Mensagem, Fernando Pessoa</description>
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      <pubDate>Wed, 15 Mar 2006 21:59:17 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-14</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-15</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Ascens&#227;o de Vasco da Gama

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o &#243;dio da sua guerra
e pasmam. Pelo valle onde se ascende aos c&#233;us
Surge um sil&#234;ncio, e vae, da n&#233;voa ondeando os v&#233;us,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clar&#245;es.


Em baixo, onde a terra &#233;, o pastor gela, e a flauta
Cahe-lhe, e em extase v&#234;, &#224; luz de mil trov&#245;es,
O c&#233;u abrir o abysmo &#224; alma do Argonauta. 

Mensagem, Fernando Pessoa</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 24 - An&#225;lise do poema D. Dinis</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632528.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um sil&#234;ncio m&#250;rmuro comsigo:
&#233; o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Imp&#233;rio, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
busca o oceano por achar;
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
&#233; o som presente desse mar futuro,
&#233; a voz da terra anciando pelo mar. </description>
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      <pubDate>Tue, 14 Mar 2006 23:11:06 GMT</pubDate>
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Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um sil&#234;ncio m&#250;rmuro comsigo:
&#233; o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Imp&#233;rio, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
busca o oceano por achar;
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
&#233; o som presente desse mar futuro,
&#233; a voz da terra anciando pelo mar. </itunes:summary>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 23 - A Multiplicidade de Fernando Pessoa</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632529.gif" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Tue, 14 Mar 2006 22:54:33 GMT</pubDate>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio - 22 - Um olhar sobre a obra  Mensagem</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Tue, 14 Mar 2006 18:42:20 GMT</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 21 - An&#225;lise do poema D. Afonso Henriques </title>
      <description>D. Afonso Henriques

Pae, foste cavalleiro.
Hoje a vig&#237;lia &#233; nossa.
D&#225;-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira for&#231;a!


D&#225;, contra a hora em que, errada,
Novos infi&#233;is ven&#231;am,
A b&#234;n&#231;&#227;o como espada,
A espada como ben&#231;&#227;o! </description>
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      <itunes:summary>D. Afonso Henriques

Pae, foste cavalleiro.
Hoje a vig&#237;lia &#233; nossa.
D&#225;-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira for&#231;a!


D&#225;, contra a hora em que, errada,
Novos infi&#233;is ven&#231;am,
A b&#234;n&#231;&#227;o como espada,
A espada como ben&#231;&#227;o! </itunes:summary>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 20 - An&#225;lise do poema Ulisses (voz de Vitor Oliveira)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632530.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Ulisses 

O mytho &#233; o nada que &#233; tudo.
O mesmo sol que abre os c&#233;us
&#201; um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.


Este, que aqui aportou,
Foi por n&#227;o ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por n&#227;o ter vindo foi vindo
E nos creou.


Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.</description>
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      <itunes:summary>Ulisses 

O mytho &#233; o nada que &#233; tudo.
O mesmo sol que abre os c&#233;us
&#201; um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.


Este, que aqui aportou,
Foi por n&#227;o ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por n&#227;o ter vindo foi vindo
E nos creou.


Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 19 - An&#225;lise do poema O dos Castelos (1&#170; Parte - Bras&#227;o)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632531.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;O dos Castelos - Bras&#227;o

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe rom&#226;nticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo &#233; recuado;
O direito &#233; em &#226;ngulo disposto.
Aquelle diz It&#225;lia onde &#233; pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A m&#227;o sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita &#233; Portugal.</description>
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      <pubDate>Mon, 13 Mar 2006 22:54:19 GMT</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>O dos Castelos - Bras&#227;o

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe rom&#226;nticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo &#233; recuado;
O direito &#233; em &#226;ngulo disposto.
Aquelle diz It&#225;lia onde &#233; pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A m&#227;o sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita &#233; Portugal.</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 18 - An&#225;lise do poema Horizonte - Mensagem</title>
      <description>&#211; mar anterior a n&#243;s, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerra&#231;&#227;o,
As tormentas passadas e o mysterio,
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio
'Splendia sobre as naus da inicia&#231;&#227;o.


Linha severa da long&#237;nqua costa -
Quando a nau se approxima ergue-se a encosta
Em &#225;rvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, h&#225; aves, flores,
Onde era s&#243;, de longe a abstracta linha.

O sonho &#233; ver as formas invis&#237;veis
Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
Movimentos da esp'ran&#231;a e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A &#225;rvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da Verdade. </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 22:02:36 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>&#211; mar anterior a n&#243;s, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerra&#231;&#227;o,
As tormentas passadas e o mysterio,
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio
'Splendia sobre as naus da inicia&#231;&#227;o.


Linha severa da long&#237;nqua costa -
Quando a nau se approxima ergue-se a encosta
Em &#225;rvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, h&#225; aves, flores,
Onde era s&#243;, de longe a abstracta linha.

O sonho &#233; ver as formas invis&#237;veis
Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
Movimentos da esp'ran&#231;a e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A &#225;rvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da Verdade. </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 17 - An&#225;lise do poema D. Fernando Infante de Portugal - Mensagem</title>
      <description>D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua sancta guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra&#231;a,
&#192;s horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.


Poz-me as m&#227;os sobre os hombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Al&#233;m, que me consome,
E este querer-grandeza s&#227;o Seu nome
Dentro em mim a vibrar.


E eu vou, e a luz do gl&#225;dio erguido d&#225;
Em minha face calma.
Cheio de Deus, n&#227;o temo o que vir&#225;,
Pois venha o que vier, nunca ser&#225;
Maior do que a minha alma. </description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 21:58:49 GMT</pubDate>
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      <itunes:summary>D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua sancta guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra&#231;a,
&#192;s horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.


Poz-me as m&#227;os sobre os hombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Al&#233;m, que me consome,
E este querer-grandeza s&#227;o Seu nome
Dentro em mim a vibrar.


E eu vou, e a luz do gl&#225;dio erguido d&#225;
Em minha face calma.
Cheio de Deus, n&#227;o temo o que vir&#225;,
Pois venha o que vier, nunca ser&#225;
Maior do que a minha alma. </itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 16 - Poema de &#193;lvaro de Campos -Esta Velha Ang&#250;stia ( na voz de Vitor Oliveira - Das Palavras aos Actos)</title>
      <description>&#193;lvaro de Campos

Esta Velha

   Esta velha ang&#250;stia, 
   Esta ang&#250;stia que trago h&#225; s&#233;culos em mim, 
   Transbordou da vasilha, 
   Em l&#225;grimas, em grandes imagina&#231;&#245;es, 
   Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, 
   Em grandes emo&#231;&#245;es s&#250;bitas sem sentido nenhum. 

   Transbordou. 
   Mal sei como conduzir-me na vida 
   Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! 
   Se ao menos endoidecesse deveras! 
   Mas n&#227;o: &#233; este estar entre, 
   Este quase, 
   Este poder ser que..., 
   Isto. 

   Um internado num manic&#244;mio &#233;, ao menos, algu&#233;m, 
   Eu sou um internado num manic&#244;mio sem manic&#244;mio. 
   Estou doido a frio, 
   Estou l&#250;cido e louco, 
   Estou alheio a tudo e igual a todos: 
   Estou dormindo desperto com sonhos que s&#227;o loucura 
   Porque n&#227;o s&#227;o sonhos. 
   Estou assim... 

   Pobre velha casa da minha inf&#226;ncia perdida! 
   Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! 
   Que &#233; do teu menino?  Est&#225; maluco. 
   Que &#233; de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? 
   Est&#225; maluco. 
   Quem de quem fui?  Est&#225; maluco.  Hoje &#233; quem eu sou. 

   Se ao menos eu tivesse uma religi&#227;o qualquer! 
   Por exemplo, por aquele manipanso 
   Que havia em casa, l&#225; nessa, trazido de &#193;frica. 
   Era fei&#237;ssimo, era grotesco, 
   Mas havia nele a divindade de tudo em que se cr&#234;. 
   Se eu pudesse crer num manipanso qualquer &#8212; 
   J&#250;piter, Jeov&#225;, a Humanidade &#8212; 
   Qualquer serviria, 
   Pois o que &#233; tudo sen&#227;o o que pensamos de tudo? 

   Estala, cora&#231;&#227;o de vidro pintado!</description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 11:23:54 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-12</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-12</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>&#193;lvaro de Campos

Esta Velha

   Esta velha ang&#250;stia, 
   Esta ang&#250;stia que trago h&#225; s&#233;culos em mim, 
   Transbordou da vasilha, 
   Em l&#225;grimas, em grandes imagina&#231;&#245;es, 
   Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, 
   Em grandes emo&#231;&#245;es s&#250;bitas sem sentido nenhum. 

   Transbordou. 
   Mal sei como conduzir-me na vida 
   Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! 
   Se ao menos endoidecesse deveras! 
   Mas n&#227;o: &#233; este estar entre, 
   Este quase, 
   Este poder ser que..., 
   Isto. 

   Um internado num manic&#244;mio &#233;, ao menos, algu&#233;m, 
   Eu sou um internado num manic&#244;mio sem manic&#244;mio. 
   Estou doido a frio, 
   Estou l&#250;cido e louco, 
   Estou alheio a tudo e igual a todos: 
   Estou dormindo desperto com sonhos que s&#227;o loucura 
   Porque n&#227;o s&#227;o sonhos. 
   Estou assim... 

   Pobre velha casa da minha inf&#226;ncia perdida! 
   Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! 
   Que &#233; do teu menino?  Est&#225; maluco. 
   Que &#233; de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? 
   Est&#225; maluco. 
   Quem de quem fui?  Est&#225; maluco.  Hoje &#233; quem eu sou. 

   Se ao menos eu tivesse uma religi&#227;o qualquer! 
   Por exemplo, por aquele manipanso 
   Que havia em casa, l&#225; nessa, trazido de &#193;frica. 
   Era fei&#237;ssimo, era grotesco, 
   Mas havia nele a divindade de tudo em que se cr&#234;. 
   Se eu pudesse crer num manipanso qualquer &#8212; 
   J&#250;piter, Jeov&#225;, a Humanidade &#8212; 
   Qualquer serviria, 
   Pois o que &#233; tudo sen&#227;o o que pensamos de tudo? 

   Estala, cora&#231;&#227;o de vidro pintado!</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 15 - Texto sobre &#193;lvaro de Campos (na voz de C&#233;lia Fonseca - Das Palavras aos Actos)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632532.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 11:20:04 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 14 - Texto informativo de car&#225;cter biobibliogr&#225;fico sobre Fernando Pessoa (na Voz de C&#233;lia Fonseca - Das Palavras aos Actos)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632533.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 11:14:09 GMT</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 13 - An&#225;lise do poema Mar Portugu&#234;s</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632534.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;Mar Portugu&#234;s

&#211; mar salgado, quanto do teu sal
S&#227;o l&#225;grimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas m&#227;es choraram,
Quantos filhos em v&#227;o rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, &#243; mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma n&#227;o &#233; pequena.
Quem quere passar al&#233;m do Bojador
Tem que passar al&#233;m da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele &#233; que espelhou o c&#233;u.

Fernando Pessoa, Mensagem
</description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 01:44:26 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-17</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-12</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Mar Portugu&#234;s

&#211; mar salgado, quanto do teu sal
S&#227;o l&#225;grimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas m&#227;es choraram,
Quantos filhos em v&#227;o rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, &#243; mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma n&#227;o &#233; pequena.
Quem quere passar al&#233;m do Bojador
Tem que passar al&#233;m da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele &#233; que espelhou o c&#233;u.

Fernando Pessoa, Mensagem
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 12 - An&#225;lise do poema D. Fernando, Infante de Portugal</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632535.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra&#231;a,
&#192;s horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

P&#244;s-me as m&#227;os sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
A esta febre de Al&#233;m, que me consome,
E este querer grandeza s&#227;o seu nome
Dentro de mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gl&#225;dio erguido d&#225;
Em minha face calma.
Cheio de Deus, n&#227;o temo o que vir&#225;,
Pois, venha o que vier, nunca ser&#225;
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem
</description>
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      <pubDate>Sun, 12 Mar 2006 01:25:15 GMT</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>

Deu-me Deus o seu gl&#225;dio, porque eu fa&#231;a
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgra&#231;a,
&#192;s horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

P&#244;s-me as m&#227;os sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
A esta febre de Al&#233;m, que me consome,
E este querer grandeza s&#227;o seu nome
Dentro de mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gl&#225;dio erguido d&#225;
Em minha face calma.
Cheio de Deus, n&#227;o temo o que vir&#225;,
Pois, venha o que vier, nunca ser&#225;
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 11 - Concep&#231;&#227;o de Arte segundo Pessoa (Excerto do Livro do Desassossego)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632536.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Sat, 11 Mar 2006 12:31:31 GMT</pubDate>
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      <dcterms:created>2006-03-11</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 10 - Fernando Pessoa Ort&#243;nimo - Autopsicografia</title>
      <description> AUTOPSICOGRAFIA 
O poeta &#233; um fingidor. 
Finge t&#227;o completamente 
Que chega a fingir que &#233; dor 
A dor que deveras sente.

E os que l&#234;em o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
N&#227;o as duas que ele teve,
Mas s&#243; a que eles n&#227;o t&#234;m. 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a raz&#227;o,
Esse comboio de corda
Que se chama cora&#231;&#227;o. 

Fernando Pessoa, Cancioneiro</description>
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      <pubDate>Fri, 10 Mar 2006 15:50:22 GMT</pubDate>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary> AUTOPSICOGRAFIA 
O poeta &#233; um fingidor. 
Finge t&#227;o completamente 
Que chega a fingir que &#233; dor 
A dor que deveras sente.

E os que l&#234;em o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
N&#227;o as duas que ele teve,
Mas s&#243; a que eles n&#227;o t&#234;m. 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a raz&#227;o,
Esse comboio de corda
Que se chama cora&#231;&#227;o. 

Fernando Pessoa, Cancioneiro</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 9 - Mensagem/Lus&#237;adas - Intertextualidade</title>
      <description>Mensagem - Fernando Pessoa

BENEDICTUS DOMINUS DEUS
NOSTER QUI DEDIT NOBIS
SIGNUM 

 PRIMEIRA PARTE 
    BRAS&#195;O 
I. - OS CAMPOS
Primeiro: O dos Castellos
Segundo: O das Quinas
II. - OS CASTELLOS
Primeiro: Ulysses
Segundo: Viriato
Terceiro: O Conde D. Henrique
Quarto: D. Tareja
Quinto: D. Affonso Henriques
Sexto: D. Diniz
S&#233;timo (I): D. Jo&#227;o o Primeiro
S&#233;timo (II): D. Philippa de Lencastre
III. - AS QUINAS
Primeira: D. Duarte, Rei de Portugal
Segunda: D. Fernando, Infante de Portugal
Terceira: D. Pedro, Regente de Portugal
Quarta: D. Jo&#227;o, Infante de Portugal
Quinta: D. Sebasti&#227;o, Rei de Portugal
IV. - A COROA
Nunalvares Pereira
V. - O TIMBRE
A Cabe&#231;a do Grypho: O Infante D. Henrique
Uma Asa do Grypho: D. Jo&#227;o o Segundo
A outra Asa do Grypho: Afonso de Albuquerque

      SEGUNDA PARTE 
MAR PORTUGU&#202;S
I: O Infante
II: Horizonte
III: Padr&#227;o
IV: O Mostrengo
V: Epitaphio de Bartolomeu Dias
VI: Os Colombos
VII: Occidente
VIII: Fern&#227;o de Magalh&#227;es
IX: Ascens&#227;o de Vasco da Gama
X: Mar Portuguez
XI: A Ultima Nau
XII: Prece

      TERCEIRA PARTE 
O ENCOBERTO
I. - OS SYMBOLOS
Primeiro: D. Sebasti&#227;o
Segundo: O Quinto Imp&#233;rio
Terceiro: O Desejado
Quarto: As Ilhas Afortunadas
Quinto: O Encoberto
II. - OS AVISOS
Primeiro: O Bandarra
Segundo: Ant&#243;nio Vieira
Terceiro: (Screvo meu livro &#224; beira-magua)
III. - OS TEMPOS
Primeiro: Noite
Segundo: Tormenta
Terceiro: Calma
Quarto: Antemanh&#227;
Quinto: Nevoeiro</description>
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      <pubDate>Fri, 10 Mar 2006 15:30:55 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-10</dcterms:created>
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      <dc:creator>adelina moura</dc:creator>
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      <itunes:summary>Mensagem - Fernando Pessoa

BENEDICTUS DOMINUS DEUS
NOSTER QUI DEDIT NOBIS
SIGNUM 

 PRIMEIRA PARTE 
    BRAS&#195;O 
I. - OS CAMPOS
Primeiro: O dos Castellos
Segundo: O das Quinas
II. - OS CASTELLOS
Primeiro: Ulysses
Segundo: Viriato
Terceiro: O Conde D. Henrique
Quarto: D. Tareja
Quinto: D. Affonso Henriques
Sexto: D. Diniz
S&#233;timo (I): D. Jo&#227;o o Primeiro
S&#233;timo (II): D. Philippa de Lencastre
III. - AS QUINAS
Primeira: D. Duarte, Rei de Portugal
Segunda: D. Fernando, Infante de Portugal
Terceira: D. Pedro, Regente de Portugal
Quarta: D. Jo&#227;o, Infante de Portugal
Quinta: D. Sebasti&#227;o, Rei de Portugal
IV. - A COROA
Nunalvares Pereira
V. - O TIMBRE
A Cabe&#231;a do Grypho: O Infante D. Henrique
Uma Asa do Grypho: D. Jo&#227;o o Segundo
A outra Asa do Grypho: Afonso de Albuquerque

      SEGUNDA PARTE 
MAR PORTUGU&#202;S
I: O Infante
II: Horizonte
III: Padr&#227;o
IV: O Mostrengo
V: Epitaphio de Bartolomeu Dias
VI: Os Colombos
VII: Occidente
VIII: Fern&#227;o de Magalh&#227;es
IX: Ascens&#227;o de Vasco da Gama
X: Mar Portuguez
XI: A Ultima Nau
XII: Prece

      TERCEIRA PARTE 
O ENCOBERTO
I. - OS SYMBOLOS
Primeiro: D. Sebasti&#227;o
Segundo: O Quinto Imp&#233;rio
Terceiro: O Desejado
Quarto: As Ilhas Afortunadas
Quinto: O Encoberto
II. - OS AVISOS
Primeiro: O Bandarra
Segundo: Ant&#243;nio Vieira
Terceiro: (Screvo meu livro &#224; beira-magua)
III. - OS TEMPOS
Primeiro: Noite
Segundo: Tormenta
Terceiro: Calma
Quarto: Antemanh&#227;
Quinto: Nevoeiro</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 8 - Portugal no tempo de Fernando Pessoa</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Thu, 09 Mar 2006 21:49:37 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
      <dcterms:created>2006-03-09</dcterms:created>
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      <title>Epis&#243;dio 7 - Mensagem - A Epopeia L&#237;rica (a cria&#231;&#227;o de um Portugal m&#237;tico)</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632537.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Thu, 09 Mar 2006 16:22:30 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-15</dcterms:modified>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 6 - An&#225;lise do poema D. Sebasti&#227;o, Rei de Portugal</title>
      <description>Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza
Qual a Sorte a n&#227;o d&#225;.
N&#227;o coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal est&#225;
Ficou meu ser que houve, n&#227;o o que h&#225;.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que &#233; o homem
Mais que a besta sadia,
Cad&#225;ver adiado que procria? 

Fernando Pessoa, Mensagem</description>
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      <pubDate>Wed, 08 Mar 2006 00:15:04 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-16</dcterms:modified>
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      <itunes:summary>Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza
Qual a Sorte a n&#227;o d&#225;.
N&#227;o coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal est&#225;
Ficou meu ser que houve, n&#227;o o que h&#225;.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que &#233; o homem
Mais que a besta sadia,
Cad&#225;ver adiado que procria? 

Fernando Pessoa, Mensagem</itunes:summary>
    </item>
    <item>
      <title>Epis&#243;dio 5 - Tend&#234;ncias Est&#233;ticas na transi&#231;&#227;o do s&#233;c. XIX para o s&#233;c. XX</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632538.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Tue, 07 Mar 2006 23:55:44 GMT</pubDate>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 4 - Fernando Pessoa e a sua &#233;poca (As Vanguardas e o Modernismo)</title>
      <description></description>
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      <pubDate>Mon, 06 Mar 2006 23:50:07 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-06-10</dcterms:modified>
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      <title>Episodio 2 - Vida e Obra de Fernando Pessoa</title>
      <description>&lt;img src="http://discursodirecto.podOmatic.com/mymedia/thumb/13843/0x0_632539.jpg" alt="itunes pic" /&gt;&lt;br /&gt;</description>
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      <pubDate>Mon, 06 Mar 2006 15:59:01 GMT</pubDate>
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    <item>
      <title>Epis&#243;dio 1 - An&#225;lise do poema &amp;quot;Impress&#245;es do Crep&#250;sculo&amp;quot;</title>
      <description>"Impress&#245;es do Crep&#250;sculo"

Pauis de ro&#231;arem &#226;nsias pela minh' alma em ouro...
Dobre long&#237;nquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...
T&#227;o sempre a mesma, a Hora!... Balou&#231;ar de cimos de palma!
Sil&#234;ncio que as folhas fitam em n&#243;s... Outono delgado
Oh que mudo grito de &#226;nsia p&#245;e garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as m&#227;os para al&#233;m, mas ao estend&#234;-las j&#225; vejo
Que n&#227;o &#233; aquilo que quero aquilo que desejo...
C&#237;mbalos de Imperfei&#231;&#227;o... &#211; t&#227;o antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-se a mim pr&#243;prio at&#233; desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de aur&#233;ola, transparente de Foi, oco de ter-se.
O Mist&#233;rio sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o n&#227;o conter-se...
A sentinela &#233; hirta - a lan&#231;a que finca no ch&#227;o
&#201; mais alta do que ela... Para que &#233; tudo isto.... Dia ch&#227;o...
Trepadeiras de desprop&#243;sitos lambendo de Hora os Al&#233;ns...
Horizontes fechando os olhos ao espa&#231;o em que s&#227;o elos de ferro...
Fanfarras de &#243;pios de sil&#234;ncios futuros... Longes trens...
Port&#245;es vistos longe... atrav&#233;s de &#225;rvores... t&#227;o de ferro!


</description>
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      <pubDate>Mon, 06 Mar 2006 15:50:31 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-03-21</dcterms:modified>
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Pauis de ro&#231;arem &#226;nsias pela minh' alma em ouro...
Dobre long&#237;nquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...
T&#227;o sempre a mesma, a Hora!... Balou&#231;ar de cimos de palma!
Sil&#234;ncio que as folhas fitam em n&#243;s... Outono delgado
Oh que mudo grito de &#226;nsia p&#245;e garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as m&#227;os para al&#233;m, mas ao estend&#234;-las j&#225; vejo
Que n&#227;o &#233; aquilo que quero aquilo que desejo...
C&#237;mbalos de Imperfei&#231;&#227;o... &#211; t&#227;o antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-se a mim pr&#243;prio at&#233; desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de aur&#233;ola, transparente de Foi, oco de ter-se.
O Mist&#233;rio sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o n&#227;o conter-se...
A sentinela &#233; hirta - a lan&#231;a que finca no ch&#227;o
&#201; mais alta do que ela... Para que &#233; tudo isto.... Dia ch&#227;o...
Trepadeiras de desprop&#243;sitos lambendo de Hora os Al&#233;ns...
Horizontes fechando os olhos ao espa&#231;o em que s&#227;o elos de ferro...
Fanfarras de &#243;pios de sil&#234;ncios futuros... Longes trens...
Port&#245;es vistos longe... atrav&#233;s de &#225;rvores... t&#227;o de ferro!


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      <title>Epis&#195;&#179;dio 1 - An&#195;&#161;lise do poema "Impress&#195;&#181;es do Crep&#195;&#186;sculo"</title>
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      <pubDate>Mon, 11 Jun 2007 03:18:57 GMT</pubDate>
      <dcterms:modified>2008-03-21</dcterms:modified>
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